quinta-feira, 31 de março de 2011

Coronelismo sindical


O caso do Sindute Ipatinga revela um fenômeno que pode se constituir em alerta aos trabalhadores. Trata-se do coronelismo sindical. O conceito de coronelismo, desenvolvido por Victor Nunes Leal (em seu memorável livro "Coronelismo, Enxada e Voto"), retrata a tentativa dos oligarcas rurais regionais em fazer valer sua força no interior do Estado com o aumento da importância e projeção do Estado nacional. Utilizando-se do curral eleitoral local, indicavam candidatos - normalmente parentes ou apaniguados - para sua massa de manobra votar. Assim, tinham no parlamento sua representação fiel.
O coronelismo sindical tem esta configuração: diretores sindicais que estão há anos como diretores, transformam-se em proprietários da representação. A ausência da alternância aumenta seu poder ainda mais em função de conseguirem ingressar em representações estaduais e nacionais, às custas do bloqueio de novas lideranças. Forma-se um círculo vicioso em que diretores representam a si mesmos. Este fenômeno já foi estudado no meio rural. Alí, a situação é delicada porque um diretor sindical recebe benesses para toda sua família - como carro do sindicato que transporta seus filhos até a escola - e durante anos não investe em sua propriedade rural. Consequência: não tem como retornar à sua atividade inicial e se torna um dirigente profissional. Sua única solução é se tornar dirigente estadual e alternar sua participação, como tesoureiro ou vice-presidente ou secretário.
Recentemente, percebemos como esta falta de alternância e o surgimento do coronelismo sindical vem afetando muitas centrais sindicais. Felizmente, não é um caso que se possa dizer que é generalizado em nem todos coronéis sindicais caíram nesta desgraça. Mas vejamos um dos casos. O Tribunal de Contas da União (TCU) tem dezenas de investigações sobre desvios de recursos que deveriam ser direcionados para qualificação profissionais. Uma delas, em 2008, atingia a Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM). Filiada à Força Sindical, a CNTM mantém, em São Paulo, centros onde os trabalhadores podem buscar vagas e receber seguro-desemprego. Naquele ano, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, foi acusado de lutar para que o governo passasse dinheiro do FAT diretamente a entidades ligadas a sindicatos. Pouco antes o TCU havia aprovado um acórdão que vetava a prática.
O presidente do Codefat na ocasião, Luiz Fernando Emediato, conseguiu aprovar uma resolução que driblou a restrição imposta pelo TCU. A CNTM firmou um convênio de R$ 46,4 milhões com o Ministério do Trabalho, dos quais R$ 24,4 milhões foram liberados. ÉPOCA teve acesso a um parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) sobre o convênio. O documento chama a atenção para o reajuste e a prorrogação da vigência do convênio. No início, a CNTM deveria receber R$ 18,9 milhões do FAT, mas o valor mais que dobrou em menos de três anos. Segundo a AGU, o reajuste desrespeitou a Lei de Licitações.
Enfim, o coronelismo sindical é a faceta não-pública de um tipo de sindicalismo que se apresenta aguerrido em público porque procura manter sob controle sua base sindical, seu curral político.

Um comentário:

Vânia Lúcia disse...

Rudá,
Fico feliz em saber que alguém do seu gabarito, também percebeu o que o SindUte Ipatinga faz com os seus "companheiros". Há anos, as eleições do Sindicato são manipuladas por este "grupo de coroneis" que se organiza para continuar no poder, além de várias outras ações indignas daqueles que deveriam defender os interesses da classe. A bandeira que erguem é a defesa do interesse dos próprios membros do SindUte Ipatinga. Seus filiados é que se danem. Já fizeram coisas do arco da velha, mas felizmente. como disse Abraham Lincoln "Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo..."
Parabéns!!!