domingo, 26 de junho de 2011

Paulo Renato não errou por omissão


O ex-ministro da Educação faleceu neste início de domingo. Foi economista que auxiliou na construção da metodologia adequada para a compreensão da dinâmica do mercado de trabalho latino-americano. Quando entrei na Fundação SEADE, na primeira equipe técnica de implantação da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED, que confrontaria com a metodologia do IBGE), Paulo Renato era leitura obrigatória. Num livreto publicado pela Editora Brasiliense, explicava que em países com frágil estrutura de mercado de trabalho, o que se considerava inativo era, muitas vezes, desemprego oculto. Explicando: havia intenção de conseguir emprego mas a precariedade da renda do desempregado (que o impedia de gastar com transporte para procurar emprego) e a parca oferta de empregos o jogava na letargia, na espera de melhores tempos. O desemprego, como conceito, ficou mais complexo. Bastava esta contribuição. Mas Paulo Renato ficou mais conhecido pelo engajamento como gestor educacional. Errou, mas não se omitiu. Como reitor da Unicamp fez a sugestão polêmica de que cursos de ponta não poderiam abrir vagas no horário noturno. Uma concepção das mais elitistas num país que sempre sofreu com a dificuldade de acesso à educação. Como ministro, inovou mais que todos outros que o sucederam. O foco foi o ensino fundamental e médio. Introduziu o ENEM. Sua intenção era nacionalizar o vestibular e chegou a divulgar no site do MEC o mecanismo de acesso universitário dos EUA, onde o processo de seleção era nacional, através do SAT. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) colocaram o Brasil na rota do que havia de mais inovador na área pedagógica. Superamos a tradicional concepção anglo-saxônica focada nos resultados finais e não na pluralidade da existência e das inteligências. Paulo Renato importou da Espanha as "cajas rojas" e os temas transversais. Foram muitas inovações importantes que parecem abatidas pela atual política reducionista do MEC de hoje. Errou ao patrocinar a abertura de cursos superiores em profusão. É verdade que este erro rebaixou a qualidade, mas possibilitou o acesso de mulheres e trabalhadores ao ensino universitário em função da abertura de cursos em cidades do interior do país. Chegamos, ao final de sua gestão, com 80% das vagas universitárias sendo concentradas no ensino privado. Também alcançamos a quase universalização do ensino fundamental no Brasil. Errou e acertou, mas não se omitiu. E foi mais latino que os atuais gestores educacionais do país, que copiam sem culpa os erros já cometidos pelos EUA e Inglaterra.

Um comentário:

rgzzz disse...

Sobre o sucateamento das universidades federais em sua gestão não valeria nenhum comentário, não?...