sexta-feira, 8 de março de 2013

STF, grande imprensa e o ovo da serpente

Li alguns artigos, quando da decisão do STF a respeito da ação sobre o mensalão (alguns sugerem que se adjetive como "mensalão do PT", para garantir a imparcialidade em relação aos outros possíveis mensalões), que sugeriam que o oba-oba envolvendo este julgamento poderia revelar um ovo de serpente. A expressão ficou mais conhecida a partir do filme de Bergman (O Ovo da Serpente, 1977) onde é narrada a Alemanha pós Primeira Guerra Mundial, quando o nazismo começa a se forjar, ainda na década de 1920. A partir de então, ovo da serpente é empregado como expressão de alerta. Seria algo como o germe de algo perigoso que pode estar se formando no interior de um inocente ovo que, translúcido, facilita a vida do observador do feto da serpente que se forma, sem que se dê conta que a qualquer momento a casca poderá se romper, revelando um inimigo com instinto de ataque.
Os arroubos do ministro Joaquim Barbosa indicavam um excesso de rigor. Mas a grande imprensa, no afã de encontrar um cavaleiro da esperança, o catapultou à condição de herói. Agora, se assusta com a indignação do ministro. Um texto de articulista da Folha de S.Paulo, à página 2 da edição de hoje, já se adianta a acrescentar um sobrenome ao nome do ministro, comparando-o com Jânio Quadros.
Não desejo me concentrar na figura do ministro, mas no desserviço do açodamento de parte da grande imprensa tupiniquim, que começa a se alastrar para todos meios de comunicação.
Não vejo com bons olhos a transformação de um julgamento à condição de matéria sensacionalista ou grande evento de massas. Publicizar as divergências jurídicas e as decisões constituem um serviço público, mas adjetivar ministros e contradizer suas reflexões como uma gincana de oradores, leva a uma exposição e banalização do papel do juiz que me parece condenável. Fico de cabelo em pé só de pensar nos tribunais populares da Revolução Cultural maoista. A reflexão jurídica da instância máxima do sistema judiciário deveria ser envolto de certo recolhimento acadêmico. As pontes com o mundo real, os valores hegemônicos e a moral que alimenta as instituições estarão sempre presentes em qualquer julgamento. Mas transformar um juiz em herói ou algoz, em redentor da nação, seria o mesmo que criar um reality show de todo processo de pesquisa de campo e redação da análise do pesquisador social, incluindo um 0800 em que a população pudesse votar nas melhores frases escritas pelo acadêmico. Imagino o constrangimento do pesquisador. Caso fosse realmente profissional, rejeitaria as indicações populares mas, ao final, sairia chamuscado pelos índices de popularidade medidos pelo IBOPE.
Não dá para aplicar técnicas mercadológicas à notícia e a processos que exigem discernimento e formação da convicção pessoal a partir do contraditório.
Parte da imprensa, com pouco critério moral e intelectual, desliza para esta banalização que acaba por colher tempestades. Agora, julga seu algoz de ontem um caudilho de hoje.  
Que um programa sensacionalista que explora o mundo cão adote um âncora famoso por seus perdigotos e gritaria não tenha bom senso e transforme tudo em luta entre santos e demônios, é até compreensível. Mas que a maioria da grande imprensa se inspire na oposição venezuelana para enfrentar tudo o que não lhe agrada resvala em estelionato.



Um comentário:

Educação disse...

A análise do "A Outra História do Mensalão" sai, quá?