segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bolsonaro, Ricardo Noblat e José Roberto Toledo

Noblat tentou fazer marola com o caso Bolsonaro. Publicou um artigo com título meio factóide: "o fascismo do bem". Não se brinca com coisa séria. Não se pode dar o direito de liberdade para quem faz proselitismo da ditadura, da discriminação, do ódio. Isto não é direito à opinião. No twitter, Noblat foi atacado de todos os lados. Alguns exageraram como ele. Mas pelo que percebi, o jornalista não percebeu que se tratava de efeito bumerangue: sentiu na pele o que significa dar "direito à voz" para quem é intolerante.
Mas o mais interessante é o contraponto que José Roberto de Toledo provocou com seu artigo publicado no Estadão, cujo título foi "dependência e preconceito".
Vou publicar a passagem em que analisa o caso Bolsonaro:
Combater as ideias

Estão tentando transformar Jair Bolsonaro (PP-RJ) em vítima - sob o argumento, falacioso e cínico, de que as críticas a ele pretendem cercear a liberdade de expressão do deputado. É cínico porque Bolsonaro vive em um eterno 1.º de abril, defende até hoje a ditadura militar e, por tabela, a censura que o regime instalou no País. É uma falácia porque nunca Bolsonaro foi tão instigado a falar quanto agora e, infelizmente, nunca foi tão ouvido. O que se discute é se o deputado deve arcar com as consequências do que diz, mesmo escondido atrás da imunidade parlamentar.
Levado ao absurdo, o argumento de que os parlamentares são inimputáveis pelo que falam no exercício do mandato permite que amanhã um deputado ou senador pregue o terrorismo ou o assassinato de adversários sem sofrer nenhum tipo de consequência. Será o preço da democracia? Cassar Bolsonaro é legalmente complicado e politicamente duvidoso. Não apenas ele poderia posar de mártir da liberdade de expressão, como facilmente seria substituído por outros do mesmo calibre. Basta lembrar que há um Bolsonaro deputado estadual e outro vereador. Mais importante é combater as ideias. Rechaçar o racismo, a homofobia e a ditadura. Bancar o avestruz e fazer de conta que nada aconteceu também pode ser trágico. Após transformar em celebridade o pastor da Flórida que ameaçava queimar exemplares do Alcorão, a imprensa norte-americana baniu-o do noticiário. Para não dar visibilidade ao seu radicalismo. Como se o fato só existisse ao ser noticiado pelos meios de comunicação tradicionais. Nada mais superado. Mesmo sem cobertura maciça da mídia, Terry Jones queimou o livro sagrado dos muçulmanos. Não foi preciso mais do que um par de fotos no Facebook e um vídeo no YouTube para que a fogueira religiosa de Jones alcançasse o outro lado do mundo. Fanáticos religiosos vigiam-se uns aos outros. Clamando vingança pela queima do Alcorão, fundamentalistas mataram e degolaram funcionários da Organização das Nações Unidas que trabalhavam no Afeganistão. As vítimas não tinham nada a ver com as taras do pastor Jones nem com as de seus assassinos. Essa tragédia mostra o quanto é perigoso ignorar pregações de ódio. Um discurso racista aqui, uma agressão a homossexuais acolá sinalizam que há tensões sociais se acumulando. Se não forem dissipadas, um dia elas podem explodir e espalhar estilhaços para todos os lados, inclusive onde estão os avestruzes.

4 comentários:

DiAfonso disse...

Caro Rudá, possivelmente não conheça o Terra Brasilis, mas, como editor-geral, apostei em linká-lo. Leio sempre suas publicações e com elas me identifico muitas vezes.

Beleza de postagem!

Parabéns!

Grande abraço!

AF Sturt Silva disse...

O cara tem todo direto de falar.Agora resolveram defender a censura?

Rudá Ricci disse...

Não, senhor. Não tem direito de pregar a discriminação, o ódio e a ditadura. Você, Sturt, está equivocado e sua postura é um perigo, porque é passiva e se baseia num liberalismo que não condiz com a ética. Explico: não se pode deixar um nazista, que deseja o fim da democracia pregar abertamente justamente porque ele está conspurcando contra o sistema que dá liberdade a todos. Seria o mesmo que deixar seu filho atacar idosos ou seu avô em nome da liberdade. Todos autores do contratualismo nos alertaram para o limite necessário para a convivência entre diferentes. Sartre chamou a atenção que não pode haver liberdade total ou abrimos precedentes para a violência. Dizia que antes da liberdade há a ética da liberdade, ou seja, eu preciso me controlar para não atacar a liberdade de todos (não ser egoísta ou autista social). Lacan nos ensinou que a diferença entre criança e adulto é o autocontrole. Se desejar, é a autocensura. E é assim que se vive em sociedade. Portanto, este fascista tem que ser processado. Se ofendeu o direito básico de convivência entre diferentes, será punido. Qual o medo?

AF Sturt Silva disse...

Estava só brincando...

Mas tem mais coisa,mas não vou prolongar isso não.

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