sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Serra e o cavalo paraguaio

Não tem jeito. Sai na frente, fica isolado na dianteira e despenca. A sina parece atingir, mais uma vez, José Serra.
O Estadão de hoje destaca pesquisa IBOPE em que Serra aparece empatado com Haddad (dentro da margem de erro, já que o candidato tucano tem 20% e o petista, 16%). Russomanno continua na dianteira com 31%, o que, até agora, desmancha o prognóstico geral e irrestrito que cairia com o início da propaganda eleitoral na TV. Quem despenca, na verdade, é Serra. Em duas semanas, caiu 6% (no IBOPE) e Haddad subiu 7%. Em outras palavras, se a trajetória se confirmar, na próxima pesquisa do instituto de pesquisa, Haddad já estará à frente de Serra em mais de 10%. O que deixa no ar o papel de Lula na campanha (ainda não foi possível medir o impacto da entrada de Marta Suplicy no apoio explícito à Haddad).
O mais impressionante é o aumento considerável do índice de rejeição de José Serra que atinge 34% no IBOPE (no Datafolha, já teria ultrapassado a marca dos 40%). Um lastro negativo da candidatura tucana é o atual prefeito: a gestão Kassab é avaliada ruim e péssima por 48% dos paulistanos. A avaliação de Alckmin é avaliada como ótima e boa por 40% dos paulistanos e a de Dilma Rousseff também avaliada assim por 53% dos eleitores da capital paulista.
Aqui, uma breve comparação com a campanha petista de SP e BH. A assessoria de Haddad prepara fatos políticos quase diários à Serra e Kassab, explorando bem as fissuras de gestão e personalidade. Hoje, Haddad ataca a taxa de lixo e no meio de semana havia atacado o caso do atendimento precário de um paulistano pelo serviço médico público. Patrus, ao contrário, fica preso ao seu discurso de sempre, de bom moço, sem se contrapor à gestão ou personalidade do seu adversário.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Paulinho da Força articula novo partido

Depois de Kassab, agora é Paulinho da Força que deseja criar um partido para poder chamar de seu. Já tem até nome: Partido Socialista, PS. 
Quem não está gostando nada desta história é o PDT, atual partido do líder sindical. 

Julgamento do STF e eleição: o caso da queda de Serra

Uma das questões que replicam nas redes sociais a respeito do julgamento do mensalão pelo STF é em que medida as decisões da Corte respingarão nas eleições. Especialistas afirmam que o reflexo será relativo e restrito aos grandes centros urbanos. Mas a questão se reproduz como hamster.
Um possível dado eleitoral começa a desfazer a dúvida. Pedro Venceslau, do jornal Brasil Econômico, acaba de postar a seguinte nota no facebook:
Dizem por aí que a novidade será essa até sexta: Russomano 31%, Serra 21%, Haddad 14%
Se esta nota tem fundamento (o que saberemos na sexta), ao menos em São Paulo, o julgamento não está repercutindo no processo eleitoral. Logo nesta capital, onde se esperava algo neste sentido.
O julgamento no STF, contudo, avança e delineia a punição severa de quatro réus (com absolvição de Gushiken), sendo um deles, João Paulo Cunha, deputado e candidato a prefeito. O mais importante, contudo, é o acolhimento da tese da corrupção envolvendo dinheiro do Banco do Brasil. O que indica, evidentemente, a aceitação da tese de desvio de dinheiro público para benefício político. Aqui é necessário parar e aguardar. O destino ainda não está declarado pelos ministros. Cinco ministros, contudo, parecem fortemente inclinados a absorver toda tese do MP. Veremos.
Termino esta nota com uma observação emocional. Foi tocante a homenagem ao ministro Peluso, que deixa o STF no próximo dia 03. Demonstrou que seria, possivelmente, tão ou mais severo que o relator em relação aos réus. Foi homenageado duplamente porque votou neste item 03 (de um total de oito). 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Greve dos federais começa a regredir


Servidores federais de 18 categorias decidem encerrar greve

Do UOL, em São Paulo


Dezoito categorias de servidores ligados à Condsef (Confederação dos Trabalhadores no Serviço Publico Federal) decidiram nesta terça-feira (28) aceitar a proposta de reposição de 15,8% escalonada em três anos, feita pelo governo, e encerrar a greve que já durava cerca de dois meses em todo o país.
De acordo com o coordenador-geral da entidade, Josemilton da Costa, a decisão foi tomada em uma plenária nacional realizada em Brasília e vale para as 18 categorias ligadas à entidade e que negociaram de forma unificada. O retorno ao trabalho deve acontecer na próxima segunda-feira.
Meu comentário:
Várias categorias ainda mantém a greve, como fiscais agropecuários, servidores de agências reguladoras, agentes da Polícia Federal e funcionários do INCRA. Mas todas devem decidir ainda esta semana se continuam ou não o movimento. Obviamente que a pressão será forte para a aceitação da proposta governamental. Ficam duas lições: a) o governo federal precisa ser mais profissional na condução das negociações e b) a politização crescente das categorias de funcionalismo público forçará ações sindicais mais agressivas daqui por diante. A disputa entre CUT e outras centrais sindicais que recebem apoio no interior das categorias de servidores públicos, como a Conlutas, e mesmo a disputa no interior das chapas majoritárias (caso da Condsef), pressiona progressivamente, as direções sindicais, mesmo as mais governistas. O interessante é que Sérgio Mendonça (na foto), ex-diretor do DIEESE e atual Secretário das Relações do Trabalho do Ministério do Planejamento (que esteve à frente das negociações) é, evidentemente, experiente nesta área. O que sugere certo desencontro no interior do próprio governo.  

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

6 votos no STF

Engrenou. As decisões se alinhavam e convergem em alguns casos, como o praticamente sentenciado como culpado ex-diretor do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato. Ainda há divergências importantes. Contudo, faço um comentário menos relevante, num dia de cansaço pela viagem e consultoria: o ministro Dias Toffoli não passa segurança. Parece um pouco aquele expositor, ainda se testando, que fala com medo de errar, avaliando a sua própria fala enquanto a profere. As mulheres foram sucintas. Mas, até agora, o embate se dá entre o relator e o revisor. Vai ser assim até o final. Mas ingressarão outros ministros, tão polêmicos e loquazes (ou mais).

domingo, 26 de agosto de 2012

Para quem ainda não acredita na importância da propaganda eleitoral na TV

O Datafolha acaba de divulgar pesquisa em que revela que a maioria dos paulistanos aprovam a propaganda eleitoral gratuita na TV e rádio. Nos grandes centros, a TV define o voto. Vejam o dado a respeito revelado pela referida pesquisa:


A pesquisa mostra ainda que 57% dos ouvidos declaram que assistirão ao programa. A maioria (62%) diz que o horário eleitoral influenciará na definição de seu voto.
Entre os mais ricos (renda familiar acima de dez salários mínimos), a impressão de que a propaganda eleitoral deveria ser abolida atinge seu índice mais alto (43%). É nesse mesmo grupo que a influência do horário eleitoral sobre o voto é menor -64% dizem que não é "nada importante".

A maior contradição do estatal-desenvolvimentismo: a desigualdade

Artigo de Clóvis Rossi, na Folha de hoje:

Desigualdade, o fracasso da esquerda

Já deve ser insuportável para os ufanistas de plantão receber a notícia, contida em relatório da ONU, de que o Brasil é o quarto país mais desigual de uma região, a América Latina, que é a mais desigual do mundo.

O Brasil só é menos desigual que dois Estados semifalidos, Guatemala e Honduras, e que a Colômbia, em virtual guerra civil faz mais de meio século.

Tenho, no entanto, um adendo triste para os ufanistas: é quase certo que não houve, ao contrário do que diz a ONU, uma redução na desigualdade brasileira.

Explico: o único metro usado para medir a desigualdade chama-se índice de Gini, no qual o zero indica perfeita igualdade e 1 é o cúmulo da desigualdade. O Brasil de fato melhorou, de 1999 a 2009: seu índice passou de 0,52 para 0,47.

Acontece que o índice mede apenas a diferença entre salários. Não consegue captar a desigualdade mais obscena que é entre o rendimento do capital e o do trabalho.

Escreve, por exemplo, Reinaldo Gonçalves, professor titular de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos raros economistas que continuaram de esquerda após o PT chegar ao poder:

"Com raras exceções, essas políticas [as do governo Lula] limitam-se a alterar a distribuição da renda na classe trabalhadora (salários, aposentadorias e benefícios) sem alterações substantivas na distribuição funcional da renda, que inclui, além do salário e das transferências, as rendas do capital (lucro, juro e aluguel)."

Há pelo menos um dado que faz suspeitar seriamente de que a tal distribuição funcional da renda piorou: no ano passado, o governo federal dedicou 5,72% do PIB ao pagamento de juros de sua dívida. Já o Bolsa Família, o programa de ajuda aos mais pobres, consumiu magro 0,4% do PIB.

Resumo da história: para 13.330.714 famílias cadastradas no Bolsa Família, vai 0,4% do PIB. Para um número infinitamente menor, mas cujo tamanho exato se desconhece, a doação, digamos assim, é 13 vezes maior.

Como é possível, nesse cenário, que se repete ano após ano, reduzir-se a desigualdade na renda?

O que, sim, diminuiu foi a pobreza, no Brasil como na América Latina. Em 20 anos (até 2009), a taxa de pobres caiu de 48% para 33%, informa a ONU. Mesmo nesse capítulo, o Brasil continua mal na foto: Argentina, Chile e Uruguai têm 12% de pobres, enquanto, no Brasil, a taxa quase duplica (22%).

Essa queda ajuda a explicar a popularidade de Lula/Dilma, Hugo Chávez, Rafael Correa, Michelle Bachelet (mais popular que seu sucessor, o conservador Sebastián Piñera), Evo Morales (em queda, mas ainda popular), José Mujica.

Para o pobre, que mal podia comprar arroz, adquirir geladeira importa mais do que saber se o rico, que já podia comprar um arrozal inteiro, compra agora helicópteros ou aviões, em vez de geladeiras, que sempre teve.

Mas os governos supostamente de esquerda e suas políticas pró-pobres não foram capazes de tirar a América Latina do papel de campeã mundial da desigualdade. Ou ela é inoxidável ou eles precisam reinventar-se.

Erundina na Escola da Cidadania da Zona Sul de SP

Começa a se formar uma rede de escolas de formação de lideranças sociais nas regiões leste e sul da capital paulista. Uma novidade importante, que retoma esforços dos anos 1980.

sábado, 25 de agosto de 2012

Campanha de Patrus não tem material

Conversei, hoje, com apoiadores de Patrus Ananias que estavam na Savassi. Lamentaram a falta de material. Só tinham adesivos e faixas. Pedi as propostas para educação (vejam a foto que ilustra esta nota e a data da plenária temática). Nada de propostas. Tentaram o consolo: "a campanha começou meio tarde, né?". E ficaram nisto. O erro pode ser fatal. Não dá para iniciar campanha de TV e não ter como repercutir nas ruas, criando uma "onda" de apoio e entusiasmo. Assim, vai em banho maria.
Do outro lado, parece existir material farto para a campanha de Marcio Lacerda. Outro dia, passei na mesma região e vi jovens distribuindo um material temático, voltado para o público LGBT. O material era um panfletão, multicolorido.
Até aqui, a diferença parece evidente.

Dilma distante do julgamento do STF e próxima de 2014


Do blog de Josias de Sousa (colunista da UOL):
"Olhando ao redor, a presidente enxerga uma oposição em ruínas, um Aécio Neves sem discurso e um Eduardo Campos assanhado. Sabe que o êxito dos seus potenciais antagonistas depende do agravamento da crise. E ensopa o tailleur para evitar que disponham de matéria prima."

Entrevista sobre municípios com um único candidato a prefeito

Entrevista à revista Viver Brasil:


1) Em geral, o que leva um município a ter apenas um candidato?
Rudá Ricci: Na maioria dos casos, trata-se do governismo que está tomando o país de norte a sul, pouco a pouco. Uma modalidade iniciada na gestão Lula, em nível nacional, com a coalizão presidencialista que montou, diminuindo em muito a margem de manobra das oposições. Há vários casos neste sentido, como Abdon Batista, no interior de Santa Catarina: a oposição existente se uniu ao projeto do governo, foi incorporada. O mesmo ocorreu em Marmeleiro, no Paraná. Os exemplos são nítidos. Deve-se levar em consideração, ainda, o custo elevado que as campanhas atingiram. Fazer campanha exige recursos, quase sempre, oriundos das ações de um deputado (estadual ou federal) que apadrinha o partido ou candidatura local. A campanha municipal, este ano, se estadualizou ou se nacionalizou, pelas mãos dos deputados. De fato, a disputa é entre deputados que, também, comandam os partidos em cada Estado. Algo extremamente negativo para a democracia brasileira.

2) Se for grande o número de votos brancos e nulos (mesmo não sendo válidos), quais as consequências?
RR: Basta um voto válido e o candidato está eleito. Brancos e nulos não são computados como válidos. Para municípios com menos de 200 mil habitantes, basta maioria simples. Para municípios acima de 200 mil habitantes, elege quem tiver 50% dos votos válidos mais um voto. Embora o artigo 244 do Código Eleitoral afirme que haverá nulidade se a eleição atingir mais da metade dos votos do país, o Tribunal Superior Eleitoral entende por nulidade votos anulados por fraude ou outros problemas legais. Neste caso, votos nulos espontâneos não são contabilizados. A consequência é que o eleito não será, efetivamente, uma representação da comunidade de cidadãos. Pode ser representante de si, apenas.

3) É comum haver candidatura única? Esse número é significativo? Já houve eleições com número maior?
RR: Em 2012, pouco menos de 2% dos municípios se encontram nesta situação em todo país (1,96%, ou 106 municípios). Minas Gerais é o Estado campeão, seguido pelo Rio Grande do Sul e São Paulo. Em 2008, Minas Gerais teve 19 municípios nesta situação. Este ano serão 21 municípios. No Rio Grande do Sul, foram 35 municípios nesta condição, em 2008; neste ano, serão 20. Em Mato Queimado (RS), nunca houve disputa eleitoral, já que sempre se apresentou um único candidato a prefeito. Em São Paulo, serão 17 municípios com candidato único nas eleições de outubro próximo. Enfim, é possível que este fenômeno aumente no Brasil, na medida em que o governismo e o custo de campanha se alastram, mas não se configura como uma tendência nítida em relação às últimas duas eleições municipais. São municípios muito pequenos: a média de habitantes dos municípios paulistas com candidato único neste ano é de 6 mil (Agudos, com 34 mil habitantes, é a maior cidade nesta condição).

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

OS MUNICÍPIOS BILIONÁRIOS EM 2012, por François Bremaeker


1) Dos 5.563 Municípios que escolherão novos Prefeitos e Vereadores neste ano, 47 deles (0,87% do total) apresentam receitas bilionárias, segundo informações dos orçamentos recolhidos na página da Secretaria do Tesouro Nacional, sendo que em 5 casos os dados foram obtidos junto às páginas dos seus Municípios na internet, vez que não haviam encaminhado ainda nem o Relatório Resumido de Execução Orçamentária referente ao 1º bimestre.

2) (...) Estes Municípios agrupam em 2012 um total de 56,6 milhões de habitantes (29,56% da população brasileira, não computados Brasília e Fernando de Noronha).

3) (...) Quanto à receita orçamentária estes 47 Municípios concentram em 2012 R$ 164,347 bilhões, o que corresponde a aproximadamente 37% do montante de recursos disponíveis para o conjunto de Municípios brasileiros. A receita orçamentária per capita dos Municípios bilionários é de R$ 2.905,64 em 2012, contra R$ 2.141,63 em 2010, quando a receita orçamentária per capita do conjunto dos Municípios brasileiros era de R$ 1.699,55.

4) (...)  Em relação à receita tributária estes 47 Municípios concentram em 2012 R$ 75,473 bilhões, o que corresponde a aproximadamente 62% do montante de tributos arrecadados pelo conjunto de Municípios brasileiros. A receita tributária per capita dos Municípios bilionários é de R$ 803,25 em 2012, contra R$ 632,22 em 2010, quando a receita tributária per capita do conjunto dos
Municípios brasileiros era de R$ 300,38.

5) (...) Os 10 Municípios que apresentas as maiores receitas orçamentárias em bilhões de Reais em 2012 são: São Paulo (SP); Rio de Janeiro (RJ); Belo Horizonte (MG); Curitiba (PR); Fortaleza (CE); Porto Alegre (RS); Recife (PE); Salvador (BA); Campinas (SP); e São Bernardo do Campo (SP).

6) Em 2011 os Municípios bilionários eram 42. Os 5 Municípios que entraram na lista em 2012 foram: Juiz de Fora (MG), Blumenau (SC), Cubatão (SP), São José do Rio Preto (SP) e Nova Iguaçu (RJ). Encontram-se muito próximos deste valor, devendo ingressar no rol dos Municípios bilionários em 2013 pelo menos mais 4 Municípios: Piracicaba (SP), Porto Velho (RO), Serra
(ES) e Guarujá (SP), com receitas previstas entre R$ 996 milhões e R$ 981 milhões em 2012.

7) Em 2010 os Municípios bilionários eram 36. Os 5 Municípios que entraram na lista em 2011 foram: Londrina (PR), Florianópolis (SC), Aracaju (SE), Cuiabá (MT) e Contagem (MG).

Soninha é Serra?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A tentativa de formação da intelligentzia de direita no Brasil

A direita foi sempre tacanha no Brasil. Talvez, porque tenha tido poder e governo nas mãos. Com a crise dos partidos conservadores em nosso país, parece que começa a existir certo esforço para se formar uma escola de pensamento conservador, definidamente de direita.
O historiador Marco Antonio Villa (da Federal de São Carlos) é um dos expoentes mais perspicazes desta "novidade". Mas há os que entram na fila empurrando. A expressão livresca desta segunda ala está retratada no livro "Por que virei à direita", versão brasileira do livro "Why I turned right" (dos EUA). O livro reúne o colunista português João Pereira Coutinho e os filósofos brasileiros Luis Felipe Pondé e Denis Rosenfield. Os dois primeiros sempre foram conservadores e fica difícil porque assumiram um título que dá a entender uma reconversão pessoal. O que já demonstra certo senso de oportunidade. O argumento central de Coutinho é o ceticismo, por ele eleito como superior à política de fé. Fato que a política, pela esquerda, nos anos de redemocratização recente do país, se pautou pela crença da perfeição humana a partir da correção orientada pelas mãos do Estado. Aliás, nem tanto. Havia uma forte corrente (que transitava da teologia da libertação aos autonomistas de São Paulo e seguidores de Bourdieu e/ou Thompson de outras localidades, passando pelo conceito de democracia como valor universal) que não depositava esperanças em nenhuma saída que indicasse o Estado como protagonista político central. Mas, no caso europeu, esta distinção apareceu aqui e acolá, como em alguns discursos dos "verdes" alemães.
Pondé, de quem me incomoda o tom exageradamente militante, retoma o conceito central do ceticismo (novamente, uma contradição com seu estilo engajado) a partir de uma linha de argumentação que já estava em Comte, qual seja, a negação da tradição, pelo absoluto, nos joga no caos, na anomia. Bom argumento, ainda que insuficiente.
Rosenfield, infelizmente, foi na toada de Pondé e escreveu um texto dos mais militantes, citando sua própria experiência anti-PT.
Vou comentar mais este livro, mas me parece que esta tentativa de surgimento de um pensamento de direita mais intelectualizado e elaborado no Brasil está em seus primórdios. Será importante que ele crie mais musculatura. Melhor, que crie mais massa cinzenta.

Banda João Andante

Lewandowski X Barbosa: a grande imprensa só erra

A grande imprensa está dando um show de futurologia feita com bola de cristal trincada. Feito barata tonta, chegou a dizer "agora vai", imaginando que o ministro Lewandowski votaria com o ministro Barbosa, após o voto de ontem. Antes, tinham dito que ele seria o contraponto ao relator do julgamento do mensalão. Aí, o revisor vota pela absolvição do deputado federal João Paulo Cunha, do PT-SP (ao qual era imputado o crime de corrupção passiva e peculato).
Afinal, por qual motivo a imprensa erra tanto nos seus prognósticos?
Porque o ministro Lewandowski não está acompanhando uma narrativa que cria nexos causais entre todas acusações. Está julgando dentro dos autos. Trata-se do tão propalado julgamento com base técnica.
Sem dúvida, é o voto mais interessante de se ouvir, técnico, minucioso. Isto é que se denomina de garantismo, a primazia do direito e a condenação com base em provas sólidas.
A grande imprensa trata o julgamento pela batuta dos que defendem os acusados: pela política de confrontação de dois lados.
O que o ministro Lewandowski demonstra é que julgamento na Suprema Corte não pode se pautar por esta gincana. Ela se pauta pelo direito. Estou realmente muito bem impressionado pela performance deste ministro. Técnico, sério, que prima pela competência e rigor. Pode dar de tudo. Justamente porque não se trata de torcida, mas de direito.

Mapa de pontos vulneráveis ao abuso sexual de crianças em rodovias federais


Mapeamento dos Pontos Vulneráveis à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Rodovias Federais Brasileiras


Manuel Castells: a articulação entre internet e praças reocupadas



destaques
OBERVAÇÃO DO BLOGUEIRO:
VEJAM A CRÍTICA QUE CASTELLS FAZ À ESTRUTURA PARTIDÁRIA. CONCORDO PLENAMENTE

Manuel Castells: a articulação entre internet e praças reocupadas

Por Francisco Guaita, RT-TV

Às vésperas de lançar seu livro 'Redes de Indignação e Esperança', Manuel Castells aposta que uma articulação entre internet e praças reocupadas pode reinventar democracia e sociedades. É este desafio que o professor catalão - expulso da Espanha pelo franquismo e da França por ser considerado articulador dos movimentos de 1968 - parece estar disposto a encarar. A seguir, uma edição feita pelo site 'Outras Palavras' da entrevista que Castells concedeu ao jornalista Francisco Guaita, da rede de TV internacional da Rússia RT.
Francisco Guaita - Você costuma dizer que o poder não está na Casa Branca, nem nos mercados financeiros, mas em nosso próprio cérebro. Por que este é um segredo das elites?
Manuel Castells -
 Bem, é porque se eles nos contarem isso, perdem o poder. O poder real não é o poder da polícia ou do exército: estes só são utilizados em último caso, quando as coisas estão muito mal para o interesse dos poderosos. O mais importante, se você quiser ter poder sobre mim, é conseguir que eu pense de uma forma que favoreça o que você quer, ou que me resigne. Aí está o poder! Portanto, o essencial é o poder que está na mente, e a mente se organiza em função de redes de comunicação e neurológicas no nosso cérebro que estão em contato com as redes de comunicação em nosso entorno. Quem controla a comunicação controla o cérebro e, dessa forma, controla o poder.
Francisco Guaita - Movimentos como o Occupy tentam se apoderar das praças e das ruas para dizer que isso não funciona, querem que o poder venha das pessoas. Essa é uma demanda que, para muitos, não terá nenhum resultado na política ou na economia. O que você acha sobre isso?
Manuel Castells - 
Depende do que você entende como resultado. Se você quer dizer que disso sai um partido político que ganhe as eleições nos próximos dois anos, não é possível ter certeza. Todos esses movimentos colhem frutos em longo prazo. O slogan mais difundido dos indignados e das indignadas é 'Vamos devagar, porque vamos longe'. Vamos longe para onde? Uma mudança na mente dos cidadãos, depois de algum tempo, se converterá em mudança social.
Os dados mostram que na Espanha aproximadamente 70% dos cidadãos concordam com as críticas dos indignados. A maioria dos cidadãos também pensa que não poderá mudar as coisas em curto prazo. As duas coisas são compatíveis. As pessoas pensam que o movimento tem razão, mas não tem os instrumentos.
Francisco Guaita - Se é uma grande maioria, por que não houve transformações?
Manuel Castells -
 Não, por que não há em quem votar. O próprio movimento não quis criar um partido para não reproduzir a velha política. Existe um abismo tão grande entre o que seus integrantes pensam e o sistema político real que não há uma expressão política capaz de representá-los. Por exemplo, se o Partido Socialista tivesse sido capaz de prever que um movimento assim poderia revitalizá-lo, haveria um caminho. Mas os socialistas envolveram-se totalmente com a especulação financeira. Eles geriram o Banco de España e foram totalmente incapazes de supervisionar o sistema financeiro, porque isso não lhes interessava. Há uma grande lista de motivos pelos quais os indignados desaprovam os socialistas e os socialistas nunca fizeram nada para mudar.
As elites políticas de todos os países optaram por este rumo. Pensaram que não havia problema e seguem com seus negócios, pois o que conta são os votos a cada quatro anos, com uma lei eleitoral que os grandes partidos fizeram para que só eles mesmos pudessem ganhar. Nos Estados Unidos, se você não é democrata ou republicano não tem nenhuma chance. Além disso, se você não tem dinheiro, simplesmente não pode ganhar. Não se consegue voto se não se compra a campanha com dinheiro. As críticas, em todo o mundo sugerem que este tipo de democracia não é suficiente. Em consequência, sob essas regras do jogo, gastar toda a energia para fazer a política formal é uma operação sem sentido. Reproduz os velhos esquemas dos grupos de esquerda trotskistas, marxista-leninistas, de todos os tipos, que sempre estiveram nas instituições, mas nunca chegaram a nada. Ou que tentaram a revolução armada - o que ninguém quer, porque é um movimento claramente não-violento. Então, têm que fazer outra coisa. Eles vão por esse longo caminho da transformação das consciências para que em algum momento os cidadãos possam tomar outras decisões, e daí possam surgir novas forças políticas.
Francisco Guaita - Não é preciso mudar as regras?
Manuel Castells -
 Um dos grupos do movimento espanhol - porque não é o movimento, mas uma galáxia - pediu que eu fizesse uma proposta de reforma da lei eleitoral. Eu fiz com um amigo especialista nesse tema.
É uma proposta de voto proporcional, de limitar o poder dos grandes partidos e fazer com que no parlamento as pessoas que não votam estejam presentes - inclusive visualmente, não como representantes, mas com espaços vazios. Se 30% dos cidadãos não votam, esses 30% devem estar marcados, e as maiorias de decisões de governo devem se constituir sobre o conjunto de cidadãos, não apenas sobre os que votaram.
Há uma série de coisas que poderíamos conseguir, mas há nas instituições políticas e nos partidos uma enorme resistência em ser realmente democráticos. Entre outros motivos, porque é um modo de vida, são profissionais da política. Em todos os países, a profissão que está nas posições mais baixas na lista de reputação é a da classe política. Na Itália, incluíram também prostitutas e mafiosos numa sondagem e eles ficaram em uma posição melhor que os políticos. As pessoas alegavam: "Pelo menos, estes dizem o que fazem".
Existe uma crise de confiança em todo o mundo em relação à classe política. Se isso continuar, em algum momento irão se romper as relações na sociedade, e isso seria muito grave. Na Espanha, há uma situação relativamente calma e pacífica. É sorte que com 22% de desemprego, 48% entre os jovens, não haja muitos problemas nas ruas. Este movimento canaliza os debates e protestos, oferece uma esperança, principalmente aos jovens, de que podem começar a se organizar e vamos ver o que acontece. Mas se a situação continuar assim, esse movimento necessariamente vai se radicalizar.
Francisco Guaita - Por que as instituições se separaram tanto das pessoas? Por que o abismo foi se expandindo?
Manuel Castells - 
Primeiro, porque as elites financeiras detêm o poder econômico e montaram um sistema no qual, em vez de emprestar para produzir, o que fazem é vender dinheiro para criar dinheiro artificial e montar uma pirâmide em que tudo é fictício, em nível global. Aumentaram artificialmente os preços dos imóveis e das ações e concederam empréstimos às pessoas, mesmo que não quisessem, porque o negócio era vender dinheiro e empréstimos em qualquer condição. Isso foi feito de forma totalmente irresponsável do ponto de vista da economia, mas de maneira muito interessante para os grandes executivos que agora estão deixando os bancos com indenizações milionárias. Para eles, tudo funcionou muito bem.
Francisco Guaita - Quando a justiça vai ganhar nestas regras do jogo que você propõe reconstruir?
Manuel Castells -
 Quando os cidadãos tiverem capacidade de mudar os políticos. Sim, as pessoas podem votar. Mas primeiro, podem fazê-lo apenas a cada quatro anos. Segundo, estão sob regras muito desiguais e por isso é muito complicado mudar algo através do voto.
A maior parte dos políticos é gente mais ou menos honesta. Não é verdade que sejam todos corruptos. Mas qual o objetivo central de um político? Conservar o posto. Esse é o aspecto mais importante. Para a maioria, é uma profissão. Se não fizerem isso, terão que trabalhar como todo mundo. Se mantiverem o poder terão melhores cargos, até porque a maioria não tem nível profissional muito alto.
Então a classe política se reproduz. Para entrar em um partido, você tem que começar aderindo a um dos grupos internos. É todo um mundo fechado em si mesmo, e esse mundo não tem ar. A novidade é que com a internet abriram-se janelas. Os políticos e banqueiros, juntos, controlam os meios de comunicação - mas não controlam os jornalistas que, por sorte, são a linha de resistência - mas orientam os proprietários dos meios de comunicação e, portanto, suas linhas editorias. Por consequência, temos o controle dos meios, das finanças (e, portanto, da economia) e o controle do Estado através de uma classe política que se reproduz.
Fora disso, só há a internet. E foi justamente a partir da internet que se construíram redes de debates, de organização, de ação. Mas para agir sobre a sociedade, as pessoas têm que sair de casa, ir às ruas. Foi quando a internet, como espaço livre de comunicação, combinou-se com a ocupação dos espaços públicos, transformados em ágoras, o jogo começou a mudar. Mas o movimento ainda não se traduziu em grandes mudanças na política, porque o sistema está fechado.
Francisco Guaita - Quão distante está o cidadão da realidade retratada nos meios de comunicação?
Manuel Castells -
 Depende do aspecto. Na Espanha, os meios de comunicação repetiram milhares de vezes, durante dois anos, as afirmações do presidente do Banco Central. Disseram que os bancos nacionais eram os mais seguros do mundo e não havia nenhum problema com os bancos espanhóis. Nenhum meio contestou isso. Ou são tontos e não têm capacidade de análise ou a cada vez que alguém sério tentava dizer algo havia um problema com a linha editorial.
O resultado é que os bancos espanhóis já devem 250 bilhões de euros ao Banco Central Europeu e agora dizem que vão pegar mais dezenas de bilhões. A dívida, portanto, é impagável, pois os bancos espanhóis estão quebrados. Significaria dizer aos cidadãos que seu dinheiro está em perigo e não sabem o que fazer. Há o risco de que o euro, no mínimo, se desvalorize ou até mesmo acabe. O governo não pode aconselhar os cidadãos a se desfazerem da moeda, mas deve tornar disponível a informação sobre o que está acontecendo, e os meios de comunicação também devem fazer isso.
Francisco Guaita - A internet abriu a janela, mas os meios de comunicação tradicionais ainda têm muitos leitores da rede. Os cidadãos podem se comunicar, mas não são figuras de referência, comparáveis às que aparecem na mídia. Como podemos aprender nos autoinformar?
Manuel Castells - 
Você tem razão. Mas começam a surgir saídas. Primeiro, as pessoas montam seu próprio jornal ou meio de comunicação on-line. Não lemos 'El Paí's ou 'El Mundo' ou 'La Vanguardia' inteiramente. Lemos um artigo aqui e outro lá, comparamos com outras fontes da imprensa estrangeira, ouvimos o que nossos amigos nos dizem. Fazemos um mosaico de informações. Não somos prisioneiros de um meio.
Francisco Guaita - Mas costuma-se dizer que o leitor procura reforçar o que pensa e não se informar por outras vias.
Manuel Castells -
 Você está certo. O que sabemos é que as pessoas buscam principalmente o reforço para suas opiniões, mas isso porque têm pouquíssima possibilidade de serem cidadãs, ativas. Reduzem-se a consumidores passivos. Não estão acostumadas a abrir suas próprias janelas. Se sua opção é entre os meios de comunicação que já existem, a atitude provável é: "Vou ver ou ler aquilo de que gosto mais".
Outra lógica se abre quando as pessoas entram em um espírito mais crítico, desconfiam dos meios. Aí começa outra atitude, que é a wiki-informação: eu informo meus amigos, meus amigos me informam, vamos discutindo e assim se organiza um grande debate na internet do qual saem coisas. Em função desse espírito crítico em rede, examina-se o que os diferentes meios estão dizendo. E esse espírito crítico reconstrói todos os mecanismos de informação, que passam a seguir um novo fluxo - de muitos para muitos - ao invés de todos receberem uma mensagem com muito poucos emissores.
Francisco Guaita - Você diz que vivemos na sociedade da informação, mas estamos desinformados, com uma educação muito pobre e, além disso, temos medo - uma ferramenta fundamental em todo esse mecanismo. Como funciona o medo, para que as regras do jogo não mudem e para que as mesmas pessoas sigam comandando as estruturas de poder?
Manuel Castells -
 Em primeiro lugar, a educação é pobre, mas comparando historicamente, estamos mais bem formados do que antes. Se há uma variável que se repete em todos os novos movimentos do mundo é o fato de serem constituídos por gente educada. Isso não quer dizer que ganham mais dinheiro. O ativista típico é o profissional recém-graduado, ou de uns 30 anos, com um trabalho muito precário ou desempregado. Essas pessoas podem passar a ter uma atitude mais crítica, apostando em uma mudança de mentalidade.
Por exemplo, os direitos da mulher. Há quarenta anos, nenhum partido majoritário falava sobre eles como tema principal. Hoje, se não falam disso, têm um problema. Há trinta anos a ideia de desenvolvimento sustentável, de que é preciso defender um modelo ecológico, de que é preciso integrar a natureza à cultura e ao consumo, era coisa de radicais, nenhum partido sério colocava isso no programa. Hoje, precisaram se pintar de verde, pelo menos um pouco, porque se não o fazem, são rechaçados.
Muitas ideias não são de um partido ou de um líder. São formas de conceber nossa vida em sociedade. Essas grandes mudanças na mentalidade demoram. Precisam de tempo, de debates, de ir além dos líderes.
Francisco Guaita - Dentro desses direitos, entra o tema da internet livre. Está se tornando um ponto essencial como foi o desenvolvimento sustentável e os direitos da mulher.
Manuel Castells -
 Você tem muita razão. Nesse momento, defender a liberdade na internet é a base para defender a liberdade em todos os sentidos. Como os poderes estabelecidos cada vez mais desconfiam da internet, odeiam-na. Se pudessem acabar com ela fariam como os chineses que permitem a conexão para os negócios e educação e nada mais. Mas não é tão fácil.
Existem tantas ameaças à liberdade na internet que os jovens estão criando uma série de partidos e de movimentos que vão criar muitos problemas aos que tentarem restringir a liberdade. Pouco a pouco, o velho sistema está se consolidando em partidos de direita ou de esquerda que estão de acordo em um ponto essencial: resistir a novas formas de representação democrática. Daí, duas coisas podem acontecer: ou eles realmente se abrem e aceitam redefinir o jogo democrático ou não se abrem, e essa é uma perspectiva muito pessimista. Não acredito nas revoluções violentas, mas em situações de tensão que vão se multiplicar e em uma situação de catástrofe econômica e de não-representatividade política, com as pessoas conscientes e críticas e um sistema cada vez mais pressionado, que começa a se defender.
Francisco Guaita - Você tem esperança?
Manuel Castells -
 Sempre. Mas porque os movimentos têm esperança. Meu novo livro, que será publicado em breve, chama-se 'Redes de indignação e esperança', dois sentimentos que existem no movimento. A indignação foi fundamental para superar o medo, porque o medo é a emoção que todas as sociedades impõem para não mudar nada. As pessoas têm medo de que, se fizerem algo que não está dentro das normas do sistema, no mínimo perdem o emprego. Como se supera o medo? As próprias experiências neurocientíficas mostram que é com a indignação. Quando se sente muito indignado, você não se importa com o que pode acontecer. Isso acontece.
Mas se não se transforma em um sentimento positivo, se a indignação é pura raiva, isso leva a um enfrentamento. Qual é o sentimento positivo? A esperança. A esperança de que algo irá mudar. Como se constrói a esperança? Quando as pessoas se reúnem. Por isso, o lema na Espanha é: 'Juntos, podemos'. É a ideia de que eu não posso sozinho, e que você não pode sozinho, mas muitos juntos, sim, podemos.
E juntas, não apenas as pessoas que estão na Puerta del Sol, em Madri, mas em outros países também. A vitalidade desse movimento não é apenas em função da internet, a vitalidade é necessária para poder seguir fazendo algo aparentemente impossível, que é reconstruir a democracia a partir dos cidadãos.
Esse texto foi anteriormente publicado em Outras Palavras.
Transcrição e tradução: Daniela Frabasile

PT acha ponto fraco de Serra

Nas eleições passadas o mote foram as privatizações. Agora, algo mais pueril: não cumpre mandato. Assim como no volei, que o saque marca um jogador que não tem boa recepção, o jogo do PT em São Paulo tenta marcar o candidato tucano. Sem variar o saque, a jogada já é até previsível, mas sempre dá resultado. Surpreendente, porque um político profissional já teria que ter criado pele curtida para aguentar a chibatada. Mas Serra, por algum motivo, acusa o golpe. E aí, como no jogo de volei, o saque vai se repetindo. Agora foi Lula. E Serra, infantilmente, cedeu, referindo-se à Haddad ("o importante não é ser novo, mas ter ideias novas"). A polarização, como é evidente, só facilita a vida do candidato de Lula.
O que intriga, portanto, não é o jogo de cartas marcadas dos petistas, mas os motivos que fazem Serra ceder a este jogo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O voto de Lewandowski

Havia uma opinião majoritária de juristas sobre o trabalho inconsistente de Roberto Gurgel como peça acusatória. O ministro Lewandowski reforçou, com a leitura de seu relatório, a opinião geral desses  especialistas.Mas corrigiu, com trabalho minucioso. Enfim, a impressão que não haveria condenação por falta de provas está sendo corrigida pelo ministro revisor. Um reforço à legitimidade e respeito institucional pelo STF. Bom para a democracia.
O ministro merece aplausos.

Propaganda de vereadores de BH é um desserviço à política






Propaganda de vereadores de BH é um desserviço à política, diz especialista

Thaís Mota - Do Hoje em Dia

22 de Agosto de 2012

O primeiro dia do horário eleitoral gratuito em Belo Horizonte foi um verdadeiro "circo de horrores". A avaliação é do sociólogo e cientista político Rudá Ricci. Segundo ele, a propaganda dos candidatos a vereador é um verdadeiro desserviço à política.
A pedido do Portal HD, Rudá analisou o discurso apresentado pelos candidatos a vereador na capital mineira. Ele acredita que o formato da propaganda eleitoral no país não favorece a apresentação das propostas e programas de governo. "Esse tipo de propaganda não auxilia em nada um eleitor que está indeciso sobre quem votar. É um discurso frio, você não consegue saber quem é a pessoa que se apresenta na TV", critica.
Na visão do especialista, a melhor apresentação foi dos candidatos do PSTU. Apesar do discurso radical e agressivo, o partido apresentou de forma mais estruturada a proposta de governo. "O conteúdo ficou muito distante dos eleitores já que se concentrou na greve do funcionalismo público, mas foi a propaganda mais compreensível", ressaltou. A campanha dos candidatos a vereador da coligação "BH segue em frente" reforçou a imagem do candidato à reeleição, Marcio Lacerda (PSB).
Nos vídeos, a foto do socialista aparece em destaque ao fundo esquerdo. Já na propaganda dos partidos coligados ao PT nem isso. O nome do candidato a prefeito Patrus Ananias mal apareceu embaixo da tela. "O que fica na memória de quem assiste o horário eleitoral é a imagem do Lacerda, diferente da imagem de Patrus. Foi uma propaganda mal feita".
Além da falta de propostas concretas e o tempo reduzido do horário eleitoral para os vereadores, Rudá Ricci também criticou a falta de coordenação e cuidado em algumas campanhas. Durante a exposição, um candidato governista chegou a dizer que "agora é tempo de mudar".
"Como um candidato do governo fala em mudança? Não existe o menor cuidado em editar esse material que é divulgado no horário eleitoral gratuito", comenta.
Uma solução para a melhoria da qualidade do horário eleitoral gratuito no Brasil seria fazer uma mudança na maneira como o tempo é distribuído para cada partido. Rudá propõe que os candidatos tenham mais tempo para, de fato, apresentarem suas propostas e mostrarem como a cidade é na visão deles.
"As coligações teriam tempo proporcional ao tamanho da chapa ao número de candidatos. Dessa forma, eles teriam tempo para trabalhar melhor os slogans, apresentar o programa de governo em capítulos e a campanha seria mais organizada", aponta.

Propaganda Eleitoral de 1976



Formato: o que mudou?

Apesar da aproximação dos candidatos com os eleitores por meio da incorporação das redes sociais às campanhas eleitorais, o formato da propaganda eleitoral gratuita na TV e no rádio se manteve praticamente o mesmo desde seu início no Brasil.
"A propaganda acontece apenas para anunciar o candidato. O que fica é seu rosto, seu partido e seu nome. As propostas mesmo não chegam nem a serem apresentadas", explica o cientista político.
Em alguns casos, o retrocesso é tão grande que a propaganda chega a remontar os tempos da Lei Falcão de 1976, que proibia os candidatos de falar durante o horário eleitoral (veja o vídeo). Apenas a imagem do político, acompanhada do seu nome e número, aparecia na tela da TV. "Tem partidos que fazem isso até hoje, inclusive na campanha aqui em BH", aponta Rudá.

Discurso político

Com o fim da ditadura militar, o país sofreu várias mudanças no discurso eleitoral. A principal delas ocorreu durante a campanha de Fernando Collor para a presidência do Brasil em 1989. Foi a partir disse que o discurso político começou a mudar no país. Até então as campanhas sempre adotaram slogans.
"Mas Collor introduziu algo mais moderno, focado no marketing político, na construção da imagem, no cuidado com a vestimenta, com a introdução de media training, com criação de fatos políticos programados, explica Rudá.
Entre as mudanças destacadas pelo especialista estão o esvaziamento do discurso ideológico dos partidos, a ampliação da aliança governista e a transição de um slogan político para um slogan publicitário. Além disso, as campanhas passaram a focar mais na figura do candidato do que em um programa político, ideológico e partidário.
A pegada publicitária nas campanhas veio para reforçar a assimilação dos eleitores em relação aos candidatos. Em estudo realizado pelos pesquisadores Adolpho Queirzo e Carlos Manhanelli é possível verificar a sutil mudança de ênfase nos discursos apresentados já na campanha para a Presidência em 1989, quando os argumentos de autoridade perderam espaço para recursos de fácil memorização.
Por isso, os candidatos optam cada vez mais por realizar paródias de músicas de sucesso durante a campanha e optam por repetições e associações que facilitem a fixação da imagem do candidato pelo eleitor. "Tem gente que opta pelo engraçado, como um candidato a vereador que em seu discurso utiliza a frase ´Já que Minas Gerais não tem mar, só sobra o bar´. Ou seja, ele faz um trocadilho durante o horário eleitoral e ri. E aí acabou a propaganda", exemplifica.

A disputa em SP, por Gaudêncio Torquato

Do Porandubas Políticas:


Canibalização
Entende-se por canibalização o esmaecimento de um perfil de baixa visibilidade perante outros, de alta visibilidade. Canibalizar - comer, devorar, superpor, ultrapassar, esmaecer. Ou seja, Russomanno, com pequena exposição, tende a ser superposto por Serra e Haddad. Esse é um princípio consagrado da comunicação. O mais forte massacra o menor. O sistema cognitivo do povão acaba substituindo nomes e perfis visíveis por nomes e perfis muito visíveis. O que não impede a pergunta : mas Russomanno não poderia consolidar sua posição com uma exposição de dois minutos ? Pode, sim. Principalmente se fizer um bom programa de TV e rádio. Campanha política, porém, abriga outros componentes : estruturas administrativas, peso das máquinas municipal, estadual e Federal. Essas estruturas comportam milhares de funcionários, muitos ligados aos partidos e políticos. Daí a inferência : Serra contará com as máquinas da prefeitura e do Estado. Haddad, com a máquina Federal. Russomanno não terá esse apoio.
Cenários
Russomanno teria condições de enfrentar essas frentes poderosas ? Difícil. Mas ele conta com o apoio de uma banda evangélica, representada pela Igreja Universal, cujo dirigente maior é dono da TV Record. Ou seja, conta com um eixo comunicativo forte, apesar do controle rígido que a Justiça Eleitoral impõe às redes. Pelos vetores acima delineados, é possível apontar este cenário : Serra, mantendo cerca de 30% : Haddad subindo para alcançar 25%. Os dois se posicionariam para o segundo turno. Mas, como em política, não existem regras, tudo é possível. Russomanno, nesse caso, teria condições de fixar seu perfil como o anti-Serra; e disputar com ele o segundo turno, deixando Fernando Haddad para trás.
E Lula ? E o PT ?
Essa é outra grande dúvida. Lula, com todo seu carisma, não puxará Haddad ? Em SP, Lula não tem tido tanto sucesso. É o que diz a história. Os paulistanos sabem dar a cada um o seu peso. E decidem conforme suas conveniências. Vejo certa autonomia na decisão do voto paulistano. A micropolítica - as demandas das regiões e dos bairros - é mais importante que a força dos líderes e a imagem dos partidos. Acrescente-se que as siglas estão combalidas, desgastadas. Lula também não poderá fazer a campanha dos seus sonhos. Por mais recuperado que esteja, precisa ter muitos cuidados. O PT tem históricos 30% em SP. Será, porém, que o eleitorado não está saturado da polarização entre tucanos e petistas ? Essa polarização também pega o Serra, que sofre da doença - desgaste de material. Serra é cara de ontem. E os paulistanos gostam de testar novas experiências, novos atores. Foi assim com Pitta. Foi assim com Marta. Foi assim com Kassab.
E os outros ?
Quem também tem condições de um bom avanço é Gabriel Chalita. Que disporá de um programa de mais de quatro minutos, ou seja, uma grande exposição. É fluente, simpático, conta com grande apoio dos católicos e poderá sair-se muito bem dos debates. Soninha e Paulinho da Força deverão oscilar em torno dos 5%.

O início da propaganda eleitoral na TV e rádio em BH

Tudo dentro do previsível. Ontem, inserções de Lula dizendo que Patrus entende de gente. A ideia-força era: é preciso desenvolvimento, mas aliada a quem entende de gente. Lula cola na imagem de Patrus. Há quem, do PSB mineiro, acredita que Dilma não vai se indispor com Eduardo Campos. Mas Lula parece demonstrar que esta hipótese é mais que certa. Agora, é ver o efeito concreto.
De resto, propaganda eleitoral de ontem, focada nos candidatos a vereador, foi um desastre. Alguns partidos reeditaram a Lei Falcão: imagens quase congeladas dos candidatos com seu nome e número e ponto final. Outros, falando de maneira tão autômata que parecia boneco de ventríloquo. O PSTU, em termos de forma, foi o mais feliz, embora seu conteúdo não desperte, imagino, atenção do eleitor.
Houve alguns absurdos. Como o candidato do PSDB que começa dizendo que se Minas não tem mar, as pessoas têm que ir ao bar. Pode ser uma rima, mas não é uma solução. Ou a candidata do PDT que começa dizendo que a hora de mudar é agora. Alguém deveria ter lembrado que a chapa dela apoia o continuísmo, não a mudança. Um circo de horrores. Talvez, a solução seria fatiar (a palavra da moda) o tempo por bloco de partidos coligados para as candidaturas proporcionais, aumentando o tempo para cada candidato falar um pouco sobre sua proposta e diferenciar de partido para partido. Da forma como está, é um desserviço à política.
Um detalhe a mais: ontem, as chapas que apoiam Patrus Ananias apresentavam discretamente o nome do ex-ministro na parte de baixo da tela, à direita. Já os partidos que apoiam Marcio Lacerda postaram a foto do atual prefeito em metade da tela, à direita da imagem do postulante à Câmara Municipal. Ponto para os produtores da campanha de Lacerda que formataram melhor, com mais destaque, a imagem de Lacerda. Aliás, o que ficava na memória após a pantomima televisiva era a imagem de Lacerda. Quieto, falava mais coisa com coisa que os candidatos a vereador.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Sobre o voto nulo e a passividade do eleitor

Entrevista aos estudantes do jornalismo da PUC-Minas:


1) Para você o que desmotiva mais a população brasileira em relação à política?
Rudá Ricci: O descaso do eleito. Todo eleito gera um profundo ressentimento no eleitor. Não aparece depois de eleito, não discute suas propostas, não presta contas, tudo o que faz acaba sendo usado para proveito do eleito e não do beneficiado, enfim, tudo dá a entender que não se trata de um representante, mas de um aproveitador. Este é o sentimento generalizado. A consequência é um jogo que se pauta por esta natureza desleal e desigual, marcada pela troca de favor. Nada a ver com política e muito a ver com comércio.

2) Qual sua opinião sobre o voto nulo e branco? Você é a favor de que as > pessoas utilizem esta opção como manifestação de protesto?
Rudá: O voto nulo é uma falsa demonstração de revolta. Não gera absolutamente nada. O voto branco é computado como voto válido, mas se confunde com indecisão, não como protesto. Enfim, se há revolta, o melhor é alterar todo sistema partidário e eleitoral. A pressão para a reforma política com ampla participação do cidadão seria o caminho mais adequado. Como se fez com a campanha das Diretas Já, que mesmo derrotada pelo Congresso, acabou por dar volume à vontade popular a ponto de desaguar no primeiro impeachment de um Presidente da República em todo continente americano.

3) E essa manifestação é válida, ou seja, é possível causar algum impacto na eleição?
Rudá: O voto nulo não causa impacto algum. 60% de votos nulos não impedem os 40% restantes de definir um eleito (basta que o eleito tenha 20% mais um voto). Trata-se de decisão do TSE. O que pode anular uma eleição é uma dos casos previstos mencionadas nos artigos de 220 a 222 da LEI Nº 4.737, de 15 de julho de 1965 que Institui o Código Eleitoral.Vou explicitar estes artigos:
Art. 220. É nula a votação:

        I - quando feita perante mesa não nomeada pelo juiz eleitoral, ou constituída com ofensa à letra da lei;
        II - quando efetuada em folhas de votação falsas;
        III - quando realizada em dia, hora, ou local diferentes do designado ou encerrada antes das 17 horas;
        IV - quando preterida formalidade essencial do sigilo dos sufrágios.
        V - quando a seção eleitoral tiver sido localizada com infração do disposto nos §§ 4º e 5º do art. 135. (Incluído pela Lei nº 4.961, de 4.5.1966)

        Parágrafo único. A nulidade será pronunciada quando o órgão apurador conhecer do ato ou dos seus efeitos e o encontrar provada, não lhe sendo lícito supri-la, ainda que haja consenso das partes.

Art. 221. É anulável a votação:

I - quando houver extravio de documento reputado essencial; (Inciso II renumerado pela Lei nº 4.961, de 4.5.1966)
II - quando fôr negado ou sofrer restrição o direito de fiscalizar, e o fato constar da ata ou de protesto interposto, por escrito, no momento: (Inciso III renumerado pela Lei nº 4.961, de 4.5.1966)
III - quando votar, sem as cautelas do Art. 147, § 2º. (Inciso IV renumerado pela Lei nº 4.961, de 4.5.1966)
a) eleitor excluído por sentença não cumprida por ocasião da remessa das folhas individuais de votação à mesa, desde que haja oportuna reclamação de partido;
b) eleitor de outra seção, salvo a hipótese do Art. 145;
c) alguém com falsa identidade em lugar do eleitor chamado.

Art. 222. É também anulável a votação, quando viciada de falsidade, fraude, coação, uso de meios de que trata o Art. 237, ou emprego de processo de propaganda ou captação de sufrágios vedado por lei.

4) Até o momento, as últimas pesquisas de intenção de voto, indicam o candidato Márcio Lacerda como favorito a reeleição. Você acredita na possibilidade de outro candidato ultrapassar este favoritismo de Márcio Lacerda?
Rudá: Sim, o seu oponente direto, Patrus Ananias. As pesquisas indicam que Patrus está entre 10% e 15% atrás de Marcio Lacerda. A possibilidade estará na recuperação a partir da propaganda eleitoral na TV, principalmente com a possibilidade de entrada do apoio visual de Lula. Segundo o Datafolha, metade dos eleitores de BH seguiriam a indicação de Lula (a outra metade, de Aécio). Dez dias após o início da propaganda eleitoral na TV teremos uma noção se a distância entre os dois permanece a mesma ou se reduziu.

5) Você fez, faz algum estudo ou acompanha os dois principais candidatos à prefeitura de Belo Horizonte para fazer uma análise das propostas de cada candidato? 
Rudá: As propostas são tão parecidas que os dois candidatos já disputam a paternidade de algumas delas. No momento, a maior divergência está na condução do orçamento participativo. O programa, contudo, não revela diferenças reais entre os dois. Lacerda nunca escondeu seu apreço por métodos de gestão de tipo empresarial. E Patrus nunca escondeu seu ideário identificado com a Teologia da Libertação. Algo como água e azeite.

6) Qual tipo de orientação você daria para o eleitor decidir entre um candidato?
Rudá: Uma combinação entre histórico de vida, propostas e apoios que recebe. Sei, contudo, que muitas vezes é difícil obter estas informações. Na pior das hipóteses, avaliar como ele fala e se comporta. É impossível enganar a todos o tempo todo. As intenções acabam se revelando num olhar, num sorriso, na falta de paciência. O que temos que lembrar é que um eleito é representante e o melhor representante é o nosso reflexo. Temos que votar naquele que mais se aproxima do que somos.

7) Qual sua opinião quanto a falta de acompanhamento da campanha dos candidatos por parte de alguns eleitores?
Rudá: O problema está no momento anterior. A política não está efetivamente na nossa vida. Veja o currículo das escolas. Os alunos estudam os problemas da sua cidade? Sabem como funciona uma Câmara de Vereadores? Quantos pais participam ao menos de uma reunião por ano sobre a situação de seu bairro ou acompanham a votação final do orçamento do município? Com uma carreira cidadã tão parca como podemos esperar que o eleitor acompanhe a campanha dos candidatos? A política está, desde sempre, fora de nossas vidas. Temos que incluir nos currículos escolares a formação para a cidadania. É o mínimo.

8) Um conselho para a população quanto ao voto consciente.
Rudá: Levar a sério a eleição. Não escolher no último dia, a partir do santinho que recebe poucas horas antes de entrar na seção eleitoral. Tentar analisar porque um candidato disputa com outro? Por qual motivo não estão juntos? E, ao descobrir as diferenças que os afastam, escolher aquele que está mais de acordo com suas aspirações e forma de ver o mundo. Ao menos isto: votar em alguém que se parece com seu reflexo no espelho.

CAMPANHAS ELEITORAIS NA TELEVISÃO


CAMPANHAS NA TELEVISÃO
POR Rudá Ricci

Os marqueteiros afirmam que tudo começou com Collor. Explicam: campanhas eleitorais no Brasil sempre adotaram slogans. A palavra significa “grito de guerra” (de slaugh-ghairm, do gaélico escocês). Na República Velha, havia muita ironia, como o deboche dos oposicionistas à candidatura de Arthur Bernardes, que o denominavam de “Seu Mé”, em alusão à certa preferência etílica. Também é possível lembrar da campanha “queremista” ou “50 anos em 5”.
Mas Collor introduziu algo mais moderno, focado no marketing político, na construção de imagem, no cuidado com vestimenta, com a introdução de media training, com criação de fatos político programados. No período pós-regime militar, já tivemos seis campanhas eleitorais nacionais (1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010) e seis campanhas eleitorais municipais (1988, 1992, 1996, 2000, 2004 e 2008). De lá para cá, as campanhas sofreram mudanças importantes.
Destaco as principais:
     1 As coligações eleitorais passaram a ser hegemônicas. Na região sudeste (em especial, São Paulo e Minas Gerais) as coligações vitoriosas foram as heterogêneas do ponto de vista ideológico;

      2. O governismo passou a ser a tônica, ou seja, a aliança governista foi ampliada ao limite, repercutindo no processo eleitoral que acabou por focar a personalidade do candidato e menos nas diferenças programáticas ou ideológicas, já que o arco de alianças, de tão amplo, juntou todo espectro partidário;  

    3. Do slogan político, coerente com as mudanças indicadas anteriormente, transitamos para o slogan publicitário, de fácil memorização, em todas campanhas;

       4. Mudanças geracionais, de um perfil mais nacionalista (mais evidente nos anos 1950 e 1960, como a campanha “O Petróleo é Nosso”, mas também ao longo do regime militar, com “Prá Frente, Brasil” ou “Ninguém segura este País”) para um perfil mais individualista e focado na estabilidade e sucesso pessoal, na desconfiança nas hierarquias funcionais e instituições públicas (anos 2000).

O slogan publicitário tem como característica a facilidade de assimilação, brevidade e o uso de linguagem direta, simples.
Estudo de Adolpho Queiroz (Universidade Metodista de São Paulo  e Presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Comunicação e Marketing Político) e Carlos Manhanelli (Presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos) sobre slogans políticos revela uma mudança sutil de ênfase, nas campanhas eleitorais para Presidência da República desde 1989, de argumentos de autoridade (em Collor e FHC) para os de fácil memorização (repetição).
Embora ocorram situações de embates de natureza programática e ideológica (como o debate sobre privatizações – no caso dos últimos embates entre Lula e o PSDB - ou valores morais conservadores – como no final do primeiro turno da campanha eleitoral presidencial de 2010), a marca é o personalismo, o esvaziamento das diferenças conceituais. Nesta esteira, aumenta o poder do marketing político nas campanhas e do apadrinhamento de candidatos anódinos e jejunos na política (justamente para diminuir os pontos de atrito com eleitor que se afasta mais e mais da identidade com a prática política).
As restrições legais para uso de showmícios, uso de imagem de artistas em campanhas, uso de camisetas que poderiam configurar doações em troca de voto, ao invés de reforçar o discurso de ideias e projetos, jogou água no moinho da pasteurização política, da despolitização e afastamento do cidadão da dinâmica político-partidária. 

Serra estava no teto

A pesquisa Datafolha parece confirmar que José Serra estava no teto de suas possibilidades eleitorais, girando ao redor de 30%. Começa a cair, na medida em que Russomanno avança, como alternativa, digamos, de centro-direita (liberal conservador). Volto a afirmar que é bem provável que tudo mude novamente, a partir da entrada do programa eleitoral na TV. Mas é interessante notar que o índice de rejeição de Serra aumentou (dentro da margem de erro), o que reforça a crença que o candidato tucano poderá avançar para o segundo turno, mas enfrentará muitas dificuldades. Tudo vai depender da força dos padrinhos de Haddad e a maneira como os eleitores paulistanos que afirmam seguir orientação de Lula (ao redor de 40%, segundo Datafolha) efetivamente se comportarão.

Vaga na Câmara custa 3 carros


Vaga na Câmara custa 3 carros
Pelo menos 40% das despesas de campanhas vão para a comunicação
Publicado no Jornal OTEMPO em 20/08/2012
GUSTAVO PRADO

Quem disputa uma das 41 cadeiras da Câmara Municipal de Belo Horizonte com o objetivo de realmente se eleger deve preparar o bolso. Levantamento feito pela reportagem de O TEMPO revela que um kit básico para divulgação da campanha, com produção e confecção de material gráfico e com elaboração de estratégias de marketing, com layout e slogan, por exemplo, não custa menos do que R$ 30 mil, o que representa apenas 40% do total de despesas.

O gasto ainda pode ser maior, dependendo da quantidade de cabos eleitorais e da estrutura do comitê de campanha. Em média, essa estrutura consome cerca de 60% dos investimentos na disputa. Entre as despesas estão gasolina e contas de água, luz, telefone e internet. Ou seja, um candidato na capital precisaria de R$ 75 mil para se eleger - o preço de três carros populares.

Com o avanço da propaganda na internet, os gastos com o kit de divulgação da campanha também foram elevados. A criação e a manutenção de hotsites e perfis em redes sociais têm preço entre R$ 500 e R$ 7.000, dependendo das ações e dos serviços prestados. Os atuais pacotes de mensagens eletrônicas, como gravações de telemar-keting, e-mails e torpedos telefônicos, têm valor a partir de R$ 5.000. Os serviços audiovisuais, que envolvem fotos, gravações para TV e jingles, também custam a partir de R$ 5.000. Os cursos de marketing político voltados para o candidato têm preços que variam de R$ 1.000 a R$ 2.000.

Os serviços gráficos também demandam grandes investimentos. São faixas, cartazes, banners, bottons, bandeiras, adesivos, jornais e os tradicionais santinhos. Os gastos para estes serviços chegam a custar R$ 10 mil, de acordo com a quantidade encomendada. Os valores para alugar um carro de som giram em torno de R$ 400 por semana. Já os cabos eleitorais recebem, pelo menos, R$ 500 mensais.
Perfis. De acordo com especialistas, existem, basicamente, dois tipos de candidatos a vereador. Cada perfil interfere diretamente nos gastos da campanha eleitoral. O primeiro seria o candidato com base eleitoral forte em determinada região da cidade. "Cada um dos candidatos tem um kit específico para a campanha. Os candidatos com base eleitoral em determinada região pode promover caminhadas, tentando reforçar a sua imagem na região. Este é o período de fechar o território", diz o cientista político Rudá Ricci.

De acordo com ele, a demarcação do território pode ser feita com a divulgação das propagandas em áreas estratégicas do bairro. "O candidato começa a colocar banner na casa dos que apoiam a sua eleição. Assim, ele tem certeza que o morador ou comerciante vai votar nele, expondo gratuitamente o seu material. O candidato vai mostrando para todo mundo daquele bairro que ele é o nome da região", diz o professor.

O outro perfil de candidato seria mais genérico, aquele que não tem uma região específica de atuação ou uma identidade com um público alvo. Com isso, o candidato acaba gastando mais dinheiro. "Esse candidato investe mais em cavaletes, bandeiras, adesivos de para-choques. Ele tem que espalhar a imagem para fixá-la", afirmou Ricci.
INVESTIMENTO
Kits por perfil custam mais caro
Novidade desde as últimas eleições, os kits de campanha fazem sucesso entre os candidatos. Empresas de publicidade e de assessoria de comunicação e política oferecem aos concorrentes planos diversos, que incluem tudo o que o candidato precisa para se promover. O investimento, porém, é alto. Todo o serviço de assessoria, desde a elaboração de estratégias, slogan e logomarca até a produção de materiais gráficos, sem contar a impressão, giram em torno dos R$ 40 mil.

O publicitário Filipe Mattos, da F/Mattos Marketing Político, explica que os serviços são voltados para o perfil de cada pessoa. "O primeiro passo é identificar o perfil do candidato. A estratégia é saber o que vai ser colocado no material. O slogan deve ser centrado nas carências e naquilo com que o candidato mais se identifica", diz.

O publicitário admite que quem consegue aparecer mais acaba levando vantagem, mas avisa que só a exposição não adianta. "Se o candidato não tem conteúdo, não tem o que transparecer dele, fica mais complicado. A credibilidade conta muito, principalmente com o avanço da internet, onde as pessoas passam a acompanhar mais os candidatos", afirma, completando que a boa publicidade depende do bom candidato. "O marketing vai pegar o que o candidato tem de melhor e vai repassar às pessoas esse conteúdo", conclui. (GP)
MÍNIMO
R$ 10 mil elegeram um vereador
Em 2008, os gastos dos candidatos que conseguiram ser eleitos chegaram a ultrapassar os R$ 400 mil. Dez deles gastaram acima de R$ 150 mil. O vereador Iran Barbosa (PMDB) foi o terceiro eleito que mais gastou na última eleição – R$ 311 mil. Segundo o peemedebista, 40% foram gastos em material gráfico.

"O meu perfil é mais completo. Tenho que levar o número de campanha ao conhecimento das pessoas em várias regiões da cidade. O desafio é acertar o perfil do eleitor que é o seu para não gastar tempo e dinheiro em quem não vai votar em você". Barbosa diz, ainda, que ele utiliza novas estratégias de publicidade. "Com um balão, por exemplo, eu consigo causar um impacto visual maior e sem gastar muito, não precisando ter 30 pessoas em um lugar para fazer volume", diz. O vereador disse que deve gastar cerca de R$ 400 mil na campanha para a reeleição.

Na parte de baixo do ranking de maiores gastos em 2008, está o vereador Márcio Almeida (PRP), que gastou cerca de R$ 10 mil em 2008. De acordo com o parlamentar, o dinheiro foi investido para pagar o pessoal de campanha e em despesas como gasolina. "Todo o material de campanha eu ganhei do partido. Eu estava desempregado na época, pois tive que me desincompatibilizar do cargo que ocupava na prefeitura. Foi uma campanha muito humilde. O dinheiro que eu gastei foi com gasolina e paga pagar o meu pessoal", relembra.

O vereador disse que o trabalho realizado na comunidade do bairro União – seu reduto eleitoral – foi o diferencial para ser eleito. "Fui presidente da associação do bairro. Com muito trabalho, conseguimos algumas demandas para a comunidade com os prefeitos", diz o parlamentar.
Em 2012, o vereador disse que pretende gastar, no máximo, R$ 60 mil, caso consiga doações.(GP)

Haddad empaca e Russomanno dispara, no Datafolha

Todos apostam que a propaganda eleitoral de TV, que começa hoje, deve alterar todo cenário de intenção de votos nas grandes cidades, em especial, em São Paulo. O que teríamos no momento é algo próximo de uma pesquisa com resposta espontânea e, com a TV, algo próximo de uma pesquisa estimulada (quando o pesquisador apresenta uma cartela com o nome dos candidatos). Assim, as pesquisas do momento indicam o grau de conhecimento e empatia natural dos candidatos. E aí, Russomanno está dando um show, o que interessa sobremaneira aos cientistas políticos, que procuram entender as fontes de legitimação das lideranças sociais e políticas. Russomanno capta uma lógica espelhada do eleitor paulistano, conservador, individualista, cioso de seus direitos como consumidor.
As pesquisas podem efetivamente se alterar a partir de hoje. Mas Russomanno já se revelou um fenômeno que merece atenção e análise, por ser o reflexo do eleitor paulistano, sem exposição à carga de informações, marketing e falas de padrinhos.
A seguir, os dados do Datafolha:


Pesquisa Datafolha realizada ontem mostra Russomanno com 31% das intenções de voto, 4 pontos a mais que Serra. Como a margem de erro da pesquisa é de 3 pontos para cima ou para baixo, eles continuam tecnicamente empatados.
Em relação ao levantamento anterior, de 19 e 20 de julho, Russomanno cresceu 5 pontos. No mesmo período, Serra caiu 3.
Esta é a última pesquisa de intenção de voto para prefeito de São Paulo antes do início do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, que começa hoje.
Na disputa pela terceira colocação há quatro candidatos tecnicamente empatados. O petista Fernando Haddad tem 8% das intenções de voto; Gabriel Chalita (PMDB) tem 6%; Soninha Francine (PPS), 5%; e Paulinho da Força (PDT), 4%.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

As greves dos federais, por César Felício

Dentro de casa, um palco para a lutaImprimir
Valor Econômico   
Qui, 16 de Agosto de 2012 10:30
Por César Felício
Há 66 anos, o então ditador da Bolívia Gualberto Villarroel foi retirado de dentro de seu esconderijo em um armário por manifestantes contra seu governo e atirado pela janela do Palácio Quemado, sede presidencial. Morto a tiros e pauladas, Villarroel teve seu cadáver içado pelo canhão de um tanque e foi pendurado em um poste no centro de La Paz.
O episódio único na história da América Latina é o exemplo mais extremo do grau de conflitividade social no continente e do poder desestabilizador que manifestações populares podem vir a ter.
Presidentes não costumam ser linchados nem na Bolívia e nem em qualquer parte do mundo, mas a institucionalidade no Brasil e nos países vizinhos nunca foi suficiente para que demandas estudantis, trabalhistas ou ambientalistas, entre outras, não levem a uma confrontação.
Natureza política da greve no Brasil vai se tornando evidente
No mapa dos conflitos sociais da América Latina, desenhado por uma pesquisa do PNUD, a Bolívia é a campeã em manifestações de caráter social, em um contexto de dezessete países. Com cerca de dez milhões de habitantes, teve 1,5 mil manifestações apenas no ano passado. É seguida de perto por Peru. No pelotão seguinte, estão, pela ordem, Argentina, Equador, Brasil e Uruguai.
A pesquisa do PNUD tenta vencer as inconsistências e a falta de padrão das estatísticas dos países na região para produzir um banco de dados permanente sobre o tema. O trabalho é comandado pela Fundação UNIR, uma ONG de La Paz.
Nos países andinos, os movimentos têm caráter territorial e a motivação está ligada a questões básicas da sobrevivência. Aumentos repentinos de preços de alimentos ou combustíveis, por exemplo, provocam explosões de descontentamento.
Ainda são minoritários, embora ganhem espaço, os protestos em torno do que o estudo chama de demandas ampliadas, ou reivindicações que visam ganhos de renda em uma sociedade onde a riqueza cresceu.
Na Argentina, o protesto clássico é o bloqueio de rodovias e ruas. Isso aconteceu 516 vezes apenas no primeiro semestre deste ano, de acordo com o levantamento do Centro de Estudos Nueva Mayoría. As ruas não são monopólio dos menos favorecidos. Fazendeiros interromperam a circulação nas estradas doze vezes este ano e a classe média portenha promoveu 25 panelaços para demonstrar seus sentimentos em relação à presidente Cristina Kirchner.
Brasil e, em certa medida, o Uruguai, possuem outro perfil. Greves respondem por mais de 60% dos protestos. Tratam-se de dois países onde a luta social se trava pelas tais demandas ampliadas. E neste contexto, as paralisações no setor público predominam. No caso brasileiro, de acordo com o levantamento feito pelo DIEESE, em 2010 houve 446 paralisações, sendo 60% do funcionalismo. O setor público respondeu por 85% das horas paradas no período.
Fora do restrito círculo institucional, em que se disputa poder nas eleições municipais e no Congresso, a greve dos servidores que já se arrasta há dois meses é a arena preferencial do confronto político. Tanto dentro do meio sindical como em relação ao poder público. Trata-se de um embate que não ultrapassa determinados limites.
No Brasil, a violência social está concentrada nas questões de posse da terra, onde a conflitividade é maior do que em outros países do continente. O conflito sindical de agora pode levar a uma mudança da equação política com que Dilma Rousseff se sustenta, caso o PT não esteja mais servindo como amortecedor político, mas é evidente que não coloca em cheque a governabilidade comentou o coordenador da pesquisa do PNUD, o boliviano Fernando Calderón.
A dimensão central da greve atual é política. O PT como instância mediadora parece ter sido decisivo para a relativa paz que se viveu entre o Estado e seus funcionários na década passada. O presidente do Sindifisco, Pedro Delarue, um dos negociadores da greve, não esconde a saudade em relação ao governo Lula. A administração passada dava mais perspectiva de negociação, porque existiam interlocutores que não eram oficiais, mas que tinham influência real. A mudança de comportamento deles levou à nossa mudança, comentou.
A perda de influência da elite política oriunda do meio sindical no centro do poder veio acompanhada do enfraquecimento do PT e da CUT em suas bases. Carregando as centrais sindicais nas costas, o sindicalismo do poder público parece ter se cansado da falta de mando político. A oposição dentro dos sindicatos dos servidores cresce a cada dia e esta divisão aumenta a radicalização, comenta o sociólogo Rudá Ricci, do Instituto Cultiva de Belo Horizonte. Pressionadas por baixo e pouco ouvidas acima, as centrais aumentam o tom.
A crise torna-se mais aguda dado o cenário econômico que instala um debate sobre qual o tamanho que o gasto público pode ter. Diminui o espaço para concessões, como lembrou o Fernando Henrique Cardoso, em um gesto solidário curiosamente acompanhado por Lula no dia seguinte.
Logo em seu primeiro ano do governo, FHC enfrentou simultaneamente um confronto com os petroleiros e uma greve do setor de telecomunicações. Pediam reajuste mensal de salários. A greve foi declarada abusiva pelo TST um mês depois de iniciada, mas antes disso o Exército ocupou quatro refinarias. As multas aplicadas contra as entidades dos petroleiros debilitaram o movimento por algum tempo.
Se Dilma e Fernando Henrique se aproximam pelo discurso e pelas dificuldades econômicas que atravessaram no início de suas administrações, se distanciam no lastro popular. A presidente conta com 62% de aprovação na última pesquisa Datafolha, resultado seis pontos superior ao total de votos que recebeu no segundo turno da eleição de 2010. A ironia, como observou Ricci, é que essa aceitação explica a tensão política atual. Com a oposição esmaecida, o governo enfrenta dentro do seu território a disputa pelo poder mais acirrada.
César Felício é correspondente em Buenos Aires. Escreve mensalmente às quintas-feiras
E-mail: cesar.felicio@valor.com.br