sábado, 4 de maio de 2013

Lobão, o pastiche do rock

A leitura da desmontagem que Fredric Jameson fez do pós-modernismo ficou na minha memória. Não me esqueço da comparação didática entre a obra de Van Gogh e de Andy Warhol, recurso que o filósofo utiliza para anotar a experiência meramente estética do artista pós-moderno daquela tensão e intensidade humanista das obras modernas. Muito convincente, me pareceu genial.
Os sapatos de Warhol (na foto ao lado) não possuem história, não sabemos se estão expostos numa loja de shopping ou se foram retirados dos pés de judias antes de serem encaminhadas para uma câmara de gás nazista. Já os sapatos de Van Gogh remetem diretamente à vida do seu proprietário. Jogados num canto, sujos, desmontados, remetem ao cansaço, ao dia de trabalho pesado, à falta de cuidado. São, enfim, carregados de humanidade. A obra de Jameson passeia pela arquitetura e tantas outras expressões artísticas, que reforçam a clara noção do pós-modernismo como discurso estético, desprovido de ética, porque não dialoga com o humano, com a existência humana. O descompromisso seria a tônica.
Pois bem. Ao ler o texto de Davis Sena Filho ("Vida Bandida! Vida Bandida!") sobre os descaminhos de Lobão e do rock brasileiro, pensei em Jameson. Mas também me fez recordar uma cena que me surpreendeu e me divertiu, muitos anos atrás. Tenho a impressão que era início de alguma campanha eleitoral próximo de 1989. Eu era coordenador da elaboração do programa agrário de Lula, portanto, estava atento à tudo o que dizia respeito à esta disputa. Um dia, para relaxar, assisti "Perdidos na Noite", o programa do Faustão na Bandeirantes, mas é possível que tenha sido o início do programa do Faustão, já na Globo, em 1989. De repente, ele chama Lobão e o roqueiro entra no palco tocando o jingle da campanha de Lula. Lembro até hoje da cara de desespero do Faustão.
O artigo de Davis retoma o início do rock tupiniquim, já na fase atual, destacando o papel do Circo Voador, nos anos 1980, com Barão Vermelho, Cazuza, Blitz, Os Ronaldos, Biquini Cavadão, Dr. Silvana e Cia., Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Os Paralamas do Sucesso e o próprio Lobão. Também se recorda da Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude (cita, ainda, Pato Fu e Sepultura, de MG, e Engenheiros do Hawaii, Almôndegas e Nenhum de Nós, do RS). Lobão se apresentava de cartola e faixa presidencial, lembra o autor do artigo, quando cantava "O Eleito".
O fato é que Lobão sempre tentou se destacar do conjunto dos roqueiros daquele período. Era uma obsessão pessoal. Nunca entendi ao certo a briga que ele criou do nada com Os Paralamas do Sucesso. Os argumentos não convenciam. Logo depois vieram as entrevistas cada vez mais polêmicas, as enxurradas de citações pretensamente intelectualizadas. Durante algum tempo a grande imprensa (a Ilustrada à frente) deu ressonância ao que Lobão dizia. Mas foi sempre constrangedor, como numa entrevista que deu ao programa do Jô, visivelmente chapado, deixando o entrevistador para lá de constrangido.
A fala de Lobão parecia enciclopédica. Algo que remete ao discurso pós-moderno, citando e reconstruindo tudo que o mundo já produziu, desencarnando, retirando sua alma, transformando tudo em um grande pastiche. O autor dos textos e falas enciclopédicas amarrava as frases e citações soltas com uma palavra de ordem. Este era o objetivo, quase sempre. Muitas vezes, era puro exibicionismo. Lembro de um jornalista da Folha, que escrevia desta maneira, ao estilo franco atirador de Paulo Francis, que resolveu publicar um texto, pretensamente de sua autoria, sobre tudo e todos e só depois divulgou que o texto era de um norte-americano, dizendo que sua intenção era provocar. Nada relacionado com algum compromisso que não fosse com seu próprio enciclopedismo.
Bom, tudo isto acabou. O pastiche, ao menos o do Lobão, se revela por inteiro como um triste desespero que me faz lembrar a guinada à direita do sempre candidato José Serra. Cito Serra porque nunca compreendi os motivos, além do desespero pessoal de ser vitorioso, de trair suas convicções mais profundas, que marcaram sua identidade como adulto, nas campanhas que pareciam ladeira abaixo. Segurar um eleitorado fácil de cativar, bastando alimentar o rancor?
Por que é tão fácil cativar este pessoal ultraconservador com uma mera palavra de ordem ("ninguém vê que está em curso a implantação de uma ditadura?", pergunta Lobão). Simplório. Não duvido que até os ultraconservadores percebam que é uma casca sem conteúdo, porque imagino que até eles sejam inteligentes (não existe burrice, como bem demonstrou Lev Vygotsky, mas estímulos intelectuais adequados).
O rock de Lobão se revelou um pastiche.
E aí ficou o discurso desesperado de quem grita por alguma atenção.


3 comentários:

Guilherme Scalzilli disse...

Bobão

Meu comentário sobre as besteiras de Lobão é contraditório. Porque acho que elas deveriam ser soberbamente ignoradas. As reações inflamadas, reproduzindo a grosseria intelectual que pretendem combater, apenas repercutem o que não merece a rápida sinapse necessária ao descarte.

Sempre admirei Lobão, um pouco pelas músicas, mas principalmente por sua militância contra o sistema de gravadoras e jabás radiofônicos. E também pela denúncia contra a hipocrisia nefasta da repressão aos usuários de drogas, da qual foi uma vítima célebre. Que o músico personifique a união dessa bandeira progressista com o repertório do antipetismo hidrófobo é evidência de certa esquizofrenia programática amiúde abordada neste espaço.

Óbvio que ele tem sensibilidade e erudição suficientes para saber que suas bravatas são rasteiras, que não suportariam minutos de um debate sério. Mesmo a relevante questão dos incentivos fiscais a artistas consagrados se perde no discurso tosco e simplificador. Talvez Lobão esteja buscando reconstruir a própria figura pública, vestindo um figurino de polemista indignado “antitudo” que satisfaça melhor suas necessidades intelectuais e financeiras. Até que ponto essa é uma postura honesta, ou coerente com sua trajetória profissional, cabe a ele mesmo e a seus fãs descobrirem.

Resta-nos lamentar que se transforme em outro inocente útil desse folclore ultra-reacionário que vem ganhando adeptos nas redes sociais e na mídia corporativa. Mergulhando na estupidez recalcada por um patológico ressentimento de classe, Lobão perde o último tufo de relevância que ainda guardava. Decadence sans elegance, como diria o roqueiro de antanho.

http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com.br

Bira disse...

Excelente comparação entre Vincent e Andy. Adorei o pau no Lobinho, também. Rudá, continuo seu fã!
Abraços

Unknown disse...

Rudá, tentei achar o video disso (Lobão pedindo voto pro Lula), estava no youtube há um tempo... agora, pesquisando, vi que "desapareceram" com o video. É preciso (re)criar um mito, né verdade. Mas achei o áudio, se te interessar:

http://xenpaw.com/detail/ZCxcXbOB/lob-o-no-faust-o-pedindo-voto-pra-lula-1989.html

Abraços,
Juliano.