sábado, 21 de novembro de 2009

O Seminarista, de Rubem Fonseca


Estou lendo o último Rubem Fonseca, O Seminarista (história de um assassino). É o melhor da literatura pop brasileira. Muito além do Paulo Coelho (que não sabe se descende de Paulo ou dos coelhos).

Brevíssimos comentários sobre música brasileira


Outro dia, li (na Folha ou no Globo) uma matéria que filiava Arrigo Barnabé à Bossa Nova. Henry Burnett, no artigo "A bossa também vem do povo" faz relação similar. Sinceramente, acho um equívoco. Mesmo porque, Barnabé cita outra influências, muito mais complexas. Em entrevista antiga, dizia que o início de tudo foi Picasso e Ezra Pound (que dizia que era preciso prestar atenção na sequência das vogais no verso). Cita, ainda, Bartók e Stravinsky. Se era para fazer paralelo com música brasileira, melhor citar Villa-Lobos e seu Rudepoema (a obra musical brasileira mais complexa e de difícil execução). Para quem desejar comparar, clique aqui (Rudepoema) e aqui (Clara Crocodilo, de Arrigo).

Para pegar o embalo, sugiro uma visita à "Pássaros em Festa", de Ernesto Nazareth. Tudo começa pelo título, pássaros em festa.

A disputa petista em Minas na Folha de hoje


O painel da Folha da edição de hoje quase anuncia a vitória de Reginaldo-Fernando Pimentel na PED (eleição interna para as direções petistas) de amanhã, em MG. Vai até mais longe e afirma que Patrus já estaria se preparando para ser candidato a senador.
Acho que o jornalismo tem que arriscar, mas não existe dado algum para se afirmar, às vésperas da PED, algo do gênero. Explico: não existem pesquisas de opinião confiáveis a respeito. Neste caso, a conclusão parte de opiniões de lideranças em disputa. Não existe uma viva alma na academia que tenha condições de fazer previsões objetivas. Os que fazem, estão até o pescoço envolvidos diretamente na disputa. Não falam como acadêmicos, mas como militantes, mesmo que a postura seja outra.
Há, de fato, como já citei neste blog, sinais trocados a respeito da PED de amanhã em MG. Mas a Folha, ao noticiar uma previsão e dar sequência em relação ao futuro de Patrus e Pimentel, faz política. Longe de ser notícia.
Acredito que este problema tem origem em duas situações graves que afetam o jornalismo da área política. A primeira, diz respeito ao ritmo frenético do jornalismo atual, em que um furo é a notícia. O tempo é curto e a noção de presente e passado quase que se diluiu na imprensa. A segunda situação é ainda mais grave e foi dita para mim, um dia, por Fernando Mitre, da Bandeirantes: os jornalistas têm uma impressão equivocada de poder. Falam com lideranças e suas informações repercutem de tal forma que imaginam que são o centro do jogo político. Mas não são. O que quero afirmar é que esta escalação política é temerária e é uma apelação jornalística. Sei que não se faz deliberadamente. Mas é necessário, como um psicanalista, que os jornalistas se preparem mais para controlar sua pulsão. Principalmente quando trata de política, porque confundem o público com o privado. Algo que eles mesmos criticam tanto.

Sobre o conceito de desenvolvimento


Apenas para comentar, de leve. O conceito mais interessante (ou instigante) de desenvolvimento é o de Polanyi. Embora diga mais respeito ao método que ao conteúdo, adota uma perspectiva gramsciana e sugere que desenvolvimento é a haibilidade de um agrupamento social em conseguir apoio fora de seu grupo de interesses seccionais, além de sua capacidade de executar tarefas estabelecidas por interesses mais amplos do que o seu próprio. Sei que se aproxima dos conceitos de governabilidade e governança, mas estes dois últimos estão tão desgastados pelo uso indiscriminado que parecem mais receita de gestão, uma espécie de topa-tudo da ciência política. O que me agrada no conceito de Polanyi é a centralidade da ação política, da habilidade humana, algo que a literatura anglo-saxônica em ciências sociais quase baniu. Como se fosse algo imponderável e, portanto, nada científico. Ao contrário, o racionalismo excessivo é mais cibernético que humano.

PIB brasileiro e mundial para 2010


A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou nesta quinta-feira novas projeções para a economia mundial. A entidade elevou a previsão do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2010 de alta de 4% para 4,8% e espera crescimento de 4,5% em 2011. Para 2009, a previsão para o PIB passou de queda de 0,8% para estabilidade.
Segundo as estimativas, o PIB mundial deve encolher 1,7% em 2009 e deve voltar a expandir 3,4% em 2010 e 3,7% em 2011. Para a China, a OCDE também melhorou a perspectiva de avanço em 2010, de 9,3% para 10,2%, e em 2011 para 9,3%. Já a economia americana deve recuar 2,5% em 2009, crescer 2,5% em 2010 e 2,8% em 2011.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Uma internacional dos movimentos sociais?

De Álvaro García Linera, Vice-Presidente da Bolívia e Presidente do Congresso boliviano:

"Creio que a articulação deles em nível continental e sua participação nesses processos de integração é ainda muito incipiente. O neoliberalismo fragmentou tudo e reduziu as articulações a uma união via ONGs. Não era uma articulação autônoma. Hoje começa haver um encontro cara-a-cara de companheiros que se convidam, mas ainda avançaram pouco. Temos que ir além dos fóruns, que foram importantes nos anos 1990 para juntar 1990, rompendo as suscetibilidades de direções e de hegemonias, mas muito débeis, frouxos em seus discursos. A tomada de ações vinculantes não foi feita por nenhum dos fóruns. As pessoas retornavam para suas casas para arrumar seus papéis para convocar outro fórum. Necessitamos de uma estrutura bolchevique, que o MST tem, do movimento social. Isso tem que vir deles, não dos governos. Ainda não se criou uma plataforma continental dos movimentos sociais. Sei que isso é complexíssimo. Digamos que nem ao nível de países isso se dá, porque isso acontece em momentos espetaculares. A pauta de nacionalizações, por exemplo, dá lugar a revoluções. Mas precisamos desse esforço de nos olharmos como continente, não somente acompanharmos as ações dos presidentes. Quando há reunião da Alba, os movimentos sociais se reúnem e debatem temas complementares aos dos presidentes, melhor ainda quando os temas debatidos entre presidentes foram previamente discutidos com lideranças. Mas é necessário ir além. É dificílimo, mas talvez seja hora de projetar uma internacional continental de movimentos sociais, uma estrutura como uma internacional comunista, mas de movimentos sociais, continental e depois pensar em ir para o mundo. Diante da possibilidade de que em algum país de nosso continente a direita retome o governo, como eles não vão pautar uma mobilização? Ao fim e ao cabo, se essa leva progressista for para trás, quem mais sofrerá serão os movimentos. Eles estão obrigados a pensar continentalmente e devem defender e empurrar mais para lá esses processos. O século 21 exige novos compromissos, maiores ações e a melhor experiência a ser resgatada está nas reflexões de Marx sobre a Primeira Internacional, onde se juntaram partidos, sindicatos, agremiações, marxistas, anarquistas, socialistas... articulavam-se continentalmente com debilidade, mas com firmeza e vinculação de suas decisões. É melhor do que a Internacional leninista, e talvez a melhor referência para uma Internacional hoje não seja bolchevique, mas a comunista de Marx em seu debate fascinante com Bakunin [Mikhail Bakunin, um dos intelectuais fundadores do anarquismo]. Como se toma as decisões? É pela autoridade moral das organizações, dizia. Não se obriga a ninguém, mas todos estão comprometidos a cumprir o que decidiram. Precisamos de um novo passo já nessa década: uma internacional de movimentos sociais com maior capacidade de vinculação em suas decisões, de mobilização desde os países e com uma agenda comum debatida continentalmente por eles para defender esse processo, para controlá-lo e radicalizá-lo."

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A PED do PT em Minas Gerais

Embora com tempo curtíssimo nesta semana, não tenho como comentar, ainda que ligeiramente, o processo eleitoral do PT, que define as próximas direções do partido em todo país (PED).
Aqui em MG, Patrus e Fernando Pimentel travam uma guerra surda. Com sinais trocados. Explico.
Patrus apresenta a chapa mais recheada de medalhões do partido: do ministro Luis Dulci ao presidente da CUT estadual, passando por prefeitos (como a de Betim), deputados e tal e coisa.
A chapa de Pimentel praticamente não tem figuras do interior, concentrada na máquina da capital.
Por aí, Patrus ganharia de lavada, não?
Pois é. Para responder esta pergunta teria que ser mineiro. Mas sou paulista. E entendo com dificuldades os sinais políticos de mineiros. O pessoal de Pimentel está muito mais confiante que o pessoal de Patrus. Tão confiante que lançaram publicamente uma espécie de desafio: quem ganhar esta eleição interna, leva a convenção de 2010 e a legenda para disputar as eleições do governo estadual. O pessoal de Patrus não gostou nadinha de nada desta provocação. O ex-deputado e vereador Carlão Pereira chegou a elaborar um breve artigo dizendo que esta tese é fraquinha.
Mas a dúvida que fica é: se estão fortes, qual o problema com esta tese?

Até você?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A "liberdade" cubana


Como alguém que se diz de esquerda pode apoiar o regime cubano?
Se desejam mergulhar nesta seara kafkiana, entrem no blog de Yoani Sánchez. Esta jovem blogueira, premiada mundialmente, de 49 quilos, foi sequestrada e surrada por três brutamontes, na tarde da sexta-feira 6. Sofreu ameaças e espancamentos antes de ser jogada na calçada de um bairro longínquo. Yoani escreve há dois anos sobre as dificuldades de viver na ilha no blog Generación Y (www.desdecuba.com/generaciony).
Visitem este blog. Dentre vários relatos, destaco um logo abaixo. Ela resolveu fotografar todos que a seguem e postar no blog. Diz que de caça virou caçadora. Era sexta-feira em que se comemorava a queda do Muro de Berlim. Um grupo de jovens artistas cubanos planejava uma passeata contra a violência naquele dia.

Vejam este relato:

"Estoy superando las lesiones físicas derivadas del secuestro del viernes pasado. Los moretones van cediendo y ahora mismo lo que más me molesta es un dolor punzante en la zona lumbar que me obliga a usar una muleta. Anoche fui al policlínico y me han puesto un tratamiento contra el dolor y la inflamación. Nada que mi juventud y mi buena salud no puedan superar. Afortunadamente, el golpe que me di cuando pusieron mi cara contra el piso del auto no ha afectado mi ojo, sino solamente el pómulo y las cejas. Espero estar recuperada en pocos días. Gracias a los amigos y familiares que me han atendido y apoyado, se están desvaneciendo incluso las secuelas psíquicas, que son las más difíciles. Orlando y Claudia todavía están bajo el shock, pero son increíblemente fuertes y también lo lograrán. Ya hemos empezado a sonreír, que es la mejor medicina contra el maltrato. La terapia principal sigue siendo para mí este blog y los miles de temas que todavía me quedan por tocar en él."

Apostas sobre o futuro tucano

Estou recebendo algumas análises sobre possíveis cenários para o PSDB 2010. A mais interessante acabo de receber. Sugere que Serra desistirá da candidatura, mas tão próximo do final do primeiro semestre que não dará chances para preparação de Aécio. O que acabará por colocar como muito provável a eleição de Dilma.
Motivo de Serra: a diminuição gradativa da diferença do índice de intenção de votos entre ele e Dilma.

Uma marola pró-Aécio


Na última semana surgiu uma espécie de marola pró-candidatura de Aécio.

Primeiro, a IstoÉ cita pesquisa Vox Populi, que indicaria o governador mineiro como favorito para as eleições presidenciais de 2010, na pesquisa espontânea. O tucano, que registrou 11% da preferência dos eleitores, fica atrás apenas do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que recebeu 13% das intenções de voto, mas não pode concorrer ao cargo pela terceira vez consecutiva. Na pesquisa espontânea, os nomes dos possíveis candidatos não são apresentados aos entrevistados.

Depois, o Porandubas, editado por Gaudêncio Torquato sugeriu que Aécio é melhor nome para os tucanos que Serra.

Aí começaram a pipocar (repercutir é a palavra correta) pela internet. Waldo Luís Viana, economista anti-Lula que divulga seus artigos para meio mundo, enviou artigo que termina assim:
"Só falta o Serra fazer o papel de saco de pancada. Com aquela cara de vampiro e a cabeça de Fernando Henrique, careca e chato, é a derrota estampada. Por isso, digo, meus dezessete eleitores, que a City britânica, o grupo Bilderberg, e as agências multilaterais já se decidiram: o candidato ideal, para os negócios, é o Aecinho... (...) É o nosso Sarkosy. Só falta saber quem será a nossa Carla Bruni. Por que oito anos de Mariza Letícia, pelo amor de Deus..."

Não dá para dizer que é uma onda. Ainda é marola. Mas bem orquestrada.

Universidade brasileira, por Fausto Castilho


1) Universidades verdadeiras são pouquíssimas. Eleições para reitor, mera rotina administrativa. A USP Leste, uma excrescência. Quer uma mexida estrutural no eixo educacional brasileiro. Explica em detalhes no livro O Conceito de Universidade no Projeto da Unicamp.

2) Propõe a adoção da estrutura de liceu. Na França, há dois currículos: um chamado tradicional e outro chamado profissional. Dos 4.339 liceus, 2.449 são tradicionais e 1.890 profissionais. Por paradoxal que seja, a população prefere o tradicional, que tem grego, história, arte, literatura. É por isso que nesses países há um eleitorado diferenciado. Ele tem muita capacidade de decisão. Os operários também preferem o currículo tradicional. A inteligência não escolhe classe de renda.

3) Na Unicamp, fizemos tudo para o que o contato com as disciplinas básicas fosse feito a pé. Você não precisa motorizar. Ali, o campus não se confunde com a cidade universitária. O campus é a enciclopédia espacialmente estruturada, enquanto a cidade universitária abrange, por exemplo, os organismos administrativos e financeiros. Agora, se a Unicamp terá sucesso nessa empreitada, não sei dizer. Vai depender da força do sistema brasileiro de ensino superior, que é antiuniversidade. O sistema brasileiro de ensino superior foi implantado por D. João VI para desfazer as realizações do Marquês de Pombal. É um processo que persiste desde o século 19 e se infiltra em todas as universidades: são os advogados, os engenheiros, os médicos, profissionais de mercado que nada têm nada a ver com a universidade. Eles querem um papel que tenha o nome da universidade sem nunca terem frequentado a própria. Foram apenas à faculdade deles. A universidade verdadeira se distingue pelo homem de ciência, alguém que seja capaz de ensinar.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Premiação de professores por desempenho de alunos

Formação de professores nas universidades


Sobre a questão da nota abaixo, tenho uma leitura muito similar à do ex-ministro Paulo Renato. Não destacaria universidades especificamente, mas é evidente que as universidades brasileiras não sabem formar professores. E é evidente que teorias gerais se sobrepõem às questões concretas da sala de aula. Em todo o país, quando se pergunta quais são os instrumentos básicos de avaliação pedagógica, todos ficam quietos. Ninguém sabe distinguir claramente uma prova objetiva de prova operatória, ou que dado uma auto-avaliação busca que difere de observação e registro. Se não se sabe avaliar, como é possível dialogar com dificuldades de aprendizagem?
É tão básico quanto um médico saber fazer anamnese.

Professores da Unicamp rebatem Paulo Renato


A UNICAMP RESPONDE A PAULO RENATO

Ao tentar defender a política meritocrática repaginada pela Secretaria de Estado de Educação de São Paulo, o Sr. Secretário da Educação Paulo Renato Souza atribui grande responsabilidade pelos problemas da escola aos professores e à sua formação, apontando as Faculdades de Educação, e nominalmente a Unicamp e Usp, pelos males da Educação do Estado de São Paulo.
Afirma o Sr. Secretário que a formação nesses cursos é muito teórica e ideológica, em que se defende a ausência de método e não se provê o professor de técnicas adequadas de ensino.
Não ingenuamente, o Sr. Secretário de Educação faz parecer que universidades públicas e privadas funcionam a partir dos mesmos princípios e condições, com os mesmos propósitos e a mesma qualidade, o que nem de longe corresponde à realidade.
Induz também a pensarmos que são as instituições públicas que formam a maioria dos professores do Estado, o que também não corresponde à realidade. No Estado de São Paulo, infelizmente, as universidades públicas paulistas são responsáveis por apenas 25% das vagas universitárias, contra 75% das privadas.
Vale dizer que essa discrepância não parte de uma opção das universidades públicas, mas foi produzida, nos últimos 15 anos, pela própria política de encolhimento do setor público e ampliação do setor privado que ele, então Ministro da Educação, ajudou a implementar.
Soa estranho, então, que a responsabilizaçã o pela suposta má formação dos professores recaia exatamente no setor minoritário, em termos numéricos, quanto à formação de professores.
Pior fica perceber que o ex-Ministro e atual Secretário de Educação do Estado desconhece os projetos e currículos dos cursos de pedagogia da Unicamp e Usp, pelos quais o Estado é responsável.
No caso do curso de Pedagogia da Unicamp, há mais de uma década temos defendido e trabalhado, como princípios norteadores de nosso currículo, a formação teórica sólida (da qual certamente não abrimos mão, já que formamos educadores e não técnicos), a pesquisa como eixo de formação, a unidade teoria-prática, sendo o nosso compromisso, como universidade pública, com a educação pública de qualidade para todos. Em nossa última reforma curricular, foi exatamente nas atividades de pesquisa e prática, e no estágio supervisionado, que logramos ampliar nossa carga horária e nossas experiências de formação.
Nada na nossa organização curricular e nos nossos planos de ensino aponta para a defesa do espontaneísmo e ausência de pesquisa sobre a prática, como afirma nosso secretário. Equivoca-se o Sr. Secretário ao confundir autonomia do professor, como intelectual que reflete sobre a própria prática e toma decisões, com ausência de método. Nossa ênfase na formação continuada a partir dos projetos pedagógicos das escolas, como trabalho coletivo, reforçam essa diferença.
Se pensar criticamente a realidade, conhecer os problemas do nosso país, dos nossos alunos concretos, dos nossos professores concretos, é visto pelo Sr. Secretário como “viés ideológico”, o que dizer da assunção de uma meritocracia cruel e desumana, que se assenta de forma alienada sobre as profundas desigualdades que marcam o nosso Estado e o nosso país, escamoteando e ocultando suas verdadeiras causas por meio do discurso falacioso da meritocracia? Não haverá também aí viés ideológico, e a questão não estaria na opção que fazermos, de nossa parte, por defender uma educação de qualidade para todos, e da parte do Governo do Estado, em manter a desigualdade entre a educação para o povo e a educação para as elites? Ou pretende o Sr. Secretário zombar da inteligência do leitor, querendo fazer crer que a política por ele desenvolvida é neutra, imparcial, desprovida de ideologia?
Apenas para ilustrar nosso compromisso e vínculo com a realidade e o cotidiano escolar, e a relevância do trabalho que realizamos, segundo dados fornecidos pela Assessoria de Imprensa da Unicamp, a pesquisa realizada nesta Universidade mais consultada neste ano de 2009 é da Faculdade de Educação e, talvez para surpresa do Sr. Secretário, trata de uma questão pungente da sala de aula: o ensino de matemática. Esse é apenas um exemplo dos estudos que realizamos e nossa produção aponta a intensidade do vínculo que estabelecemos com a escola pública, nas nossas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Além disso, o Sr. Secretário desconhece que o curso de Pedagogia da Unicamp foi reconhecido, durante os últimos anos, como um dos melhores do país.
Quanto à forma como encaramos a relação público-privado, vale salientar que, em muitos países em que dizemos nos espelhar, a educação pública de qualidade é um direito da população, as condições de trabalho e salário docente são garantidas sem a necessidade do apelo à alegoria do discurso meritocrático, e a maioria das vagas universitárias são públicas (como nos Estados Unidos e na nossa vizinha Argentina). E, para informação do Sr. Secretário, a verba pública não é do governo nem do setor econômico; provém dos muitos impostos que nós, trabalhadores paulistas, brasileiros, pagamos, com o suor de nosso trabalho. A educação de qualidade, portanto, é nosso direito e obrigação do Estado.

Congregação dos professores da Faculdade de Educação da UNICAMP

Desde Uruguay

A doce días de la segunda vuelta en Uruguay, se termino de pudrir todo el clima de tranquilidad que había, aunque era una tranquilidad rara…
Digamos que el Partido nacional termino de pudrirla con un spot publicitario que edito para todo el interior del país. Donde claramente violan la veda, la cual no permite hacer ningún tipo de propaganda antes de las dos ultimas semanas de cara a la elección. Por un lado las encuestas marcan al Frente como ganador por más de 9 puntos de diferencia, el hecho de que el Candidato de izquierda no quiera ir al debate hace que el candidato del partido nacional se sienta en desventaja y comience a utilizar cualquier tipo de artimaña para así lograr algún voto, pero esto le ha jugado en contra.
También tenemos que decir que la gran mayoría de los dirigentes del partido colorado (el otro partido tradicional de derecha) votaran o al menos es lo que dicen, al partido Nacional; aunque la suma total de los dos partidos tradicionales no alcance para pasar al candidato del Oficialismo.
Alex Villafan
Director IPP
Instituto de Pedagogia Popular Paulo Freire
Director Puentes de Vida
www.alexvillafan.blogspot.com
www.puentesdvida.blogspot.com

Resultado da enquete do blog

Estava submerso numa consultoria e não tive condições de atualizar o blog no final da semana. A enquete do blog sobre o impacto das Olímpiadas ficou assim:
O reconhecimento internacional do Brasil Potência ficou com 50% dos votos
Corrupção ganhou 46% dos votos (o blog aceita mais de uma alternativa por votante)
Estruturas e incentivos para o esporte ganhou 41% dos votos
Elefantes Brancos será o legado para 35%

Em suma: 91% de avaliações positivas e 81% de avaliações negativas. Não me lembro de resultado de enquete tão apertada.

Poranduba analisa Serra e Aécio

SERRA
José Serra tende a cair nas pesquisas, até porque, hoje, seu alto índice de intenção de voto - que beira os 40% - reflete recall da alta visibilidade, de ontem e de hoje. E índice de recall não pode ser considerado seguro. Em uma campanha, valerá o índice da exposição e dos programas apresentados. Sempre pinço o exemplo de Gilberto Kassab. Como se recorda, ele, quando candidato, começou com 4%. Em abril de 2008, patinava baixo. Ganhou a campanha.

AÈCIO
Diante dessa moldura - ligeira, é claro - aconselho os leitores a uma reflexão. Aécio Neves não tem o que perder. Serra tem e muito. Se perder a campanha presidencial, encerra a carreira. A idade atrapalharia nova jornada. Aécio Neves poderia ser o candidato tucano, até porque tem o segundo colégio eleitoral do país nas mãos, o terceiro lhe seria simpático (Rio de Janeiro) e o nordeste poderia contar com um candidato que tem um pedaço do Estado sob o solo nordestino (o norte de Minas, Montes Claros está sob a égide da SUDENE).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Guerra ou Paz?


Por qual motivo o presidente do PSDB, o senador Sérgio Guerra, resolveu afirmar que "Aécio é mais amplo politicamente que o governador José Serra" para, em seguida, afimar que "Serra tem a vantagem de ser mais conhecido e essa não é uma vantagem pequena. Tem a vantagem de ter a preferência de votos de uma grande parcela do eleitorado e faz um governo excelente em São Paulo, que é um grande colégio eleitoral"?
Vamos às apostas:

1) Resolveu dar mais tempo à Serra (tal como o governador paulista deseja), criando uma nuvem de fumaça;
2) Decidiu estimular o governador mineiro, num suspiro final, a continuar disputando com o governador paulista;
3) Reeditou o velho estilo "um dia eu decido, mas não agora" dos tucanos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Creche e Pré-Escola continuam com alto déficit de cobertura


Somente 6% dos recursos para a construção de creches e pré-escolas foram executados
O II PNPM (Plano Nacional de Políticas para as Mulheres) tem como metas aumentar em 12%, entre 2008 e 2011, o número de crianças entre zero e seis anos de idade frequentando creche ou pré-escola na rede pública; e construir 1.714 creches e pré-escolas, entre 2008 e 2011. Mas se o ritmo das ações neste sentido não for acelerado, outra vez, ficaremos longe de alcançar essas metas que, por sinal, são muito modestas face ao peso da dupla jornada de trabalho sobre a vida das mulheres.
Dos R$1,7 bilhões de recursos específicos que o MEC comprometeu com a execução do II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, no período de quatro anos, R$1,6 são destinados a construção de creches3 (ação orçamentária 09cw - Apoio à reestruturação da rede física pública da educação básica, do Programa Qualidade na Escola) que até setembro último empenhou apenas 6% dos R$535,3 milhões autorizados.
Para 2010, o projeto de lei orçamentária prevê de R$1,036 bilhões para essa mesma ação. E é importante as mulheres ficarem de olho, pois a solicitação deve vir do município para a construção da creche.
Essa ação, no II PNPM é responsável pela execução de quatro prioridades: 1.3.3. Construir, reformar e aparelhar creches e pré-escolas e melhorar a qualidade dos equipamentos existentes; 2.6.7. Construir escolas em terras indígenas; 2.6.8. Construir escolas em comunidades remanescentes de quilombos; 2.6.13. Construir escolas em áreas do campo.

Conferência Estadual de Educação de MG


Participei, hoje, do COEED, preparação da conferência nacional de educação que ocorrerá em 2010. Estavam lá mais de 1.200 delegados de todo Estado de Minas Gerais. Falei sobre educação de qualidade, gestão democrática e avaliação, Eixo 2 da programação oficial. Minha tese é que estamos vivendo uma onda conservadora na educação nacional há cinco anos. O caso Geisy, para mim, é apenas uma expressão do conservadorismo e estilo empresarial que envolveu toda política educacional do país. Critiquei as avaliações sistêmicas por serem um mero retrato quantitativo focado no resultado e não no processo de aprendizagem. IDEB, SIMAVE, SARESP e outros não oferecem informações educacionais para os professores. Também citei o equívoco das avaliações individuais de desempenho na área educacional justamente porque a educação é um ato consorciado, em que a família representa mais de 70% do desempenho do aluno (Vygotsky já havia destacado o hábito, que no jargão russo do início do século, ainda muito impregnado por Pavlov, denominavam de condicionamento).
O debate foi excelente. Uma proposta de eliminação das avaliações sistêmicas já havia sido aprovada na conferência da macroregião metropolitana.
Há muito o que se discutir. Discutimos os problemas de dificuldades de alfabetização dos alunos que ingressaram nas escolas públicas (transformando-as efetivamente em escolas públicas) nos últimos dez ou quinze anos. Antes, muitas escolas públicas eram de elite, principalmente as estaduais, localizadas nas regiões nobres das cidades interioranas. Agora, milhões de crianças e adolescentes, muitos oriundos da nova classe média brasileira, frequentam as escolas. Pais e avós que pouco ou nada leram. Que não consumiam livros, não viajavam para lugares distantes, não tinham um cardápio muito plural. E nossas universidades não preparam os futuros professores para entender esta mudança do perfil sociológico das escolas. Continuam distribuindo tarefas (lições ou para casa, dependendo da região do país) para fazerem em casa, humilhando os pais e desconhecendo que 35% das famílias são chefiadas por mulheres de baixa renda e, quase sempre, sem a ajuda do marido. Também discutimos a necessidade de um novo avanço no projeto curricular das escolas e universidades, voltado para o papel política que o Brasil assume como liderança no nosso continente.
Fiquei muito motivado e feliz com o debate.
O ponto negativo foram os depoimentos de como a Escola Plural, reforma ousada da rede municipal de Belo Horizonte (no período Patrus Ananias) está absolutamente abandonada. Na verdade, mais que isto: a política municipal educacional, pelos relatos, é retrógrada e exatamente o inverso do que era a Escola Plural. Uma pena.

sábado, 7 de novembro de 2009

Por qual motivo FHC está polarizando com Lula-Dilma?


Que Lula e Dilma Rousseff aceitem o embate com o PSDB é justificável. Mas qual motivo levaria FHC a incentivar este bate-boca recente?
Seria mero exercício de narcisismo (no mesmo sentido das declarações sobre legalização das drogas)?
Seria uma tentativa de forçar a polarização desde já?

A segunda hipótese levaria ao pensamento estrategista e revelaria informação privilegiada sobre o futuro de Ciro Gomes.
Fico com a primeira hipótese. FHC nunca foi um bom estrategista.

Keynes, por Chris Harman


Harman, que faleceu hoje, foi um importante membro do Partido Socialista dos Trabalhadores (Socialist Workers Party), da Inglaterra, e da tendência Socialismo Internacional.

As duas facetas de Keynes
Chris Harman

Economistas de esquerda e de direita apresentam as idéias e propostas de Keynes como resposta à atual crise do capitalismo. Desde as teorias de Keynes, pretende-se fazer pequenas mudanças que não desafiem fundamentalmente o funcionamento do capitalismo. Não é hora, para quem se reivindica de esquerda, de reconhecer suas debilidades?
"Hoje, todos acham que foi um grande economista". É o que diz um artigo do Financial Times sobre John Maynard Keynes. E é o que aparenta ser. Dizem que Keynes mostrou nos anos 30 como superar as crises e que seus métodos podem ser aplicados aos dias atuais.
Entretanto, há um grande erro nesta mensagem. Keynes nunca mostrou como superar as crises nos anos 30, o que fez foi polemizar impiedosamente contra aqueles que consideravam que as crises poderiam ser superadas a partir da piora das condições de vida dos trabalhadores e que, em última instância, era o preço a ser pago para salvar a economia de mercado. Os argumentos de Keynes sobre a idiotice de acreditar que o mercado solucionaria nossos problemas continuam relevantes para os dias de hoje.
Os economistas convencionais de hoje confiam na chamada Lei de Say que defende que não se pode gerar uma crise de superprodução porque alguém sempre compra algo que alguém vende. Keynes tinha um ponto de vista que já havia sido colocado 60 anos antes por Karl Marx (mesmo que Keynes tenha dito que leu algumas poucas páginas das obras de Marx): tudo que é produzido pela economia apenas pode ser vendido se os trabalhadores gastam todo seu salário e os capitalistas gastam todos seus lucros. Os trabalhadores não podem evitar com que gastem todo seu salário. Mas os capitalistas podem decidir guardar seus lucros em bancos ou "debaixo da cama", ao invés de utilizá-los para investimentos ou gastos próprios. Neste caso, abre-se uma brecha entre o que se produz e o que se pode vender.
Aos que diziam que mais bens podem ser vendidos e que o desemprego pode desaparecer se os trabalhadores aceitassem reduções salariais - o que permitiria uma queda nos preços - Keynes respondeu que isto significava que os trabalhadores comprariam menos bens. E, conseqüentemente, implicaria em mais reduções salariais e diminuição das vendas. Desta maneira, ele destruiu o argumento que era utilizado como justificativa para não fazer nada sobre as massas desempregadas. Mas ele não encarou seus argumentos como "anticapitalistas", mas sim como uma forma de convencer os capitalistas a aceitar mudanças que poderiam salvar o capitalismo.
Keynes escreveu que sua teoria era "moderadamente conservadora em suas implicações". Seu biógrafo, Lord Skidessky, diz que as propostas de Keynes foram adaptadas “levando em conta a psicologia da comunidade empresarial. Na prática, ele foi muito cauteloso”. Tudo o que era necessário era a capacidade de intervenção do Estado para elevar o nível de investimento e de consumo. Dois tipos de medidas eram necessários.
Em primeiro lugar, os governos deveriam reduzir a taxa de juros. Isto poderia encorajar as pessoas a gastarem, ao invés de guardarem, sua renda, o que proporcionaria um mercado para a produção e encorajaria as empresas a investirem. No entanto, Keynes reconhecia que era "um tanto cético sobre a mera aplicação de políticas monetárias". Segundo, os governos poderiam realizar gastos por conta própria que seriam financiados por empréstimos. Tal "déficit de financiamento" seria eventualmente pago por conta própria, já que ao ocorrer crescimento econômico o governo arrecadaria com o aumento de impostos.
Mas quando suas políticas foram postas em prática, Keynes estava preocupado por causar incômodo aos capitalistas, já que a reação psicológica deles determinava de que forma o investimento seria aplicado. Logo, suas propostas eram muito moderadas para poder pôr um fim à Grande Depressão. No início dos anos 30, quando o desemprego aumentava em 100%, Keynes apoiou Lloyd George, líder conservador britânico que havia sido primeiro-ministro na década passada, em um chamado para um programa de obras públicas que diminuiria o aumento do desemprego para 89%. Keynes aconselhou Roosevelt a não pôr em prática "negócios e reformas sociais que deveriam ter sido adotados muito antes" porque "complicavam a recuperação" e incomodariam "a confiança dos empresários".
Uma estimativa afirma que para criar três milhões de postos de trabalho necessários para pôr fim ao desemprego no auge da Grande Depressão dos anos 30 teria sido necessário um aumento de, aproximadamente, 59% nos gastos públicos. Este aumento não era possível com os métodos "gradualistas" de Keynes, já que conduziriam diretamente a uma fuga de capitais ao exterior, um aumento das importações, um déficit na balança de pagamentos e um forte aumento das taxas de juros.
Em alguns trechos de sua obra mais importante, A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, Keynes percebeu que este tipo de moderação talvez não fosse suficiente. Ele sugeriu que alguma coisa fundamental ao sistema estava provocando uma diminuição no investimento – uma diminuição da "eficiência marginal do investimento". Esta idéia é parecida em alguns aspectos à teoria de Marx sobre a queda da taxa de lucro e mostra que essencialmente há algo de errado no capitalismo e que não pode ser solucionado apenas através do ajuste das taxas de juros ou dos níveis de gastos do governo. Isto levou Keynes a sua afirmação mais radical: "A socialização dos investimentos seria o único meio de assegurar uma situação aproximada de pleno emprego".
O próprio Keynes não se aprofundou em suas análises, tampouco seus seguidores. Pelo contrário, assim como Keynes, adaptaram sua teoria ao que o capitalismo poderia aceitar. Hoje, os recém-convertidos ao keynesianismo nos governos dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de outros países europeus buscam, assim como defendia Keynes, salvar o capitalismo de si mesmo. Isto significa que eles tentarão nos fazer pagar a conta pela crise para que os capitalistas continuem contentes.
Os keynesianos de esquerda têm que escolher entre duas opções: concordarem com os recém-convertidos ao keynesianismo e buscarem encontrar maneiras de salvar o capitalismo ou refletirem sobre as afirmações e idéias mais radicais de Keynes e unirem-se aos marxistas no desafio ao controle da economia pelo capital.

França não segue mais gurus!


A frase é de François Dosse, o historiador-autor da "História do Estruturalismo" (EdUSC). Está publicada na edição de hoje de O Globo, do Prosa & Verso, dedicada á Lévi-Strauss (leitura leve e interessante).
Acredito que esta conclusão poderia ser dita em qualquer lugar do planeta. Mesmo porque, a França se acha o centro do mundo inteligente. Dosse dá mais um passo e diz que o modelo de intelectual francês é o sartreano, engajado.
Será que estou com olhar para textos que falam da superação do estilo engajado de intelectual ou é uma constatação universal? O fato é que acabava de ler um argumento próximo no início do livro de Bobbio (ver notas abaixo).
O intelectual guru era mais que o intelectual orgânico gramsciano. O orgânico fazia parte (lá vai o óbvio!) de um organismo, parte integrante. O guru é um ser superior, que pouco se interessa se será pai de uma comunidade ou organismo (embora desconfiasse de sua paternidade). O guru pensa e repensa o mundo.
Francisco Weffort, por muito tempo, foi um guru brasileiro. Foi por pouco tempo, mas foi. Diziam que era ghost writer de Lula. Vou confidenciar, aqui, uma cena hilária que ilustra o que afirmei acima, que vivenciei quando era do CEDEC (Centro de Estudos de Cultura Contemporânea, que disputava com o CEBRAP). No período de transição e principalmente a partir da constituinte, os debates acadêmicos sobre o novo país que se desenhava (ao menos institucionalmente) eram intensos. Weffort procurava entender o país e oscilava entre uma visão pessimista com uma visão otimista sobre o nosso futuro. O CEDEC, ao contrário do CEBRAP, focava sua interpretação a partir dos novos direitos e dos novos sujeitos que se insinuavam na vida política do país (o CEBRAP sempre foi mais institucionalista e pensava o país a partir das regras e instituições e pouco a partir dos novos direitos). Numa das reuniões mais emblemáticas do período, José Álvaro Moisés (eterno seguidor de Weffor) reclamou abolutamente frustrado: "quando a gente aceita o argumento do Weffort e segue sua linha, ele logo em seguida muda tudo... assim fica difícil". Weffort ficou mudo e meio perplexo. Eder Sader segurou o riso, no que foi acompanhado pela maioria dos presentes. Acho que Weffort não percebeu a sina dos gurus. Mas seu reinado terminou com o ingresso no governo FHC. Não sofreu por muito tempo.

Anselmo Duarte sempre lutou contra a morte


Anselmo Duarte, o "pagador de promessas", se achava injustiçado. Viveu para não ser esquecido. Em duas oportunidades, em mostras de cinema de São Paulo, tive oportunidade de estar próximo dele. Ladeado por poucos jovens, nas duas oportunidades ele falava alto o mesmo script: sempre foi injustiçado.
A última homenagem que recebeu foi este ano,em Salto, com a inauguração do Centro de Educação e Cultura (CEC), intitulado "Tributo a Anselmo Duarte". Mas continuava se sentindo injustiçado.
É interessante como quem chega á situações de alta visibilidade pública têm dificuldades para retornar à planície. Alguns, como Anselmo e FHC, se debatem com seu passado (ou seria com seu presente?). Outros tornam-se amargos e cínicos, como Marlon Brando. A grande maioria parece ser seu maior inimigo.

Peça de campanha (2)


A fatia do salário mínimo necessária para comprar a cesta básica é uma das menores em mais de uma década. Com isso, o peso dos gastos com alimentação no orçamento das famílias de menor renda tem caído.
Segundo dados do Dieese, a compra da cesta básica toma 44,99% da renda líquida (descontada a parcela da Previdência) do trabalhador que recebe salário mínimo. O resultado é melhor que o do ano passado, quando eram necessários 50,25% do rendimento para fazer essa compra. Em 1995, os produtos básicos comprometiam quase 89% da renda. O aumento do poder de compra do salário mínimo ocorre em razão dos reajustes acima da inflação nos últimos anos e porque os preços dos alimentos se desaceleraram após dois anos de altas significativas.
O feijão, o arroz e a carne, por exemplo, ficaram mais baratos. O preço do feijão carioquinha caiu 47,39% nos últimos 12 meses, de acordo com o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da Fundação Getulio Vargas. Ovo, macarrão, óleo de soja, músculo bovino e carne suína também tiveram deflação.

Peça de Campanha (1)



Para onde vamos?
Fernando Henrique Cardoso

A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da Terra”, de riqueza fácil que beneficia poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?
Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advém do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o País, devagarzinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm que ver com nossos ideais democráticos.
É possível escolher ao acaso os exemplos de “pequenos assassinatos”. Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira “nacionalista”, pois, se o sistema atual, de concessões, fosse “entreguista”, deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares, se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem nenhum pudor, passear pelo Brasil à custa do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso…) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?
Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer, obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o.” Em pauta temos a Transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no Orçamento e mínguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo Tribunal de Contas da União. Não importa, no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: “Minha Casa, Minha Vida”; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.
Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”. Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que se tenha esquecido de acrescentar: “L”État c”est moi.” Mas não se esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender o “nosso pré-sal”. Está bem, tudo muito lógico.
Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.
Ora, dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas -, mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo, antes que seja tarde.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Frase de Bobbio

A visibilidade do poder é um teste de moralidade, meio para conter os demandos

Novos institutos de democracia participativa em discussão no Senado


O Senado foi conclamado por Suplicy a discutir e votar as Propostas de Emenda Constitucional (PECs) 80 e 82, de 2003, além da 73/05, que tramitam juntas e criam dois novos institutos de democracia participativa: o direito de revogação e o veto popular. As propostas, que alteram o artigo 14 da Constituição, encontram-se na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e tem como relator o senador Pedro Simon (PMDB-RS).
Plebiscito, o referendo e a iniciativa popular foram regulados pela Lei 9709/98, que os admite apenas em casos de acentuada relevância nacional, sendo que a iniciativa popular, "de difícil implementação prática", é limitada apenas à apresentação de projeto de lei, conforme prescrito pelo parágrafo 2º do artigo 61 da Constituição e pelo artigo 13 da citada lei.
A PEC 80/03, que tem como primeiro signatário o senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), introduz o direito de revogação, individual e coletivo, ou seja, o recall ou arrependimento eleitoral, que permite a revogação do mandato de governantes e parlamentares, bem como o veto popular, definido como a faculdade que permite ao povo se manifestar contra uma lei já elaborada. De autoria do senador Jefferson Peres, já falecido, a PEC 82/03 prevê a possibilidade da realização de plebiscito de confirmação de mandato dos representantes eleitos pelo voto majoritário. Por sua vez, a PEC 73/05, que tem Suplicy como primeiro signatário, cria o instituto do recall, possibilitando a revogação dos mandatos eletivos de todos os cargos, inclusive com a dissolução da Câmara dos Deputados, mediante iniciativa e referendo popular a ser efetuado um ano após a posse. O referendo para a revogação do mandato do presidente da República poderá, também, realizar-se por iniciativa da maioria absoluta do Congresso Nacional.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

América do Sul à beira do Futuro


José Luís Fiori
Valor Econômico - 04/11/2009

Depois de uma década à esquerda, a América do Sul está entrando numa zona de forte turbulência. Neste final de 2009, o Uruguai pode eleger para presidente da República, um homem do povo e ex-guerrilheiro tupamaro; e o Chile talvez eleja um bilionário arrogante e de direita, que lembra muito o primeiro ministro italiano, Silvio Berlusconi. No mesmo ano em que a Bolívia e o Equador reelegeram governos dispostos a mudar radicalmente a estrutura do estado e da propriedade dos seus países, com objetivos socialistas, mas sem ruptura revolucionária. Em 2010, haverá eleições na Colômbia e no Brasil; e, em 2011, no Peru e na Argentina.
Durante esta primeira década do século, as mudanças no continente foram apoiadas pela expansão econômica mundial, que também estimulou o projeto de integração da América do Sul. Mas a crise financeira de 2008 provocou uma desaceleração do crescimento e do próprio projeto de integração econômica. E o projeto de integração política foi atingido em cheio pelo novo acordo militar entre a Colômbia e os Estados Unidos, que autoriza o uso do território colombiano por forças militares norte-americanas, de onde poderão controlar o espaço aéreo da Venezuela e de toda a América do Sul. Por isso, não é exagero dizer que o futuro da América do Sul, na primeira metade do século XXI, pode estar sendo decidido nestes próximos dois anos. E já é possível mapear as grandes disjuntivas e escolhas que estão no horizonte do continente sul-americano.

Em primeiro lugar, do ponto de vista econômico, o que se deve esperar para depois da crise é um aumento da pressão dos mercados internacionais e o aprofundamento da condição periférica e primário-exportadora da maioria dos países sul-americanos. Mesmo com o alargamento e diversificação dos seus mercados compradores, na direção da Ásia e da China, em particular. Nessa nova conjuntura, só uma vontade política coesa e continuada poderá manter de pé o projeto de integração sul-americano. Isso supõe uma decisão de estado e uma capacidade coletiva de manter sob controle os conflitos locais, a despeito das mudanças de governo. E supõe também, uma política conjunta de fortalecimento do mercado interno da América do Sul, com a redução da dependência regional das crises e das flutuações dos preços internacionais. Nesse ponto, não existe meio termo, porque os países dependentes da exportação de produtos primários, mesmo no caso do petróleo, nunca conseguirão comandar sua própria política macroeconômica, e muito menos ainda, a sua inserção na economia mundial. Em segundo lugar, do ponto de vista político, a crise econômica explicitou ainda mais as assimetrias e desigualdades nacionais e sociais que estão por trás da heterogeneidade política regional e que explicam, em parte, a falta de interesse ou de entusiasmo de alguns países do continente pelo projeto sul-americanista. Por fim, do ponto de vista da segurança continental, o aumento da presença militar americana na Colômbia serve para relembrar que a América do Sul seguirá por um bom tempo - e mesmo que não queira - sob a "proteção" do poder espacial, aéreo e naval dos EUA. E terá que ter uma enorme persistência e tenacidade para construir um sistema autônomo de segurança regional, sem produzir uma corrida armamentista dentro da própria região.
De qualquer forma, uma coisa é certa: o futuro do projeto sul-americano dependerá cada vez mais das escolhas brasileiras e da forma que o Brasil desenvolverá suas relações com os Estados Unidos. Do ponto de vista econômico, a pressão dos mercados internacionais e as novas descobertas do petróleo da camada do pré-sal, também estão oferecendo para o Brasil a possibilidade de se transformar numa economia exportadora de alta intensidade, uma espécie de "periferia de luxo" das grandes potências compradoras do mundo, como foram, no seu devido tempo, a Austrália e a Argentina, entre outros.
Mas existe a possibilidade do Brasil escolher um outro caminho que combine seu potencial exportador com uma estrutura produtiva industrial associada e liderada por uma economia mais dinâmica, como é o caso contemporâneo do Canadá, por exemplo. E, além disso, existe uma terceira alternativa, absolutamente nova para o país e que aponta de certa forma para o modelo da estrutura produtiva norte-americana: com uma indústria extensa e sólida e uma enorme capacidade de produção e exportação de alimentos e outras commodities de alta produtividade, incluindo o petróleo, no caso brasileiro.
Por outro lado, no campo político, depois da hegemonia das ideias neoliberais e privatistas, e do "cosmopolitismo subserviente", no campo internacional, está se consolidando no Brasil, um novo consenso desenvolvimentista, democrático e popular, mas que neste caso, não tem nada a ver com socialismo. As perspectivas futuras dessa coalizão de poder, entretanto, dependerão, em grande medida, da estratégia internacional dos próximos governos brasileiros.
O Brasil pode se transformar num "aliado estratégico" dos EUA, do Reino Unido e da França, com direito de acesso a uma parte de sua tecnologia de ponta, como no caso do Japão, ou mesmo de Israel, que acessou a tecnologia atômica militar com a ajuda da França. Mas o Brasil também pode escolher um caminho próprio de afirmação soberana e de expansão do seu poder internacional. E nesse caso, se o Brasil quiser mudar sua posição geopolítica, obedecendo as "regras de jogo" do sistema mundial, terá que desenvolver um trabalho extremamente complexo de administração contínua das relações de competição, conflito e complementaridade com os Estados Unidos, e com as demais potências, tomando como norte os seus próprios interesses econômicos e geopolíticos.
Numa disputa prolongada pela hegemonia da América do Sul, como se fosse uma "luta oriental" com os Estados Unidos. Caminhando por uma trilha muito estreita e durante um tempo que pode se prolongar por várias décadas. Além disso, se o Brasil quiser liderar a integração soberana da América do Sul no mundo terá que inventar uma nova forma de expansão econômica e política continental e mundial, sem "destino manifesto" nem vocação missionária e sem o imperialismo bélico das duas grandes potências anglo-saxônicas.

*Em homenagem a Carlos Estevam Martins, amigo e companheiro de Santiago do Chile e professor da Universidade de São Paulo que faleceu em 09/10/2009.