domingo, 30 de junho de 2013

Resumo da ópera: o foco é a prática política

Todos demonstraram muita fragilidade, de cientistas sociais à grande imprensa. Os mais antenados conseguiram superar suas lacunas e responderam rapidamente à novidade. Mas, grande parte, não conseguiu ter a cabeça fria e definir seus limites. O mais interessante foi a revelação, por inteiro, desta imprensa militante conservadora, ao estilo Fox News, que quer induzir à adoção de uma ou outra bandeira, mesmo sendo duramente hostilizada nas manifestações. Sempre correndo para pegar a janelinha.
Muito do que ocorre hoje não é necessariamente novo em nosso país.
Em junho de 1968, em São Paulo, 5 mil estudantes, comandados por Zé Dirceu iniciaram uma passeata que logo saiu do controle. Automóveis foram atacados, coquetéis molotov foram lançados no largo do Arouche, vidros da Secretaria de Educação foram quebrados, um poste da São João com Ipiranga foi arrancado e arremessado contra o First National City Bank. Logo depois, começaria a famosa barricada da rua Maria Antônia.
Ontem, nossos jovens rebeldes tomaram a Câmara Municipal de Belo Horizonte. A foto que ilustra esta nota foi tirada ontem. Os policiais impediam o acesso às galerias onde vereadores votavam a redução do preço das passagens de ônibus. Impedidos de acompanharem (e intimidarem) de perto os vereadores, os jovens pintaram os escudos dos policiais com corações vermelhos. Começava a "ocupação artística", uma evolução nas manifestações das últimas semanas. Os vereadores, insensíveis, aprovaram a redução de 5 centavos e rejeitaram qualquer proposta de redução maior, assim como a abertura da planilha de custos e contratos da empresas de ônibus da capital mineira. Ganharam moedas, atiradas pelos cidadãos que tinham conseguido chegar às galerias.
Foi o que bastou. Os manifestantes, do lado de fora, decidiram ocupar a Câmara Municipal. Diziam que não sairiam enquanto o prefeito Márcio Lacerda não os recebesse.
É necessário ter mente aberta para entender estas ondas e mudanças de rumo dos manifestantes.
Ontem, às passeatas se somaram as "ocupações artísticas".
A segunda foto que ilustra esta nota registra o show de piano, como os jovens ao redor.
O foco não é a passagem, nem somente a educação ou saúde. O foco é a prática política.
Talvez, a situação mais visível e nítida ocorra em Belo Horizonte. Vereadores e prefeitos, a cada ato, revelam um profundo divórcio com as ruas e com o que os jovens tentam emitir para seus ouvidos.
Interessante que naqueles anos de regime militar havia como entender os motivos dos governantes não dialogarem com os jovens. Mas, hoje, o sistema de representação formal revela todo seu esgotamento com as cenas de incapacidade explícita de eleitos se sentirem apenas representantes. Parecem acreditar que são autoridades ungidas pelos deuses e que o voto foi apenas uma confirmação que os céus já haviam anunciado. Uma passagem mítica, uma licença poética. Isto é que parecem dizer nossos eleitos.
Os jovens continuam insistindo. Se apresentam.
E, por algum motivo, a maioria dos analistas e imprensa, continuamos perplexos.
No início deste domingo, os manifestantes decidiram continuar acampados na Câmara por tempo indeterminado.

Abaixo, reproduzo uma das mensagens postadas no facebook na noite de ontem:

Ocupa Câmara BH

Câmara Municipal de BH: Com o final da assembleia, a Ocupação Artística ganha força e muitos manifestantes estão no jardim. Piano, violão, rodas de conversa e jantar preparado na cozinha improvisada com alimentos doados fazem parte do cenário da Câmara nesse momento. Ainda nessa noite acontecerão o Sarau Vira Lata e o Duelo de MC's. 
A Assembleia Popular decidiu: a ocupação da Câmara Municipal continua até o prefeito Marcio Lacerda reconhecer a Assembleia como legítima e negociar com uma comissão de negociação aprovada na mesma."
 Mais pessoas chegam na Câmara a cada momento e trazem alimentos, água, suco e remédios. Os manifestantes informam que a Ocupação ainda precisa de:
- Pratos e copos descartáveis
- Pó de café
- Pasta de dente e absorvente
- Macarrão

Um comentário:

João Luiz Pena disse...

Pesquisa de Malini no Twitter identifica fim da bipolaridade política no Brasil => http://bit.ly/118RX7Q