terça-feira, 11 de junho de 2013

Carta Aberta de Zé Celso ou como instituições apagam a identidade dos lugares

Zé Celso de sempre. Participou de um ato-teatro em novembro do ano passado na PUC-SP, para apoiar a greve e pressão denominada "Ocupação da PUC pela Democracia". Foi intimado pela polícia para explicar sua atuação por lá. 
Interessante como se desconhece a história de um lugar. Aliás, São Paulo desconhece o tempo todo, como na brincadeira entre secretarias que apagam, pedem desculpas e reinauguram grafites pelos muros da cidade. 
Já disse neste espaço que estudei na PUC-SP, nos seus tempos áureos. Dia que não havia manifestação de algum gênero preocupava a todos. As paredes eram cobertas por várias peles de cartazes. Os espaços eram ocupados para realizar discussões. Todos espaços. Fizemos um debate com Guatarri no pátio da cruz, sentados na escada e no chão. 
A PUC sempre foi um espaço público, embora a instituição seja privada. 
Quando dei aula na PUC-Minas, contava para meus alunos como ocupamos os espaços da nossa (sempre foi nossa) universidade paulista. Dizia que não entendia o comportamento enquadrado e desprovido de ousadia dos jovens universitários mineiros. Cheguei a dar aulas embaixo de árvores, fora da sala, com o intuito de explicar, sem falar, que todo lugar no espaço de ensino é espaço para estudar, descobrir e se relacionar (o que dá no mesmo). 
Descobri que os alunos ficavam mais atentos sentados no chão, embaixo das árvores, que na sala de aula, já demarcada em anos de experiência estudantil daqueles alunos. A sala de aula possui uma cartografia conhecida: os "descolados" ao fundo, os "enquadrados" na primeira fileira, os "críticos" nas partes laterais. Existe um comportamento de ocupação deste espaço totalmente decodificado pelos alunos: olhares e sorrisos, teclados no celular, cara de enfastio, cochichos, alguns enfrentamentos, algumas eventuais tentativas de desequilibrar a exposição do professor. O professor tem que ser ousado e apaixonado. Só assim o reequilíbrio se estabelece, como se os alunos percebessem que ali não está um discurso da ordem. 
A educação está sendo enquadrada, numa padrão de ordem que se parece com clausura mental. Nossos gestores educacionais pensam pouco, aceitam estatísticas como falas de deuses, perderam a paixão. Não dá para transformarmos os espaços libertários da educação em panopticon. 
Este é o sentido da carta aberta do Zé Celso. Vamos a ela:

Pois é. Acabo de receber esta intimação policial como "Ilmo. Sr. Diretor da Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, para fazer comparecer no 23º DISTRITO POLICIAL DE PERDIZES, dia 11 de junho, um dos nossos tecno-artistas associados para elucidar os fatos, e mais: reconhecer os atores de teatro em fotos ou vídeos postadas na web sob o título "Decapitação do Papa na PUC", na "Ocupação da PUC pela Democracia".
Achei o documento francamente delicado, educado, mais ainda, até afetusoso. Mas o fato é que estamos sendo precessados mais uma vez pelos que devíamos processar pelo desrespeito ao Teatro e ao Estado Laico Brasileiro: os "Fundamentalistas Católicos Apostólicos ROMANOS", que consideram a atuação teatral farsesca mais desrespeitosa do que o próprio ato destes Fundamentalistas de violar o espaço até então livremente sagrado da Universidade Católica.
Os alunos e muitos professores ocuparam a Universidade em virtude da nomeação para a Reitoria de uma candidata que pegou 3º lugar na eleição, mas foi a escolhida antidemocraticamente pelos representantes do Vaticano no Brasil por estar de acordo em transformar a PUC num "Recinto de Pregação Fundamentalista ROMANA".
Estamos pasmos de ver todo dia e toda noite as epidemias mundiais assassinas na violência praticada pelos Monoteísmos Fundamentalistas de todos que se consideram donos de "Uma Verdade Absoluta" e "Um só Caminho".
Ratzinger, antes de ser Bento XVI, já tinha castrado o movimento da Teologia da Libertação, de importância imensa para a vida cultural, religiosa e social do Brasil. No ano passado, quando sua fé como Papa já estava se perdendo, o representante de Deus na Terra quis tornar a PUC o que era no seu início.
Eu fiz dois anos de Filosofia na PUC nesta fase inicial, antes dos anos 60, ao mesmo tempo que fazia Direito na São Francisco. Desisti porque, entre outros, nosso professor Alexandre Correia, por exemplo, explicava com argumentos na matéria que lecionava, Lógica, a transubstanciação da Eucaristia em Corpo de Cristo Vocês acreditam?
O Livro de Filosofia adotado no curso era um Catecismo trans-medíocre do Padre Leonel Franco.
Mas depois a PUC evoluiu de acordo com a evolução da Igreja nos anos 60,70 e 80 e tornou-se mesmo um reduto das mais decisivas lutas para derrubar a Ditadura Militar no Brasil.
O velho fundamentalismo do ensino havia sido superado e a Universidade Católica de Perdizes tornou-se Exemplar no Brasil e no Mundo pela sua prática da Liberdade Criadora nos Ensinos da Ciência, das Tecnologias e das Artes.
No ano passado estudantes da PUC foram nos procurar quando estávamos fazendo a peça "Acordes", de Bertolt Brecht, chamando-nos outra vez à luta pela Liberdade do Ensino Laico no Estado Brasileiro Laico, na PUC agora ameaçada pela regressão à uma Universidade Fundamentalista Católica Apostólica ROMANA.
Os estudantes tinham ocupado a PUC e não permitiam a entrada da reitora imposta pelos representantes do Papa em São Paulo.
Na peça "Acordes" havia um Bonecão que representava o Capitalismo e que era despedaçado por dois Palhaços numa Cena de Circo de Horrores, no estilo tradicional teatral de "Gran Guignol".
Então adaptamos o texto para a situação que a PUC estava sofrendo e apresentamos esta cena clássica do "Circo-Teatro" de Todos os Tempos: a Desmontagem, a DesParamentação, a retirada de uma Máscara Papal, tal como o próprio Ratzinger que acabou, ele mesmo, safando-se, saindo dela.
Será que a Bruxaria Teatral tem este poder? Libertou Ratzinger da própria Estrutura de sua Fantasia Papal?
O Teatro tem este poder: o de mostrar o ser humano mortal Paramentado com as vestes que lhe conferem Autoridade, muitas vezes destruindo a própria humanidade dos que se Paramentam, que passam a agir como Aparelhos, pois a Mascara se colou à pele
Jean Genet, em sua Obra Prima "O Balcão", mostra um Bordel onde os clientes vestem as máscaras sociais de Papa, de Juiz, de Rainha, de General, de Polícia, etc para transar seu "p(h)oder" com as putas que fingem acreditar em suas representações.
Na peça há uma Revolução e estas Máscaras das Autoridades são depostas, mas os partidários anti-revolucionários que restam vão ao Bordel e pedem que os clientes que frequentavam o Puteiro apareçam no Balcão do Palácio do Governador com suas Fantasias para conter a humanidade revoltosa com elas: suas Máscaras de Poder.
Bertolt Brecht tem em "Galileu Galilei" uma das mais belas cenas de teatro: mostra um Cardeal a favor da liberdade da Ciência, amigo de Galileu que vai se tornar Papa, mas à medida que vai se paramentando de Cardeal da Santa Inquisição, passa a argumentar a favor da prisão e tortura do grande físico Galileu porque ele afirma que a Terra gira.
No final da Paramentação, quando recebe a Mitra, o Cardeal Libertário concorda com a intimação do seu ídolo: o físico GG, para as salas de Tortura da Polícia da Inquisição.
Querer incriminar os artistas de Teat(r)o por esta cena é um atentado à liberdade de expressão do ator, isto é, ao "Anarquista Coroado", como Artaud, um dos maiores sacerdotes Xamãs do Teatro afirma.
O Teatro é realmente o lugar onde tudo que é humano, transumano, subumano, animal, vegetal, mineral, pode ser vivido em forma de Máscaras de Dionísios, seu deus.
É o espaço da Liberdade Total. Nós das Artes, que lutamos contribuindo para abolir a Censura no Brasil durante a Ditadura Militar e ganhamos esta conquista não podemos recuar e aceitar a CENSURA à nossa atividade.
Esta criminalização da etherna atividade teatral à Liberdade de "rir corrigindo os costumes" demonstra que quem nos processa quer criminosamente o retorno do "Imperialismo Romano Católico Apostólico", intrometendo-se no Estado Democrático e Laico brasileiro em forma de Criminalização Inquisitorial.
O Brasil é um país de maior número de católicos no mundo. Eu mesmo sou batizado, fiz 1ª Comunhão, mas por ter uma educação religiosa fundamentalista tirei o meu Corpo deste campo minado de Perversões.
Os brasileiros católicos não são romanos, são católicos antropófagos - frequentam o espiritismo, a Macumba, o Candomblé, a Umbanda, o Budismo - trepam com camisinha, portanto não somente para fabricar filhos, mas pelo prazer desta prática sagrada que é o ato sexual em si - um ato de amor, de criação e procriação quando há consentimento das partes.
Se casam, como os gays de hoje. Se a mulher que é mulher sabe o que quer e quiser abortar, aborta e depois confessa e comunga.
Sou vizinho de um lugar onde de 15 em 15 dias se encontram casais católicos carismáticos que passam os sábados e domingos dançando ao som do Tambor com toques até de Mãe Menininha.
Há, como diz Oswald de Andrade, um sentimento religioso "órfico" em todos nós, diante do Mistério da Vida no Cosmos.
Nossos ancestrais - minha avó paterna era índia - eram antropófagos, comiam carne humana tanto do inimigo mais forte para lhe adquirir as qualidades quanto dos entes queridos, filhos, irmãos, pais, avós, mulheres e maridos.
Era uma Cerimônia não para matar a fome, mas religiosa como a Eucaristia Católica que é uma sublimação da Antropofagia.
Talvez por isso no Brasil o catolicismo popular da maioria não tem a rigidez de outras religiões.
O Fundamentalismo é imposto pela religião do Hemisfério Norte, que antropofagiou o Império Romano e seus cristãos entregues aos leões, e tornou-se a Religião Católica Apostólica do Império Romano com ambições colonialistas e imperiais no mundo todo.
Esse tempo passou.
Vivemos de acordo com o que desejamos para nós mesmos e para todos, de mais gostoso.
A submissão a podres poderes é um assunto que está querendo retornar pelos que se sentem inseguros diante das revoluções que vem trazendo outros ares aos nossos tempos, desde 1967.
Esta intimação, aparentemente delicada, acolhe os interesses dos inquisidores fundamentalistas que determinam que eu, como diretor do OficinaUzynaUzona, cometa o crime anti-liberdade teatral e pró-censura de intimar artistas ou técnicos da nossa Cia. a dedurar através de fotos, como criminosos, atores que atuaram num evento pelo retorno da democracia na PUC.
Este instrumento jurídico, que a Inquisição da PUC conseguiu passar para uma Delegacia de Polícia, é uma intimação contra a Constituição do Estado Democrático Laico no Brasil, a favor da reinstauração da Censura, contra a qual tanto lutamos nos tempos da ditadura militar.
É um atentado a Arte considerada como Crime.
Não desejo ser cúmplice deste Crime por isso vou por a BOCA NO TROMBONE DO MUNDO.
José Celso Martinez Corrêa
orgulhosamente
Presidente da Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Paz Humor Amor e Muito Mais

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