Matéria do Valor Econômico que revela o que se diz com frequência no meio político (incluindo petistas).
Presidentecom almadeprefeita
Valor Econômico (Raymundo Costa, Mônica Scaramuzzo e Fernando Exman)
Eleita sob uma espéciedepredestinação, adefazer da Presidência um lugar para gerentes rigorosos, Dilma Rousseff viu-se cercadadeexpectativasdeeficiência que seriam abaladas, sobretudodepois do "pibinho"de2012. Seu estilo centralizador e impositivo está incluído nas críticas que são feitas, também na Esplanada dos Ministérios, às suas qualidadescomo gestora - que ela mesma definecomo adeuma "prefeita", sempre atenta adetalhes e cobrando resultados. Entre empresários ouvidos pelo Valor, a capacidadedeadministração da presidenteé reconhecida, apesardecerta inapetência para adelegação. Muitos, no entanto, consideram sua equipe fraca.
Um dos principais integrantes do governo chegou animado à segunda reunião do ministériodeDilma Rousseff. Era janeirode2012. O primeiro anodemandato da primeira mulher a ocupar a Presidência da Repúblicadecididamente não fora bom. Em maio, Dilma contraiu uma pneumonia e ficou mais tempo que o esperado em recuperação. A doença a abateu. Dois anos antes apresidentese submetera a um intensivo tratamentodeum câncer linfático. Em junho,demitiu Antonio Palocci, ministro quedeveria ser uma espéciedeeminência parda na Casa Civil, dando início a uma sequênciadeoutras seisdemissões no ministério, no que ficou conhecidocomo "faxina ética". Para piorar as coisas, em 2011 o país teve um crescimento pífio,de2,7% do PIB.
O auxiliardeDilma matutava sobre essas coisas quando apresidentecomeçou a falar. Aquela era a horadedeslanchar - pensou ele, ainda animado. As principais gavetas da República estavam abarrotadasdeprojetos para a áreade infraestrutura,como as concessõesdeaeroportos, rodovias, portos e ferrovias. Mas, à medida que a "presidenta" falava ele foi "afundando na cadeira". Dilma disse que governaria "como umaprefeita" e anunciou a criaçãodeum sistemade monitoramentodetodos os programas do governo federal. Falara a "gerentona" da Casa Civil - a que gostademandar. Faltara o líder, aquele que convence e estabelece as grandes metas,como os "50 anos em 5"deJuscelino Kubitschek.
Em vezdedeslanchar,como esperava o auxiliar e amigodeDilma, 2012 foi o ano do "pibinho" - 0,9%. E apresidentecomeçou a ser questionadacomo "gestora". Até o venerável "Financial Times", em editorialdesta semana, chamou a atenção para o estilo centralizador e "mandão" dapresidente. Na realidade, segundo apurou o Valor, a formatação celular, ao lado do estilo centralizador da presidente, é um dos motivos que travam governo,deixando-o vagaroso e pesado. Dois ministros ouvidos pelo jornal disseram que o governo é dividido em "células", no modelo da guerrilha, por razõesdesegurança. As informações são compartimentadas e muitas vezes uma célula não sabe o que a outra está fazendo.
O estilo "mandão"deDilma era conhecidodesdeque se tornou ministra das Minas e Energia do ex-presidenteLuiz Inácio Lula da Silva. Outros traços marcantes apareceram ou se tornaram mais visíveis quando chegou à Presidência. "Eu sou a presidenta, eu posso", passou a ser frase rotineira em conversascom assessores próximos. Alguns pensavam, mas não diziam: "Pode, mas será que deve?".
Nos últimos dias, o Valor procurou 18 importantes empresários e altos executivos degrandes corporações do país.Dez concordaram em avaliar apresidentecomo gestora, oito sob a condiçãodeanonimato. Administradora eficiente e perfilde liderança são qualidades que a colocariam no radarde"headhunters" para importantes cargosdecomando em grandes corporações. Mas esses requisitos não são suficientes para bancá-lacomo uma grandegestora,como foi alardeado pelo PT. Acompetência dapresidentenão é colocada em dúvida, mas adesua equipe sofreu um verdadeiro bombardeio dos empresários e altos executivos.
"Ela está cercadadepessoas medíocres, que não a questionam. Todo mundo morredemedodela. Ela não tem humildadepara escutar os outros. Não dá para ter 39 ministérios, 39 subordinados. Em uma empresa, esse modelo não funcionaria", disse um alto executivodeum bancodeinvestimento. A imagemde pessoas centralizadoras hoje está muito associada a empresasdedonos, fundadoresdegrandes gruposdeprimeira geração. "Fui muito centralizador, mas esse modelo não funciona mais. Tem quedelegar e ouvir mais", disse um grande empresário do setordeinfraestrutura e energia.
"Assimcomo uma grandeempresa, seria interessante terceirizar funções e estabelecer metas para o alto escalão, cobrar resultados", disse Theo Vander Loo,presidenteda Bayer no Brasil. Para Luiza Helena Trajano,presidenteda Magazine Luiza, apresidenteDilma "possui um perfil técnicodegestão, administrando essa complexa máquina do governo em buscaderesultadoscomo uma empresa". Segundo a empresária, Dilma temdesafioscomo reformas necessárias ao país, organizaçãodealianças, inflação, crise internacional e odeavançar no crescimento continuandocoma distribuiçãoderenda. "O modelo da máquina governamental emperra muitas das tentativasdeadministração mais ágil", disse.
Lula, na visãodeum empresário da agroindústria, não era considerado um bom gestor, mas se cercoudepessoascompetentes. "Ela não é cria política. Foi colocada pelo PT. Écomo se um empresário colocasse o filho na presidência. É como se ela tivesse pulado a fila".
"Uma pessoa que nãodelega,como é o casodela, não faz os processos andarem. Isso não estimula equipes. Em uma empresa, por exemplo, esse modelo não permite o crescimentodepessoas. Já existe uma preocupação política para 2014. Se ela for reeleita no primeiro turno, vai exacerbar esse ladodela [autoritário]", afirmou um alto executivodeuma grandeconstrutora. Sem a obrigaçãodebuscar a reeleição, Dilma "vai tocar o terror", concorda um ministro.
Dilma parece ter ouvido as queixas dos empresários e abriu mais sua agenda. A bem da verdade, diga-se que Lula, quando os dois se encontraram em Paris, no fim do ano passado, sugeriu que apresidenteconversasse maiscomo setor privado. No iníciode2012, ela havia pedido que investissem no país. Dilma convocara o encontro para "ouvir" os empresários. Falou cercade30 minutos, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, outro tanto edepoisdeu três minutos para cada empresário expor seu pontodevista. Em um dos encontros, o único empresário a fugir das obviedades foi Joesley Batista, da JBF: "Estão dizendo que o problema todo é aqui em Brasília, que o governo nãodecidenada".
Em pouco maisdecem diasde2013, Dilma esteve maiscomempresários que nos dois primeiros seis mesesdeseus dois anosde: Foram 36 audiências públicas e participação em eventos, segundo a sua agenda pública. Em seis meses do ano passado foram apenas sete. Dilma abriu mais sua agenda não só a empresários, mas também a políticos e ministros. Isso foi logo associado à ideia da reeleição. Para o Palácio do Planalto, nada mais natural: o governo ficara virtualmente paralisado, entre julho edezembro do ano passado, enquanto discutia as concessõesdeaeroportos, rodovias, energia elétrica, portos e ferrovias. Havia dias em que as reuniõesdemoravam até oito horas seguidas. Mas auxiliaresde Dilma reconhecem que a centralização na Casa Civil não torna "mais ágil" o governo.
Ademora paradecidir a que se referiu Joesley Batista é outro aspecto que ministros e empresários criticam em Dilma. Até hoje, por exemplo, ela não indicou um ministro para a vagadeCarlos Ayres Britto no STF. Ele se aposentou em novembro do ano passado. Ela já haviademorado quase três meses para indicar a ministra Rosa Weber. Não se podedizer que ademora é regra para a escolhade ministros do Supremo: em apenas 18 dias ela indicou o ministro Teori Zavascki para a vaga abertacoma aposentadoria, no fimdeagosto - em pleno julgamento do mensalão - do ministro Cezar Peluso. A mesma coisa ocorre em relação às agências reguladoras - Dilma levou quase um ano para nomear o substituto do atual governadordeBrasília, Agnelo Queiroz, para a Agência Nacionalde Vigilância Sanitária (Anvisa).
Dilma reafirmou sua autoridadepresidencial logo no primeiro anodegoverno. Herdara 15 ministros do antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. No governo anterior, eram todos colegas. Agora, precisava dar umademonstraçãodeque os tempos do governo Lula haviam passado, ela era apresidentee os ministros, seus subordinados. Hoje, a escolha parece óbvia: Nelson Jobim, ex-presidentedo Supremo Tribunal Federal, e ministro daDefesa, era o candidato ideal.
Jobim já não era mais o colega que articulavacomGuido Mantega, à época ministro do Planejamento, contra o poderoso ministro da Fazenda Antônio Palocci, mas agiacomo tal. E Dilma precisavadeixar clarodeuma vez por todas o "agora quem manda sou eu". É verdadeque o estilo do ministro - muito parecidocomode Dilma - ajudou bastante apresidente. Em duas entrevistas em sequência, como se estivesse testando a autoridadedeDilma, o ministrodeclarou que votara em José Serra (PSDB) parapresidente, que a ministra Ideli Salvatti era "muito fraquinha" e que a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, sequer conhecia Brasília.
"Você volte a Brasília que eu preciso falarcomvocê", foi o recado curto que ele recebeudeDilma quando se encontrava em Tabatinga (AM), na fronteira do Brasilcoma Colômbia. O vice-presidenteMichel Temer, que o acompanhava, completaria a agenda programada edepoisdeu caronadevolta ao pessoaldeJobim que ficara em Tabatinga. O ministro escreveu a cartadedemissão a bordo do avião da FAB, enquanto voltava para a cidadeque Gleisi mal conhecia.
Ademissão do ministro daDefesa nãodeixoudeser simbólica:demonstrou o gosto dapresidentepelo exercício da autoridade. Outros traçosdeDilma já eram conhecidos,como o centralismo, odetalhismo - quer saber tudo sobre todos os projetos - e a capacidadededeixar interlocutores ruborizados. Umdeles diz que a "presidenta" - Dilma exige ser chamada assim - é bem informada, tem acesso a muita informaçãodegoverno e interesse pessoalde"estar pordentro". Lê muito. Dos jornais aos projetosdegoverno que leva para o Palácio da Alvorada. A receita para o ministro agendado para uma audiência, portanto, é saber do que ela já está informada e falar só o que apresidenteprecisa saber.
Não é incomum Dilma interromper o interlocutorcomfrases do tipo "não quero falar disso" oucomperguntas sobre uma minúcia qualquer do funcionamento do ministério que o ministro evidentementedesconhece. Os empresários estão certos quando dizem que Dilma causa pavor aos auxiliares, inclusive ministros. Na realidade, alguns preferem enviar seus secretários-executivos para os despachos. É certo que Dilma às vezes até gosta, pois trata-sedealguém que ela mesma pôs no posto - oficialmente, para ter uma visão alternativa da pasta; na prática, um atento vigia dos atos do ministro e, às vezes, do próprio ministro. Garibaldi Alves (Previdência Social),deinício se queixavadenão ter o que fazer - tudo era tocado e formulado pelo secretário Carlos Bargas.Como tempo, Garibaldi, ex-presidentedo Congresso, se acostumou e paroudese queixar ao PMDB.
Prova do prestígiodecertos secretários-executivos:comseu relacionamento desgastadocomo secretário Alessandro Teixeira, o ministro doDesenvolvimento, Indústria eComércio, Fernando Pimentel, amigodeguerrilha dapresidente, queixou-sedeque a convivência entre os dois tornara-se insustentável e o melhor seria a saídadeTeixeira. Dilma concordou, mas parece não ter sido clara o suficiente, para Pimentel, quedesejava encontrar antes um outro lugar para o secretário. Apressado, Pimentel assinou a exoneração e enviou o documento para a seção que tratadepessoal no Palácio do Planalto. Avisada, Dilmadesautorizou publicamente o ministro e mandoudevolver o ofício. Alessandro saiu. Mas quando Dilma quis.
O Valor apurou que o ministro José Eduardo Cardozo, por mais deuma vez, levou um projetodeum secretário do Ministério da Justiça para apresentar àpresidente. E sempre voltou ao ministériocoma mesma resposta a seu auxiliar: não falara do projetocomapresidenteporque Dilma nãodera abertura na conversa. Então, havia tratado especificamente do assunto pautado na agenda.
Cardozo, ex-deputado e um dos "três porquinhos" docomitê eleitoraldeDilma (os outros dois eram os também gordinhos José Eduardo Dutra e Antonio Palocci), ainda é um dos ministroscommais acesso a Dilma. Nos quase dois anos que passou na SecretariadeAssuntos Estratégicos (SAE), Moreira Franco estevecomela apenas uma vez - levado pelo vice-presidenteMichel Temer.
Brasília é uma cidadedemuros baixos e os congressistas não são propriamente conhecidos por guardar segredos dos outros. O próprio Cardozo, conta-se no PT, foi surpreendido por anúnciosdemedidasdedefesa do consumidor feitos por Dilma no Dia da Mulher. Ele apenas haviacomentado, numa audiência anterior, que estava trabalhando "em medidas na área dadefesa econômica". Não tinha nada pronto. No PMDB, Edison Lobão (Minas e Energia) costuma reclamar que não consegue nomear ninguém para a pasta que dirige. Em conversascomjornalistas, é só amor: "A presidenta é uma pessoa extremamentecompetente, tem boa memória e não é exatamente centralizadora,como se diz. Apenas quer saber se o argumento do ministro é consistente".
O CódigodeMineração levou nove anos sendo elaborado pelo ministério que, no governo Lula, foicomandado por Dilma Rousseff. Toda semana Lobão responde que "em 15 dias" o projeto será enviado ao Congresso. Isso, já há maisdeano. Aliás, nesta semana, o ministério informou que o código estará no Congresso nos próximos 15 dias. Segundo Lobão "as questõesdeconcessõesdemoram porque têm que serdecididascomsegurança".
O ministro exemplifica: quando foi criado o grupodetrabalho para fazer o marco regulatório do Pré-sal, "pensávamos em resolver tudo em três meses. Levamos três anos". Sempre que os projetos ficam prontos, Dilma diz: "Vamos espancar a lei". Isso significa esmiuçar cada artigo do projeto em buscade erros, contradiçõescoma legislação existente, sua constitucionalidade. "Isso leva tempo", diz Lobão. É o que estaria acontecendo, no momento,como programa para importar 10 mil médicos - 6 mil cubanos - que tanto aflige o ministério da Saúde. A Casa Civil ainda está "espancando a lei": qual tipodevisto será concedido aos médicos estrangeiros?
A boa memória não é um traço a que as pessoas costumam se referir quando falamdeDilma. Mas Lobão tem um caso. Numa recente reunião no Palácio do Planalto, apresidentelembrou e contou emdetalhes um episódio ocorrido durante a discussão do Pré-sal. Lobãodefendia a participaçãode30% da Petrobras em todos os blocos licitados. O entãopresidenteda estatal, Sérgio Gabrielli, queria uma participaçãode5% para a empresa. A certa altura, Lobão interveio, provocando risos: "Poxa, parece que o únicocomunista aqui sou eu". Dilma foi guerrilheira; Gabrielli, é do PT, um partidodetraço intervencionista.
Apresidentetambém sabe recuar, quando isso é importante para atender seus interesses. É o caso da "faxina ética"de2011, quando seis ministros - alémde Jobim - perderam o cargo. Ela reintegrou ao governo até o PR, donatário do Ministério dos Transportes e alvodemuitas suspeitas.
Dilma avalizou a retomada dos aumentos dos juros (taxa Selic)coma mão direita e,coma esquerda, adesoneraçãodeimpostosdeprodutos da cesta básica. "Aparentemente,coma volta do aumento da taxadejuros pelo Copom e a disposição dapresidentedeampliar os incentivos monetários e fiscais ao setor produtivo, poderá haver dois movimentos contraditórios: um do governo, acelerando, e outro, do Banco Central, puxando o freiodemão. Isso pode resultar emderrapagem", alerta Antônio AugustodeQueiroz, doDepartamento IntersindicaldeAssessoria Parlamentar (Diap). Dilma também misturou a renovação dos contratos das concessionáriasdeenergia elétricacoma redução da contadeluz. Foi criticada pelo empresariado e pelos governadoresdeMinas Gerais, São Paulo e Paraná, todos sob ocomando do PSDB do senador Aécio Neves, seu provável adversário na eleição presidencialde2014. Pura política.
Os três Estados não aderiram ao planodeDilmadeantecipar a renovaçãode suas concessionárias no prazo por ela estabelecido. O Congresso, ao votar a medida provisória, quis incluir uma prorrogaçãode30 dias para a adesão dos Estados. Dilma nãodeixou. Além da questão política, havia um quêderevanche na atitude dapresidente. Auxiliares mais próximos já observaram: Dilma guarda o rancor na geladeira. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) já provoudesse veneno.
A CUT não apoiou as mudanças que apresidentefez na cadernetadepoupança. Em retaliação, ela segurou atédezembro um projeto sobre a Participação no Lucro e Resultados (PLR) que interessava à entidade. E encarregou a ministra Gleiside fazer o anúncio. Os sindicalistas estavam acostumados a se reunircomLula e depoisdescer até a saladeimprensa para anunciar a medida acertada. Uma demonstraçãodeprestígio que faturavamcomseus dirigidos.
O movimento sindical está ressentido por Dilma "primeiro ter recebido o Trabuco e sódepois os trabalhadores". Os sindicalistas referem-se ao encontro dapresidentecomopresidentedo Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, em janeiro último. Dilma não foi àscomemorações do PrimeirodeMaiodeste ano. Em algumasdelas apareceram faixascomos dizeres "Volta Lula". Feitos, segundo se diz no meio, por encomenda da Força Sindical.
"O processodegoverno é muito ruim", diz um ministro que tem uma pilhade projetos sendo "espancados" na Casa Civil. Os empresários criticam os ministros e os ministros,comraras exceções, criticam a Casa Civil da ministra Gleisi Hoffmann, habitada, segundo eles, por técnicos jovens, inexperientes e, às vezes, arrogantes. Não é raro umdeles ligar para um ministrodeEstado a fimde tomar satisfações sobre algum projeto. Constrangidos, os ministros respondem. Na épocadeDilma, havia Teresa Campelo e Miriam Belchior. Elas faziam esse papel. As duas viraram ministras. Uma doDesenvolvimento Social e a outra, do Planejamento.
O estilo Dilma faz escola no governo. Em uma reunião recente entre técnicos dos ministérios do Planejamento e da Integração Nacional, discutia-se a liberaçãode verbas para municípios e a secretária-executiva do Planejamento, Eva Chiavon, mandou fazer a "transferência fundo a fundo",como se diz no governo. O pessoal da Integração Nacional achou por bem advertir que esse era um dos mais conhecidos focosdecorrupção. "Manda para os municípios e os prefeitos que se expliquemdepois aos tribunaisdecontasdeles". Alguém advertiu que já não era bem assim hoje,comodemonstramdecisões do TribunaldeContas da União, mas principalmente agora que o STF acatou a teoria do "domínio do fato" para condenar José Dirceucomo mandante do mensalão. Eva não sedeu por vencida e saiu-secoma frase que encerra muitas discussões: "A presidenta mandou".
Recentemente, o secretário-executivodeum ministério tevedelargar a reunião do conselhodeuma estatal vinculada, sediada no RiodeJaneiro, para uma reunião em Brasília, chamado por um dos "meninos da Casa Civil". Ele ainda tentou refugar, mas não teve outra saída quando o rapaz rebateu: "A presidenta quer".
"A presidenta não se conformacomavaliações genéricas. Ela quer saber dos resultados, dosdetalhes", diz a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. "Ela questiona, pedecorreções, reorienta. Isso é fundamental para o sucessodeum programa edeum projeto", explica. "Às vezes, até podedemorar um pouco mais. Mas ele é bem estruturado e dá resultado consistente. Não podemos ter projetos superficiais e genéricos para lançar edepois não ter sustentabilidade".
Segundo Gleisi, "essa característica da presidenta é fundamental. Ela sempre quer sabercomo estão os programas, chama os ministros, pergunta os dados, quer as informaçõesdeexecução, melhorias, resultados, intervém". Para a ministra da Casa Civil, isso "é uma coisa muito positiva. Só dá certo porque ela [Dilma] está cobrando". Para os críticos, é puro centralismo que atrasa e trava o desenvolvimento do país, que hoje já não é mais "o queridinho" entre os Brics.
Formada politicamente na extrema esquerda, Dilma traz em sua "almade prefeito" -como já se referiu a si mesma em discursos - muito do que apreendeu nos chamados anosdechumbo. "Ela sai (no governo) do intervencionismode esquerda para o mais puro liberalismo", tenta explicar um alto funcionário próximo a Dilma. Na equipe econômica chama-se as escolhasdeDilmade "estilingadas",decisões que,depoisdetomadas, batem num muro e voltam. Só um ano e meiodepoisdeestar nocomando do governo ela se convenceudeque o Estado brasileiro não está em condiçõesdeinvestir e admitiu fazer as concessões. Ainda assim, tabelou por baixo o lucro das empresas, no caso das rodovias. Voltou atrás, quando percebeu que não daria certo.
Visto do Palácio do Planalto, o panorama não é tão ruim quanto pintam empresários insatisfeitoscomo câmbio, banqueiros sem sabercomo trabalhar com juros baixos e ministros muitas vezes em buscadeafagos. Três exemplos são citadoscomo o iníciodeuma mudançadehumor dos investidores em relação ao Brasil: o sucesso das emissões feitas pelo Banco do Brasil Seguridade, da captação externa da Petrobras e a retomada das licitaçõesdelotes para a exploraçãodepetróleo e gás.
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