terça-feira, 30 de julho de 2013

Por que ocupamos a Prefeitura de Belo Horizonte?


Recebo o documento que reproduzo abaixo, apresentando os motivos para a ocupação do prédio da Prefeitura de Belo Horizonte no dia de ontem. Trata-se de uma demanda antiga das comunidades Dandara e Eliana Silva, dirigidas pelas Brigadas Populares (que estiveram na liderança das mobilizações de junho na capital mineira) e Movimento de Luta nos Bairros/MLB. O prefeito Marcio Lacerda vem se revelando, desde as mobilizações de junho, o dirigente municipal mais irredutível e lento para tomar iniciativas políticas para atender as demandas populares. Para se ter uma ideia, informou ontem, com a Prefeitura já ocupada pelos manifestantes, que atenderá em audiência as lideranças apenas no dia 8 de agosto!

Por que ocupamos a Prefeitura de Belo Horizonte?

“Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual proteção da lei. Todos têm direito a proteção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.” Artigo 7° da Declaração Universal dos Direitos Humanos

As ocupações Dandara e Eliana Silva reivindicam o direito constitucional de moradia digna.
Exigimos da Prefeitura de BeloHorizonte que RECEBA AS OCUPAÇÕES e NEGOCIE UMA SOLUÇÃO JÁ!
A dignidade não alcança aqueles/as que se dobram as injustiças. Por isso hoje, 29 de julhode 2013, moradores das comunidades Dandara e Eliana Silva, ocupações dirigidas pelas Brigadas Populares e pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas –MLB, decidiram ocupar a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e exigir do Prefeito Márcio Lacerda o que ele se comprometeu: NEGOCIAR COM AS OCUPAÇÕES URBANAS DE BH!
Se somos “todos iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual proteção da lei” como diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, porque as famílias das comunidades Dandara e Eliana Silva não possuem o direito à moradia? Qual é o motivo de discriminar estas comunidades?
A Prefeitura de Belo Horizonte tem o dever legal, moral e político de PROCURAR SOLUÇÕES.
Por diversas vezes solicitamos à Prefeitura de BH que abrisse negociação com as comunidades, ouvisse suas demandas e procurassem resolver os problemas fundiários e sociais das localidades.
NADA FOI FEITO. Em razão dos protestos ocorridos em junho o prefeito declarou que iriareceber representantes das ocupações. Então, realizamos uma solicitação formal, protocolamos um pedido de reunião na Prefeitura de BH no dia 10 de julho. Até então não obtivemos retorno algum.
Diante da falta de compromisso do Prefeito para com sua palavra e a dignidade de milhares de famílias belorizontinas, que não estão tendo seus direitos fundamentais respeitados, decidimos OCUPAR A PREFEITURA DE BELO HORIZONTE e exigir que o Prefeito receba as ocupações e encaminhe uma solução para todas as ocupações da capital.
Solicitamos a todos e todas que contribuam com nossa luta, que divulguem nossa luta e ajudem a pressionar a Prefeitura de Belo Horizonte para que negocie com as ocupações!

EXIGIMOS:

1. NEGOCIAÇÃO JÁ! QUE O PREFEITO MÁRCIO LACERDA SUPERE SEU PRECONCEITO COM OS SEM-TETO E CUMPRA COM SEU PAPEL DE GOVERNANTE;

2. REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA JÁ PARA AS OCUPAÇÕES DE BELO HORIZONTE;

3. ÁGUA, ENERGIA, ESGOTO E ENDEREÇO PARA AS OCUPAÇÕES.

Belo Horizonte, 29 dejunho de 2013.
Brigadas Populares/MG e MLBTelefonespara contato:

Comunicação dentro da Prefeitura:
Luara Colpa (Brigadas Populares): (31) 9181-0478
Natalia (MLB): (31) 9189-7373

Comunicação externa:
Fernando (MLB) (31) 93314477
Brigadas Populares - (31) 32740337

Convite: ciclo de palestras da Rede Sustentabilidade em BH (hoje)


domingo, 28 de julho de 2013

Tudo que é Dilma se desmancha no ar

O título desta nota é enganoso, já alerto de cara. Não se trata apenas de Dilma, mas de todos governantes (e imagino que também os dirigentes partidários). As manifestações de junho parece que abriram a comporta de algo que estava latente há tempos. Já afirmei várias vezes que o boato do fim do bolsa família revelou a fragilidade da base de apoio do governo federal.
Mas os dados do IBOPE da semana passada confirmaram o degelo de índices estranhos de alta popularidade da Presidente da República. Estranhos porque não havia efetivamente nada que ela teria criado para aumentar os índices do ex-Presidente Lula.
Enfim, há algo a ser melhor analisado a respeito dos índices de aprovação e avaliação que indicam que survey não é a melhor metodologia a ser adotada em momentos de alta volatilidade das opiniões. É bem provável que pesquisas qualitativas (grupos focais, por exemplo) tivessem capturado este santo do pau oco.
A questão é: este degelo formará ondas de desmontagem de toda estrutura de representação formal do país? O apoio dos consumidores emergentes, focado na manutenção do consumo, se revelará tão pragmático que dará lugar ao desencanto em 2014?
Tudo parece levar a crer que teremos uma avalanche de votos nulos e brancos. O movimento será irresistível e poderá tragar Marina e toda oposição. Em suma: se o voto de protesto não for endereçado para os candidatos oposicionistas (e for descarregado nos votos brancos ou anulados), a Presidente Dilma poderá se reeleger até com certa facilidade. Mas será mais um espectro que um eleito.
Em Tempo: Estive esses dias fora do ar, em consultorias e viagens intermináveis. Espero retomar meu blog com a frequência de sempre a partir de hoje.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

PSB mineiro se alia ao senador Aecio Neves

Uma ação cirúrgica de Eduardo Campos colocou o PSB de Minas Gerais na rota de Aécio Neves. O lulista Walfrido Mares Guia foi destituído da direção estadual socialista e em seu lugar entraram lideranças declaradamente aecistas, como o novo presidente estadual, Julio Delgado e Maria Elvira (ex-PMDB e que levou uma aliada para a nova direção estadual). O palanque duplo mineiro (Eduardo Campos e Aécio) anunciado neste blog está mais certo que nunca, tendo como patrono o prefeito Marcio Lacerda (que escorreu feio durante as manifestações de junho.  O próximo passo de Campos será a expulsão de Cid e Ciro Gomes.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Análise do artigo de Lula sobre manifestações de junho

O artigo de Lula, publicado nos EUA (em sua coluna no NYT), possui o grande mérito de explicitar a leitura daquele que ainda é o mais popular líder político do país. Todas pesquisas de intenção de votos publicadas no último período conferem vitória de Lula no primeiro turno das eleições de 2014. Sua liderança e carisma são incontestáveis, o que lhe impõe a obrigação de explicitar sua avaliação sobre a conjuntura política.
Destaco do artigo de Lula cinco teses centrais. Vou citá-las e comentá-las brevemente:

Tese 1: As manifestações de junho não negaram a política
Lula inicia seu artigo qualificando as manifestações de junho como indicação da necessidade de ampliação da democracia e participação cidadã. Rejeita, de cara, a maioria das teses petistas que perceberam nas mobilizações a negação da política. Trata-se de uma análise acertada, mesmo porque as demandas de junho foram muito similares às de Lula, em 1979, bastando consultar suas entrevistas e discursos à época. Em 1979, Lula rejeitava os partidos políticos. 

Tese 2: Jovens  que saíram às ruas não passaram pelos anos de penúria
Lula sugere, entretanto, que as mobilizações envolveram jovens que vivem uma situação socioeconômica melhor que seus pais, fruto das conquistas do país dos últimos anos. Sugere, ainda, que seriam fruto do acesso às universidades e que não têm na sua memória os anos de inflação ou de restrição das liberdades. Querem mais, sustenta.
Contudo, não é fato que os manifestantes fossem beneficiados pelas políticas sociais do lulismo. As pesquisas realizadas no interior das mobilizações indicam renda mensal familiar superior àquela definida por Marcelo Neri como Classe C. Também não há sinais de que as mobilizações tivessem uma clivagem de classe, do início ao fim. Mesmo porque, as pesquisas de intenção de votos e avaliação das manifestações revelaram que os protestos empolgaram a população brasileira, embora a avaliação do governo federal não tenha decaído tanto no nordeste e entre os brasileiros de mais baixa renda e instrução. Contudo, já se sentiam sinais de insegurança das populações beneficiados pelo bolsa-família (para citar uma das políticas lulistas), quando do episódio do boato do fim deste programa. O sentimento que tomou as ruas em junho, portanto, foram além dos protagonistas originais das passeatas. 

Tese 3: demandas pós-materiais
Lula acolhe a tese de alguns analistas que logo no início sugeriram que se tratava de uma onda de demandas pós-materialistas. Este conceito se apoia na percepção que quando as demandas básicas (materiais) são conquistadas, emergem demandas mais complexas como cultura, lazer e participação cidadã. Não há qualquer sinal a respeito dos fundamentos desta tese. Mesmo porque, o bolsa família, que envolve milhões de brasileiros, não gerou melhoria social a ponto de superar uma condição de restrição de consumo básico. O que gerou a ascensão social foi o aumento real do salário mínimo (variável que representa, segundo Marcelo Neri, 70% dentre as causas da ascensão social dos últimos dez anos). O bolsa família é uma política social de proteção, não de promoção. Ela garante a sobrevivência num patamar básico. Este público beneficiado não saiu às ruas. Mas foi impactado pela onda de críticas aos desmandos dos governantes e representantes políticos e qualidade dos serviços públicos. 

Tese 4: necessidade de partidos, mas com maior participação
Lula sustenta que a negação da política e partidos gera soluções de força. Como líder do partido que dirige o país há mais de uma década, não se poderia esperar uma suposição distinta. Mas Lula poderia ter sido um pouco mais ousado. Os partidos políticos se burocratizaram excessivamente durante sua gestão e criaram uma estrutura de poder apoiada no acesso de prefeituras aos convênios federais, devido à concentração orçamentária na União. Daí emerge o poder dos deputados federais, como facilitadores deste acesso, despolitizando o país (como ser oposição se qualquer prefeito depende deste guia para investir?). O resultado é que os deputados se apoiam num feudo territorial que vai além de seu partido, já que atende uma ampla clientela de prefeitos. Ora, esta situação vem aumentando significativamente o gasto de todas eleições, já que é do interesse de deputados federais que se realizem pesquisas periódicas de intenção de votos em sua base territorial, mesmo em municípios minúsculos, que se mantenham assessores/cabos eleitorais/operadores políticos em sua base, que se consulte periodicamente marketeiros e analistas políticos, que se mantenha toda uma estrutura de atendimento aos prefeitos e lideranças locais envolvendo localidades que nunca tiveram tal sofisticação à sua disposição. Como carrear tantos recursos para esta rede de lealdades? Lula não tocou nesta realidade que, ainda que subjetivamente, esteve informando parte da indignação dos brasileiros que apoiaram as manifestações de junho. 

Tese 5: PT precisa se renovar profundamente

Este foi o recado mais contundente do seu artigo. Lula sustenta que o PT "precisa renovar-se profundamente, recuperando seu vinculo cotidiano com os movimentos sociais", "dando respostas novas a problemas novos", "e sem tratar os jovens com paternalismo". Tais afirmações praticamente sustentam que o PT nega atualmente sua origem. O que seria, afinal, o contrário de suas sugestões? Que o partido não se relaciona mais com movimentos sociais, não consegue dar respostas às demandas novas e que perdeu a mão na relação com a juventude. Em outras palavras: envelheceu, vive uma espécie de aterosclerose política. Nesta direção, o maior petista que se tem conhecimento dá aval aos críticos do PT que afirmam que este partido se tornou reflexo do que criticava em seu nascimento. Um diagnóstico ácido e muito contundente. Não se trata de um mero conselho, mas de um parecer que refuta a prática recente de todo um conjunto de dirigentes e militantes (que, aliás, gritam nas redes sociais quase sempre negando o que este artigo de Lula sustenta). 

O artigo, portanto, é uma meia sola. Mas não se trata de um discurso oficial ou protocolar. Procura dar contornos ao que parecia uma rejeição ao PT. De fato, as manifestações de junho não rejeitaram o partido, a despeito da oposição procurar socializar esta versão. Mas não aprofunda os sinais que, tenho certeza, Lula capturou, justamente porque foram na mesma direção dos sinais que ele próprio lançou ao país no final dos anos 1970. A crítica ao seu partido foi o ponto mais agudo de sua análise. Se livrou o PT da primeira investida, não foi condescendente na segunda. Talvez o PT tenha sua segunda chance, embora não pareça que seus dirigentes e militantes tenham percebido a gravidade do momento. Mesmo porque, o autor deste artigo cáustico foi o criado da situação atual. Algo que faltou no artigo de Lula. Mas aí, seria pedir demais.    

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O artigo de Lula sobre as manifestações de junho

“Novas vozes no Brasil”

Artigo original em português do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Luiz Inácio Lula da Silva

A juventude, conectada nas redes sociais e com os dedos ágeis em seus celulares, tem saído às ruas para protestar em diversas regiões do mundo.
Parecia mais fácil explicar as razões de tais protestos quando eles aconteciam em países sem democracia, como o Egito e a Tunísia em 2011, ou onde a crise econômica levou o desemprego juvenil a níveis assustadores, como na Espanha e na Grécia, por exemplo. Mas a chegada dessa onda a países com governos democráticos e populares, como o Brasil, quando temos as menores taxas de desemprego da nossa história e uma inédita expansão dos direitos econômicos e sociais, exige de todos nós, líderes políticos, uma reflexão mais profunda.
Muitos acham que esses movimentos significam a negação da política. Eu acho que é justamente o contrario: eles indicam a necessidade de se ampliar ainda mais a democracia e a participação cidadã. De renovar a política, aproximando-a das pessoas e de suas aspirações cotidianas.
Eu só posso falar com mais propriedade sobre o Brasil. Há uma ávida nova geração em meu país, e eu creio que os movimentos recentes são, em larga medida, resultado das conquistas sociais, econômicas e políticas obtidas nos últimos anos. O Brasil conseguiu na última década mais que dobrar o número de estudantes universitários, muitos deles vindos de famílias pobres. Reduzimos fortemente a pobreza e a desigualdade. São grandes feitos, mas é também absolutamente natural que os jovens, especialmente aqueles que estão obtendo o que seus pais nunca tiveram, desejem mais.
Estes jovens tinham 8, 10,12 anos quando o partido que eu ajudei a criar, o PT, junto com seus aliados, chegou ao poder. Não viveram a repressão da ditadura nos anos 60 e 70. Não viveram a inflação dos anos 80, quando a primeira coisa que fazíamos ao receber um salário era correr para um supermercado e comprar tudo o que fosse possível antes que os preços subissem no dia seguinte. Também tem poucas lembranças dos anos 90, quando a estagnação e o desemprego deprimiam o nosso país. Eles querem mais. E é compreensível que seja assim. Tiveram acesso ao ensino superior, e agora querem empregos qualificados, onde possam aplicar o que aprenderam nas universidades. Passaram a contar com serviços públicos de que antes não dispunham, e agora querem melhorar a sua qualidade. Milhões de brasileiros, inclusive das classes populares, puderam comprar o seu primeiro carro e hoje também viajam de avião. A contrapartida, no entanto, deve ser um transporte público eficiente e digno, que facilite a mobilidade urbana, tornando menos penosa e estressante a vida nas grandes cidades.
Os anseios dos jovens, por outro lado, não são apenas materiais. Também querem maior acesso ao lazer e à cultura. E, sobretudo, reclamam instituições politicas mais transparentes e limpas, sem as distorções do anacrônico sistema partidário e eleitoral brasileiro, que até hoje não se conseguiu reformar. É impossível negar a legitimidade de tais demandas, mesmo que não seja viável atendê-las todas de imediato. É preciso encontrar fontes de financiamento, estabelecer metas e planejar como elas serão gradativamente alcançadas.
A democracia não é um pacto de silêncio. É a sociedade em movimento, discutindo e definindo suas prioridades e desafios, almejando sempre novas conquistas. E a minha fé é que somente na democracia, com muito dialogo e construção coletiva, esses objetivos podem ser alcançados. Só na democracia um índio poderia ser eleito Presidente da Bolívia, e um negro Presidente dos Estados Unidos. Só na democracia um operário e uma mulher poderiam tornar-se Presidentes do Brasil.
A história mostra que, sempre que se negou a política e os partidos, e se buscou uma solução de força, os resultados foram desastrosos: guerras, ditaduras e perseguições de minorias. Todos sabemos que, sem partidos, não pode haver verdadeira democracia. Mas cada vez fica mais evidente que as nossas populações não querem apenas votar de quatro em quatro anos, delegando o seu destino aos governantes. Querem interagir no dia a dia com os governos, tanto locais quanto nacionais, participando da definição das políticas públicas, opinando sobre as principais decisões que lhes dizem respeito.
Em suma: não querem apenas votar, querem ser ouvidas. E isso constitui um tremendo desafio para os partidos e os lideres políticos. Supõe ampliar as formas de escuta e de consulta, e os partidos precisam dialogar permanentemente com a sociedade, nas redes e nas ruas, nos locais de trabalho e de estudo, reforçando a sua interlocução com as organizações dos trabalhadores, as entidades civis, os intelectuais e os dirigentes comunitários, mas também com os setores ditos desorganizados, que nem por isso tem carências e desejos menos respeitáveis.
E não só em períodos eleitorais. Já se disse, e com razão, que a sociedade entrou na era digital e a política permaneceu analógica. Se as instituições democráticas souberem utilizar criativamente as novas tecnologias de comunicação, como instrumentos de dialogo e participação, e não de mera propaganda, poderão oxigenar – e muito – o seu funcionamento, sintonizando-se de modo mais efetivo com a juventude e todos os setores sociais.
No caso do PT, que tanto contribuiu para modernizar e democratizar a política brasileira e que há dez anos governa o meu país, estou convencido de que ele também precisa renovar-se profundamente, recuperando seu vinculo cotidiano com os movimentos sociais. Dando respostas novas a problemas novos. E sem tratar os jovens com paternalismo.
A boa noticia é que os jovens não são conformistas, apáticos, indiferentes à vida pública. Mesmo aqueles que hoje acham que odeiam a política, estão começando a fazer política muito antes do que eu comecei. Na idade deles, não imaginava tornar-me um militante político. E acabamos criando um partido, quando descobrimos que no Congresso Nacional praticamente não havia representantes dos trabalhadores. Inicialmente não pensava em me candidatar a nada. E terminei sendo Presidente da República. Conseguimos, pela política, reconquistar a democracia, consolidar a estabilidade econômica, retomar o crescimento, criar milhões de novos empregos e reduzir a desigualdade no meu país. Mas claro que ainda há muito a ser feito. E que bom que os jovens queiram lutar para que a mudança social continue e num ritmo mais intenso.
Outra boa notícia é que a Presidente Dilma Rousseff soube ouvir a voz das ruas e deu respostas corajosas e inovadoras aos seus anseios. Propôs, antes de mais nada, a convocação de um plebiscito popular para fazer a tão necessária reforma política. E lançou um pacto nacional pela educação, a saúde e o transporte público, no qual o governo federal dará grande apoio financeiro e técnico aos estados e municípios.
Quando falo com a juventude brasileira e de outros países, costumo dizer a cada jovem: mesmo quando você estiver irritado com a situação da sua cidade, do seu estado, do seu país, desanimado de tudo e de todos, não negue a política. Ao contrário, participe! Porque o político que você deseja, se não estiver nos outros, pode estar dentro de você.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Pesquisa CNT, por ela mesma

Depois da divulgação pela revista Época, nada melhor que os dados fornecidos pelo próprio pesquisador:
A Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgou, nesta terça-feira (16), os resultados da 114ª pesquisa em parceria com o instituto MDA. Segundo a pesquisa, se as eleições presidenciais de 2014 fossem hoje, a presidente Dilma Rousseff teria 33,4% dos votos, contra 20,7% de Marina Silva (Rede Sustentabilidade); 15,2% do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e 7,4% do governador Eduardo Campos (PSB-PE). A queda de Dilma em relação à pesquisa anterior é de 19,4 pontos percentuais e a disputa iria para o segundo turno. Na pesquisa anterior, de junho, a presidente venceria ainda no primeiro turno. No levantamento anterior, Dilma tinha 52,8% das intenções de voto, contra 17% de Aécio, que também caiu; 12,5% de Marina  e 3,7% de Eduardo Campos. 

Pesquisa CNT/MDA revela índice de aprovação do governo Dilma

Pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte (114a rodada de pesquisa) indicaria que a Presidente mantém avaliação positiva, ao contrário de vereadores, deputados e senadores. A revista Época divulgou os principais dados da pesquisa, que reproduzo abaixo:

75% dos entrevistados apoiam as manifestações no País e que 6% foram aos protestos realizados nas últimas duas semanas. No entanto, segundo o levantamento, feito entre quarta-feira (19) e quinta-feira (20), 71% dos entrevistados e 69% entre os que são favoráveis às manifestações estão satisfeitos ou muito satisfeitos com as condições de vida.
O transporte público é o principal motivo dos protestos, com 77% de menções, seguido pelos políticos, com 47% e a corrupção, com 32% de citações. No entanto, a saúde, com 78% de citações, segue com o maior problema do País, de acordo com a pesquisa CNT/Ibope. Segundo a "Época", foram ouvidas 1.008 pessoas em 79 municípios de todos os estados brasileiros.
O levantamento sugeriu que os entrevistados dessem notas em escalas de 0 e 6, de 7 a 8 e de 9 a 10 para a presidente Dilma Rousseff e para diversos cargos públicos no País, sem nominá-los. Dilma teve o melhor desempenho e recebeu notas de 0 a 6 de 54% dos entrevistados e de 7 a 10 dos 46% restantes, de acordo com a revista. Os vereadores, deputados e senadores foram os que obtiveram as piores notas, com entre 77% e 78% de 0 a 6

segunda-feira, 15 de julho de 2013

PT perde apoio na periferia paulistana

A matéria abaixo, publicada no Estadão, indica, mais uma vez, que política é para profissionais, não para postes. O clima político para Haddad, na zona leste paulistana, já estava ruim por conta da indicação dos subprefeitos, jogando para o alto acordo que havia feito pessoalmente com as principais lideranças populares da região, a mais organizada da capital paulistana.
Com as manifestações de junho, abriu a porteira. E não se trata, nem de longe, de qualquer antro de direita. É onde nasceram as principais articulações populares e movimentos sociais da cidade, na década de 1980.

PT perde apoio na periferia paulistana, seu 'núcleo duro' eleitoral

Partido avalia que, mesmo sem participar das recentes manifestações, população pobre se sente representada pelas demandas das ruas por melhores serviços públicos

A onda de descrédito que se voltou contra todos os partidos e políticos nas manifestações de junho atingiu em cheio um dos mais importantes e tradicionais redutos eleitorais do PT no País: a periferia de São Paulo.
Pesquisas internas realizadas antes e após os protestos de rua, entre o início de maio e o final de junho, sinalizam uma queda abrupta da preferência do eleitorado pelo PT em toda a capital paulista. Variou de 34% para 22%.
O mais preocupante para as lideranças partidárias, porém, é que essa queda não poupou a periferia.
Ali, onde a preferência petista sempre se mantém acima da média, a pesquisa de junho apontou um índice em torno de 23%, com pequenas variações de uma região para outra.
Os números foram apresentados a líderes petistas, na tarde de sábado, 13, durante o encerramento de uma série de reuniões de diretórios regionais da capital, dentro do programa denominado Caravanas 2013.
A plenária do encontro, no Sindicato dos Químicos, contou com a presença do prefeito Fernando Haddad e reuniu cerca de 600 pessoas. Em seguida, um grupo menor, com cerca de cinquenta militantes, reuniu-se com a presidente do diretório municipal, vereadora Juliana Cardoso, para ouvir um diagnóstico mais refinado sobre o impacto dos protestos no PT.
A exposição inicial ficou a cargo da pesquisadora Marisol Recamán, que trabalha na área de pesquisas de opinião pública e presta serviços ao PT. Em primeiro lugar ela mostrou, com infográficos, como os candidatos petistas a cargos majoritários são sempre mais votados nas periferias. Esse fenômeno já é conhecido e tem impacto não só nas eleições municipais. Influi até nas campanhas para a Presidência da República.
Dependência. Uma das explicações para a preferência, segundo a pesquisadora, é que os eleitores de periferia dependem mais da presença do Estado. "A periferia, que tem um peso de 65% no total dos votos, é o setor da capital que mais precisa de serviços públicos, como transporte, saúde e educação", disse.
Na avaliação desse eleitorado, continuou, o PT é o partido com melhores condições de atender a essas demandas: "O eleitor de periferia votou no Haddad na esperança de que a vida dele vai melhorar".
Nesse cenário, a queda abrupta na preferência do eleitorado registrada nas pesquisas é preocupante; e pode ficar ainda mais preocupante se forem analisados outros dois resultados das entrevistas. O primeiro sinaliza o aumento da rejeição do partido: variou de 14% para 23%. O segundo mostra o apoio total das grandes massas de periferia aos protestos. O índice de apoio chegou a 92%.
Para a pesquisadora, o principal significado do apoio popular às manifestações é o fato de sinalizar sua profunda insatisfação com a qualidade dos serviços públicos: "O morador da periferia não foi à rua, mas estava lá, de coração, apoiando."
Marisol ressalvou que os ventos de junho não atingiram só o PT. Todos os políticos e executivos brasileiros, da pequena prefeitura do interior à Presidência da República, foram afetados. Outra ressalva, mais tranquilizadora para o PT, foi a de que os resultados da pesquisa não são irreversíveis.
Reflexão. "Estamos tentando diagnosticar e refletir sobre tudo o que ocorreu, para direcionar nossas ações e os debates no PT, que já está vivendo um processo eleitoral", disse Juliana Cardoso ao Estado, referindo-se à eleição para a presidência do partido, no final do ano.
Na plenária, ela cobrou do prefeito Haddad mais atenção para os militantes ligados a movimentos populares e de periferia. O vereador José Américo, presidente da Câmara Municipal, disse que não viu as manifestações de junho como resultado de uma crise institucional: "As pessoas foram para as ruas diante de uma profunda crise dos serviços públicos."
O presidente do PT paulista, deputado estadual Edinho Silva, focalizou as eleições de 2014 para o governo do Estado - o próximo grande alvo eleitoral do partido após a conquista da Prefeitura de São Paulo. Em seu discurso, sinalizou que a qualidade dos serviços será levada para o centro do debate, para atingir o governo atual, na mão dos tucanos. "O PSDB vive o seu pior momento no Estado. A segurança pública está desmantelada", disse o presidente estadual.
Resta saber se até lá o principal reduto eleitoral do partido no Estado, a periferia da capital, já terá voltado às pazes com o partido. No momento, avaliam petistas, todas as atenções estão voltadas para o prefeito Haddad.

O que os parlamentares propuseram no lugar do plebiscito?

Surfando na onda da Rede Globo que fez de tudo para desqualificar qualquer consulta popular e, assim, impedir qualquer caminho institucional para as demandas difusas que pipocavam nas ruas se expressassem formalmente, nosso Congresso Nacional simplesmente avança no atraso. Liderados por Cândido Vacarezza, do PT de São Paulo e conhecido das páginas de jornais sobre suas campanhas eleitorais passadas (ver AQUI e AQUI ), a Câmara Federal está se preparando para votar proposta que acaba com recibos de doação eleitoral e permite candidatos com contas de campanha rejeitadas pela justiça possam se candidatar em 2014.
Só faltam jogar brioches para o povo.

Deputados querem afrouxar controles sobre doações de campanhas

MÁRCIO FALCÃO
DE BRASÍLIA

Depois de rejeitar a proposta de reforma política feita pela presidente Dilma Rousseff para responder aos protestos de junho, deputados federais trabalham para aprovar nesta semana mudanças na legislação eleitoral que afrouxam os controles existentes sobre doações de campanha.
Projeto de lei preparado por um grupo de trabalho composto por representantes de vários partidos acaba com os recibos para doações eleitorais e permite que políticos com contas de campanha rejeitadas pela Justiça Eleitoral voltem a se candidatar nas eleições do ano que vem.
Atualmente, os candidatos devem dar recibos às pessoas e às empresas que financiam suas campanhas, e esses comprovantes devem ser submetidos à análise da Justiça.
O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), relator do projeto de lei, afirmou que, sem os recibos, a fiscalização poderá ser feita com registros da movimentação bancária das campanhas, onde os doadores seriam identificados.
Segundo ele, a ideia é tornar a fiscalização mais eficiente. "Com o número de candidatos que temos atualmente, não há controle", disse. "Estamos melhorando isso ao permitir que o controle ocorra de forma eletrônica."
Para a procuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau, a medida é preocupante. "Isso pode dificultar o controle da prestação de contas", disse. "No nosso entendimento, é mais uma dificuldade para cruzar os dados de quem fez a doação e o beneficiário."
No caso dos políticos com contas de campanha rejeitadas pela Justiça Eleitoral, o projeto permite que voltem a se candidatar se tiverem apresentado suas prestações de contas dentro do prazo legal.
No ano passado, o Tribunal Superior Eleitoral chegou a barrar candidatos com contas rejeitadas, mas a questão dividiu o tribunal e a decisão foi revista pelos ministros depois. Pressionados por partidos políticos, eles concluíram que a lei não exige dos candidatos a quitação eleitoral.
No início deste ano, a Procuradoria-Geral da República questionou o entendimento do TSE e pediu que os ministros voltem a examinar o tema. Para o Ministério Público, o registro de candidaturas de políticos com contas rejeitadas fere a Constituição.
"Isso é gravíssimo e representaria o liberou geral", disse Sandra Cureau. Vaccarezza discorda. "O cidadão que teve sua conta rejeitada por dolo é processado por outro artigo da mesma lei e vai ser pego de qualquer jeito", disse.
O projeto também permite que o dinheiro do Fundo Partidário seja usado para pagar multas impostas a partidos políticos que cometerem irregularidades. A legislação atual não prevê o uso do dinheiro com essa finalidade.
O Fundo Partidário é constituído por recursos públicos, do Orçamento Geral da União. Neste ano, ele deverá repassar R$ 294 milhões aos 30 partidos políticos do país.
Vaccarezza disse que só vai manter em seu parecer mudanças que forem apoiadas por todos os partidos. Ele deve concluir hoje seu relatório.
Alguns líderes partidários querem votar o projeto até quarta-feira, quando as duas Casas do Congresso devem entrar em recesso. Se passar na Câmara, o projeto segue para discussão no Senado.

domingo, 14 de julho de 2013

Oposições continuam sem rumo

Interessante como muitos apostam na crise do governo Dilma, mas não se atrevem a citar crescimento das oposições. Aliás, muitos citam o possível crescimento do PSOL, mas ressaltam que se trata de um partido competitivo, sofrendo ainda da sua pouca estruturação, que cresce pelo discurso e empatia com parte do eleitorado mais intelectualizado, como no PT original, mas lhe falta maior musculatura.
Já as oposições mais ao centro, continuam amargando dificuldades internas. Este é o caso explícito do PSDB e PPS. Aécio continua com sérias dificuldades de relacionamento com tucanos paulistas e não consegue empolgar nordestinos. Até o momento, trata-se de uma figura mineira. E só.
É aí que entra o PPS. Tentou a fusão com o PMN, o que criaria um fato novo. A ideia era lançar Serra assim que a fusão fosse formalizada. Mas gorou. Talvez, com dedo de Lula nesta história. O fato é que o PPS ficou sem chão. E Serra ficou com um caminho sem volta. Sendo candidato pelo PPS (terá que decidir até outubro), ficará evidente que seu poder está em queda, mas dividirá parte do PSDB paulista. Se ficar no PSDB, será uma paralelepípedo no sapato de Aécio. Uma espécie de primo que inveja a bicicleta que não ganhou no Natal.
Há, ainda, uma chance real do PSDB perder o governo mineiro, o que seria um desastre para o senador "bossa nova" (como a direção tucana de seu Estado tentou emplacar, mas logo percebeu que somente os de minha idade em diante entenderiam).
A única chance para as oposições seria Marina Silva, já que Eduardo Campos não decola nem mesmo no nordeste. Digamos que vença em 2014: como seria seu governo? Daria espaço para PSDB e apoiadores de sempre (DEM, PPS, parte do PDT)? Ou estaria fadada à crises permanentes?
Marina vem revelando purismo num mundo de raposas experientes. Não foi oportunista durante a rebeldia de junho. Se foi correta do ponto de vista ético, perdeu espaço e visibilidade, mais uma vez. Sua imagem cairia feito uma luva no nosso "Maio de 68". Poderia ter feito algo que não fosse oportunista. Uma carta aberta, por exemplo. Uma reunião com lideranças de vários Estados. Uma declaração pública contundente. Poderia ter convidado líderes de 68, articulado ambientalistas, redes sociais. Nem mesmo armou sua militância e apoiadores. A organização e estrutura de Marina é próxima à do PSOL, talvez menor. Tem luz própria e saiu das hostes petistas. O PSOL também saiu do PT e tem algumas lideranças com luz própria, como Jean Wyllys e Marcelo Freixo. Mas Freixo não passa de uma liderança regional e Wyllys não consegue ir além dos esclarecidos e que defendem ampliação dos direitos civis no Brasil. Convenhamos que não se trata de lideranças de grandes massas nacionais.
Enfim, se o segundo semestre for o que economistas projetam (queda aguda do crescimento econômico, aumento lento do índice de desemprego e subida leve da inflação), e se Dilma não abrir a caixinha de bondades (o que estouraria na economia de 2015), apostaria mais numa terceira via que nas oposições formais de hoje.

sábado, 13 de julho de 2013

As reações do PT esclarecido

O PT reagiu de maneira estranha (em relação à sua origem) às manifestações de junho. Seu presidente nacional (não se trata de um intelectual, é verdade, o que merece desconto) revelou temor e até mesmo rancor quando sugeriu a tal "onda vermelha" que por pouco não se transforma em confronto de rua. Muitos petistas, nas redes sociais (a começar pelo "sempre alerta" José de Abreu) chegaram a desencavar teorias conspiratórias, as mesmas que foram jogadas aos ventos quando da criação do PT. Como fundador do PT, lembro até hoje os militantes do PCdoB afirmarem que éramos financiados por multinacionais, outros tantos, pasmos, sustentarem que a classe trabalhadora já tinha seus partidos e outros argumentos de autoridade.
Ontem, contudo, tive o prazer de ouvir Renato Simões, Secretário Nacional de Movimentos Sociais da direção do PT, analisar o movimento de junho. Uma das vozes lúcidas do partido, Simões fez uma análise segura da reação conservadora (termo utilizado por ele) de petistas. Lembrou que o que se questionava nas ruas eram as bandeiras clássicas do PT. Mas ainda senti certa dificuldade para interpretar a reação à ordem institucional e, com ela, os partidos políticos. 
Também recebi, ontem, um texto elaborado por Marilena Chauí intitulado "As manifestações de junho de 2013 na cidade de São Paulo". A autora ressalta que são observações provisórias e que se atém à capital paulista. Faz muitas observações instigantes e chega a citar Maio de 68, mas derrapa na mesma dificuldade de Simões (pelo que conheço de Renato Simões, o problema não foi conceitual, mas em função dos limites de tempo e do seu papel de dirigente nacional do partido, que exige que agregue os filiados, antes de dissipar mais dúvidas e insegurança): não consegue acolher a crítica ao sistema político vigente, o que inclui o PT dos dias de hoje.
Marilena, em minha opinião, incorre em alguns equívocos de alinhamento do discurso difuso e anti-institucional das ruas com estruturas de pensamento e valor já cristalizados. Cito alguns desses equívocos:
1) À página 5, sugere que a recusa geral do discurso dos manifestantes não identifica suas causas, mas mera negação, como a estrutura autoritária da sociedade brasileira e os casuísmos do regime autoritário ainda mantidos no atual sistema partidário nacional. Minha opinião é que, ainda que estas causas fossem explicitadas, o que desabonaria a crítica ser endereçada a todos partidos, incluindo o PT? O fato é que a reforma política foi engavetada pelo Congresso Nacional e Lula não se esforçou efetivamente para se apoiar nas ruas para implementá-la, a despeito de ter acenado como uma de suas reformas logo no início de seu primeiro mandato. Lembro de um seminário em que Lula disse que até o final de seu mandato esta reforma ocorreria, sendo apartado por Maria da Conceição Tavares que gritou, do fundo do auditório, um sonoro "duvido". Lula não provocou, em nome da coalizão presidencialista, nenhum confronto significativo com a Ordem Política. Para sua surpresa, as ruas colocaram, de maneira torta, o tema;
2) Ainda na mesma página, Chauí sustenta que os manifestantes aderiram ao discurso ideológico dos meios de comunicação que procuram monopolizar a formação de opinião sobre o que é público. Ainda que fosse verdade, o que retomaria as teses leninistas de alienação, ou ainda, as teses estruturalistas althusserianas que determinam a ação e o pensamento social, não me parece que havia tal alinhamento automático às teses da grande imprensa, ainda que elas existam de fato. Eu mesmo, destaquei neste blog que existe uma imprensa militante conservadora em nosso país (não gosto do termo PIG que parece um chiste para algo que merece seriedade). O sentimento era difuso e não se limitou à São Paulo. Algo como "não me sinto representado". A corrupção entrava como um sintoma, mas a causa era o ódio aos representantes que não estão presentes, antes de mais nada, nas ruas, nos locais de moradia, no trabalho. Ora, este não era justamente o projeto do PT como vanguarda da mudança da prática política no Brasil? Não eram estes os princípios que a revista que Marilena Chauí contribuiu por tanto tempo ("Desvios") pregava?
3) À página 6, sugere que o comportamento mágico dos manifestantes de rua tinham paralelo com o toque na tecla para se comunicar nas redes sociais. Chauí sugere que se tratava de um discurso que negava as mediações, os partidos e organizações de uma república democrática. E, alfineta, sustentando que se trata de "posição típica de classe média, que aspira por governos sem mediações institucionais e, portanto, ditatoriais". Aqui, ingressamos em algo realmente complexo. Pesquisas recentes revelam que não se trata de mera ideologia de classe média. É o corpus interpretativo, a visão de mundo das classes menos abastadas. Ao contrário, o que Marilena Chauí indica como valor republicano é ideário da classe média intelectualizada e não valor popular. Assim, este seria mais um problema que os governos petistas não enfrentaram,  justamente porque não assumiram seu papel pedagógico, tipicamente de esquerda, para disputar a hegemonia cultural em nosso país;
4) Mas, à página 7, Chauí retoma sua perspicaz leitura sobre o novo, algo que sempre a notabilizou. Identifica que o discurso corrosivo das ruas de junho abriram uma brecha para repensar o poder, modificando o "sentido corriqueiro das palavras e do discurso conservador por meio da inversão das significações e da irreverência". Aqui me parece a senha para petistas convictos se repensarem. Na página seguinte, a filósofa petista dá mais um passo nesta direção. Sugere que as ruas de junho tinham um lastro histórico em relação à agenda do transporte público que desconheciam: o governo de Luiza Erundina, que propôs a Tarifa Zero, abriu as planilhas de custo e obrigou os empresários do setor a fazerem o mesmo, propondo subsídio da tarifa a partir do IPTU progressivo. A reação das elites econômicas foi imediata: comerciantes fecharam ruas, empresários ameaçaram com lockout, bairros nobres fizeram manifestações contra o totalitarismo comunista. Tudo bem, mas, onde esteve o PT e seus governos este tempo todo, após o governo Erundina? Por qual motivo Chauí não citou a negação de toda cúpula partidária em relação à experiência do primeiro governo petista na maior capital do país? 

Enfim, o PT tem dificuldades para se repensar. Consegue, ao menos parte de sua direção e intelectualidade, diagnosticar o que ocorreu em junho, ainda que de maneira defensiva, como cabe a alguém que comanda politicamente o país. Mas não consegue se ver como elemento central da Ordem Política. O PT é, hoje, o partido da ordem. Determina as mudanças que considera possível. Não consulta ninguém para avaliar a tal "correlação de forças". Como todo partido vanguardista, se coloca como um sábio experiente que tem a noção exata do que é possível avançar sendo todo o resto infantilismo ou erro de cálculo. Este é o problema mais grave que aflige o PT: de partido de massas, se transformou em partidos de quadros. Sem ter consultado, obviamente, sua base. 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Mensalão tucano deve entrar em pauta no começo de 2014

Se o caldo já entornou no que diz respeito ao sistema político tupiniquim, o começo de 2014, ano eleitoral, poderá contar com um novo tsunami. Segundo o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, este é o período que terá início o julgamento do mensalão tucano pelo STF. Trata-se do esquema criado em 1998 pelo então governador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), tendo como operador um velho conhecido daqueles que assistem a TV Justiça: Marcos Valério. Duas ações tramitam no STF.
Se for fato, vai sobrar tiroteio para todo lado e é aí que situação e oposição farão seu abraço de afogados.

Entres Aspas analisa manifestações de ontem

Ver AQUI 

Folha denuncia que UGT pagou para "manifestantes"

Práticas tradicionais dos partidos brasileiros parecem se reproduzir em algumas estruturas sindicais. A simbiose partido-sindicato, um princípio do Século XX, também revela seu esgotamento. Nos anos 1980, um discurso sindical novo (daí a denominação de "novo sindicalismo" ou "sindicalismo autêntico") rechaçava este espelhamento, reforçando a necessidade de práticas sindicais no chão da fábrica que acolhesse pautas e demandas que melhorassem efetivamente a condição de trabalho. Questões como tempo para tomar cafezinho durante a jornada de trabalho e autocontrole dos operários sobre a dinâmica de produção confrontavam com a lógica da correia de transmissão dos anos 1960. Daí, foi um passo para emergir a demanda por comissões de fábrica e outros instrumentos de organização no local de trabalho.
As manifestações de ontem não conseguiram envolver mais de 8 mil pessoas nas principais capitais do país. Em várias, os organizadores estimavam que levariam 30 mil manifestantes.
É este país que as manifestações de junho revelaram, pelo avesso.
O Brasil que emergiu nos anos 1980, se organizou, se institucionalizou. Em meados dos anos 1990, as novas estruturas sindicais se aproximaram das estruturas partidárias. Com a eleição de um ex-sindicalista, ingressaram na estrutura de Estado (não necessariamente de governo). Ontem, as ruas estamparam o resultado desta trajetória que acabou esquecendo o chão da fábrica.

Dar dinheiro foi 'humanitário', diz recrutador de manifestantes


Numa rua atrás do Masp, um grupo de 80 pessoas com camisetas da UGT (União Geral dos Trabalhadores) espera em fila a vez de preencher um papel. Trata-se do recibo de que ganharão R$ 70 por terem participado, vestidos como militantes, do ato de ontem na avenida Paulista.
DE SÃO PAULO
Folha presenciou a entrega do recibo, que se deu por volta das 15h, quando a manifestação acabou.
Mulheres de 30 e 40 anos e rapazes com aparência de pós-adolescentes entregavam uma pulseira numerada que usaram na manifestação a um homem de agasalho, que perguntava o nome da pessoa, preenchia o recibo e o entregava aos presentes.
No documento, consta que o pagamento é uma ajuda de custo para alimentação e transporte. Na parte de cima do papel, há impressa a data e o nome da manifestação: "11 de julho - Dia de Luta".
Em duas ocasiões, pessoas que organizam o grupo abordaram a reportagem e pediram para que deixasse o local.
Na fila, as pessoas confirmaram que não tinham relação com sindicatos filiados à UGT e que foram ao ato apenas para receber os R$ 70. Com medo de represálias, não quiseram dar o nome.
A UGT é presidida por Ricardo Patah, sindicalista filiado ao PSD, partido do ex-prefeito Gilberto Kassab. Ele negou que a central tenha pago manifestantes.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

As manifestações de hoje são "chapa branca"?

A prudência aconselharia esperar até o final do dia. Mas seria desleal com o leitor deste blog. Vou me expor. Tenho a impressão que as manifestações de hoje reproduzem um vício das organizações do século XX: sua interlocução não é dirigida à sociedade, mas ao Estado.
Alguns sinais me chamam a atenção. O primeiro: o principal instrumento na manhã de hoje foi o bloqueio de rodovias. As passeatas começarão a partir de agora, depois das concentrações agendadas para o final da manhã. O cenário pode mudar, mas, fiquemos com os bloqueios de rodovias. Esta tática é muito distinta das manifestações de junho. Em junho, o centro das cidades era o locus das manifestações justamente porque não havia estrutura de carros de som, faixas, cartazes. A força era medida e demonstrada a partir da capacidade de agregar estranhos. O discurso era difuso, mas o sentimento era convidativo. Não havia uma causa ou uma pauta fechada. O Dia de Luta deste dia 11 é diferente. A pauta já estava definida e não era muito distinta da agenda sindical dos últimos vinte ou trinta anos.
Que se deixe claro que se trata de uma manifestação legítima. A questão, portanto, é a morfologia desta manifestação como contraponto das de junho. E só.
O segundo sinal: a manifestação de hoje não empolga os não organizados. Ao contrário, muitos perguntam se o centro ou o comércio estão parados. Não são sujeitos, nem pensam em ver as manifestações. São espectadores ou "clientes" desta mobilização.
Meios, forma e apelo de hoje são quase um painel do século XX que fica plasmado na memória dos que se lembram das manifestações de junho.
Mas, então, por que eu insisto nesta história de chapa branca?
Explico: porque hoje o interlocutor é o Estado. Não a sociedade. Porque estas manifestações não assustam os donos do poder, as elites politicas e os governos. Elas fazem parte da dinâmica política, já conhecida e decifrada no século passado. Já as manifestações de junho, abalaram profundamente as certezas políticas e até teóricas. O século XXI começou, no Brasil, em junho deste ano.
O melhor dos mundos seria se os organizadores de hoje aprendessem com os organizadores de junho. Fariam a travessia para um mundo mais perigoso, mais incerto, com mais riscos. Mas não me dariam chance para apelidar qualquer de suas ações como chapa branca.
Até o final do dia, espero confirmar que este texto foi um erro.

O conservadorismo na base das teorias institucionais

Nos últimos dias explicitei minhas divergências com o institucionalismo. Minha tese é que se trata de uma vertente teórica conservadora, que refuta qualquer sinal de novidade advindo da sociedade (ou do ambiente, como preferem nomear) como risco à sobrevivência das organizações e instituições.
Decidi, ainda que brevemente (como cabe a um blog), explicar melhor esta tese.
Antes, indico um belo ensaio sobre o tema, publicado na Revista Eletrônica de Gestão Organizacionaol (vol. 10, número especial, de dezembro de 2012), intitulado "A Trajetória Conservadora da Teoria Institucional", escrito por Cristina Amélia Carvalho, Marcelo Milano Falcão Vieira e Sueli Maria Goulart Silva.
Minha primeira observação diz respeito ao que Chanlat denomina de "autonomia relativa das instituições políticas ante a sociedade" e o papel central da representação formal no universo político.
Aqui há nítida rejeição à representação como reflexo dos interesses do representado. Tendo como foco central a saúde da instituição, a sociedade civil aparece como variável a ser conquistada, numa inconfessável sugestão de sociedade como pluralidade irracional de interesses e desejos. Não por outro motivo, esta vertente teórica se aproxima da teoria das elites.
Logo após a Segunda Guerra, vários teóricos alemães e anglo-saxões passaram a destacar as organizações como centro das relações e estabilidade social. Nos anos 1970, os estudos de Berger e Luckman (sociedade como processo de exteriorização, objetivação e interiorização) inspiraram uma nova linhagem de estudos que definem a institucionalização como obrigações e circunstâncias que normatizam o pensamento e ações sociais (esta definição está em Meyer e Rowan). Há algo de funcionalista nesta orientação. Vejamos.
As instituições, para estas novas elaborações, responderiam às influências do ambiente, aos valores e crenças (algo próximo do conceito de moral em Durkheim, não? Ou, ainda, a um determinismo ambiental). Avançam na direção do que seriam as representações dos indivíduos sobre ambientes que determinam suas ações. E chegam à necessidade das instituições se legitimarem. Ora, como sustentam os autores do estudo que indiquei no início desta nota, tal elaboração sugere a conformação (e não a transformação) e a reprodução institucional como elemento central do que define como vida social. Não há qualquer possibilidade de compreensão do conflito e da diversidade como centro da criatividade humana (e suas criações que plasmam suas dúvidas, crenças e certezas). Padrões, adequação e redução de risco são as palavras de ordem desta vertente teórica.
Ora, é justamente esta linhagem acadêmica que parece instruir várias análises muito conservadoras que emergiram como discurso racional para explicar as mobilizações de junho. Como algo passageiro, adolescente, que emerge de uma dimensão da vida humana (a sociedade civil) que não se sustenta em racionalidades permanentes. As elites, enfim, teriam que compreender e reinterpretar as ruas. Não há uma única palavra a respeito da pertinência das instituições existentes. Justamente porque se trata de certo pânico em relação ao novo, ao conflito, ao questionamento dos anacronismos de instituições que não respondem mais aos desejos e dinâmica da sociedade. Em Durkheim, ao menos, havia a possibilidade interpretativa do fim das instituições tradicionais que envelhecem ao deixar de ouvir os valores expressos na vida cotidiana. Sem dinamismo e reinvenção, sem diálogo com o homem simples e seus valores, as instituições se rompem. As que tentam se impor pelo passado distanciam-se ainda mais do seu papel de coesão.
A autopreservação, portanto, não é o melhor caminho.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Número de internautas no Brasil ultrapassa 100 milhões


Número de internautas no Brasil ultrapassa 100 milhões, segundo Ibope

Do UOL, em São Paulo

O número de pessoas com acesso à internet no Brasil ultrapassou pela primeira vez a casa dos 100 milhões, segundo estudo divulgado nesta quarta-feira (10) pelo Ibope Media. Os dados referentes ao primeiro trimestre de 2013 indicam que o país tem 102,3 milhões de internautas. 

INTERNET NO BRASIL

102,3 milhões de usuários – 1º tri de 2013
72,7 milhões têm acesso em casa ou no trabalho – abril 2013
53,7 milhões efetivamente navegam em casa ou no trabalho – abril 2013
O crescimento foi de 9% se considerados os 94,2 milhões de usuários registrados no terceiro trimestre de 2012. O comparativo se refere a este período de 2012, pois foi a partir dele que o instituto passou a considerar crianças e adolescentes com idade inferior a 16 anos.
Agora, o levantamento inclui pessoas de 16 anos ou mais com acesso em qualquer ambiente (domicílios, trabalho, escolas, LAN houses e outros), além de crianças e adolescentes (de 2 a 15 anos de idade) com acesso em casa.
Se consideradas as pessoas com acesso em casa ou no trabalho, somente em abril de 2013, o número fica em 72,7 milhões. Durante o mesmo período, o número de usuários ativos (que efetivamente usaram a web) em um desses dois ambientes ficou em 53,7 milhões.

Janette Shigenawa, diretora do Ibope Nielsen Online, define os mais de 100 milhões de internautas como "a massificação do acesso e o processo de democratização da informação, cultura e educação".

Fernando Pimentel teria 35% de intenção de votos para governo de MG

Artigo publicado ontem no Valor Econômico (ver abaixo) revela que a última pesquisa de intenção de votos para o governo mineiro realizada antes das manifestações de junho, davam imensa vantagem ao ministro Fernando Pimentel, do PT, com 35%. Os nomes do PSDB apareciam entre 4% e 5%. Tucanos mineiros e seus aliados vem demonstrando muita preocupação desde o ano passado. Não tanto pela falta de projeção de algum candidato para as eleições de 2014, mas porque não existem nomes consolidados ou que forjem consenso.
As manifestações de junho, contudo, embaralharam todas as cartas. Pimentel não esteve no olho do furacão, mas seu partido, como todos os outros, sim.

PSDB prepara sondagem para disputa mineira

MARCOS DE MOURA E SOUZA

DE BELO HORIZONTE


Após a onda de manifestações no país, o PSDB de Minas Gerais estuda realizar uma pesquisa para identificar com mais clareza o que eleitores esperam dos políticos e quais suas principais demandas. Os resultados tendem a ajustar o discurso dos tucanos que aparecem como pré-candidatos ao governo de Minas nas eleições de 2014.
"A ideia é fazer uma sondagem que capte o pulso das ruas, quais as demandas que emergiram das manifestações, as expectativas das pessoas, o que elas esperam dos políticos", disse o presidente do PSDB de Minas, o deputado federal Marcus Pestana. A pesquisa ainda é objeto de discussões no partido e deve ser feita nas próximas semanas.
Encomendar uma pesquisa sobre intenção de voto neste momento é, nas palavras de Pestana, "jogar dinheiro fora". Primeiro porque, acredita ele, a um ano e três meses do primeiro turno uma sondagem desse tipo teria pouca relevância e, segundo, porque o PSDB sabe que hoje não tem um nome que empolgue os eleitores mineiros.
Antes das manifestações de junho, diz Pestana, uma pesquisa mostrou uma folgada preferência dos mineiros pelo atual ministro do Desenvolvimento e ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT). Ele teria entre 32% a 35% dos votos e os nomes do PSDB entre 4% ou 5%. Para os tucanos, o fato de Pimentel já ter sido prefeito e estar numa pasta de destaque no governo federal o mantém em alta nas menções dos eleitores.
O governo de Minas, ainda não sabe se as manifestações abalaram a imagem de Anastasia junto aos eleitores - a exemplo do que ocorreu com a presidente Dilma Rousseff e com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). É Anastasia quem ajudará a construir o apoio do candidato apoiado pelo PSDB. No entanto, o Senador Aécio Neves, pré-candidato à presidência, é visto pelos tucanos como o verdadeiro puxador de votos para o futuro candidato em Minas. Se ele terá tempo livre para se dedicar à construção de um candidato em sua terra natal ao mesmo tempo que estará correndo o país para se fortalecer como candidato a presidente é algo que divide tucanos e analistas.
Pestana é um dos nomes mencionados como possível candidato ao governo de Minas. O deputado federal pelo PSDB Rodrigo de Castro é outro; o deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa mineira, Dinis Pinheiro (PSDB), também aparece entre os pré-candidatos. O único não tucano é vice-governador de Minas Gerais, Alberto Pinto Coelho (PP).
Em agosto, ele inicia uma série de visitas por Estados onde seu partido tem pré-candidatos a governo para convencer correligionários a aderir à campanha de Aécio. As visitas começam pelo Amazonas. Coelho comanda desde o mês passado um conselho de pré-candidatos do PP.
O PP é partido da base da presidente Dilma, mas nas eleições de 2010 o partido não formalizou sua adesão à aliança que a elegeu. Se optar por não formalizar seu apoio novamente, o partido deixará aos diretórios estaduais a escolha. Se fechar com Aécio, dará quase dois minutos a mais de tempo de TV ao tucano.
No mês passado, dirigentes do PSDB mineiro marcaram posição: assinaram carta defendendo que o partido tenha um nome próprio como candidato. O partido está no comando do Estado desde 2003 e um dos argumentos das alas que querem a cabeça de chapa tucana é que no ano em que Aécio entrará pela primeira vez na disputa pelo Planalto fará todo o sentido ter um candidato do PSDB em Minas.
No PSDB mineiro, a expectativa é que até dezembro o nome do candidato esteja definido.

Belo artigo sobre o Egito

Simon Schama é professor da História da Arte na Universidade de Columbia. Lecionou em Oxford e se transferiu para os EUA em 1980, para lecionar em Harvard. Foi crítico de arte do The New Yorker. Vários de seus livros foram editados, no Brasil, pela Companhia das Letras, como "Cidadãos" (sobre a revolução francesa), "O desconforto da Riqueza", "O Futuro da América", "O Poder da Arte" e "Travessias Difíceis".
No artigo abaixo, publicado no Financial Times, Schama destaca o itinerário das mobilizações no Egito, dividido em dois atos: concretização do impossível e divisão dos vitoriosos.
Um bom ensaio para ser lido em países que saíram às ruas nos últimos meses.

Drama no país se desenrola seguindo roteiro conhecido
SIMON SCHAMADO "FINANCIAL TIMES"
O Cairo está passando pelo terceiro ato da paixão revolucionária, aquele no qual a euforia das ruas se depara com as armas dos militares.
Por enquanto, os dois lados estão trocando um abraço fraternal.
Os soldados, trazendo aos ombros a bandeira tricolor do país, são recebidos como heróis do povo, como aqueles que libertaram a população de opressores disfarçados em libertadores.
É um momento de festa e fogos de artifício. Desta vez tudo será diferente.
Mas nunca é. O primeiro ato é a "Concretização do Impossível": o poder autocrático por muito tempo visto como indestrutível se desintegra de dentro para fora, e a crise é adiantada quando o governo termina paralisado pelo imenso número de almas que tomam as ruas.
O segundo ato desanima um pouco, e vai adiante em forma de "Divisão dos Vitoriosos", com cada parte alegando personificar os objetivos da revolução, ainda que as metas de cada grupo estejam em conflito inconciliável.
Uma facção fica por cima, e promete, com a mão no coração e o olhar voltado à Providência lá em cima, respeitar a liberdade e as opiniões dos oponentes.
Logo em seguida, age para esmagá-los e monopolizar o poder.
Os perdedores se resignam ao papel de oposição leal, até o momento em que percebem que sua sobrevivência mesma está em jogo.
A parte tediosa --redigir constituições, depositar votos, fazer discursos-- vai se desenrolando, mas parece cerveja chocha quando comparada à embriaguez deslumbrante da comunhão com as massas.
O primeiro ato é como o agitar de uma varinha de condão. A liberdade fará com que chovam pães e peixes; ninguém governará a não ser em nome do povo unido; os congestionamentos de trânsito do Cairo serão coisa do passado. Espantosa, revoltante e imperdoavelmente, nada disso se materializa.
Um ano inteiro se passou e a vida de ninguém está melhor. Que escândalo!
É evidente que o mago era um trapaceiro.
Hora de tirá-lo de cena.

Como será a manifestação das centrais sindicais em BH?

O Dia Nacional de Lutas, programado para ocorrer amanhã, dia 11, em todo país, já tem programação definida em Belo Horizonte.
Começará com uma concentração às 10h00, na Praça Sete. Em seguida, uma passeata parte para a Praça da Liberdade. Os organizadores esperam envolver 30 mil pessoas.
Das categorias que já decidiram parar destacam-se professores, bancários e eletricitários. Além de BH, Juiz de Fora, Uberlândia e Varginha engrossarão a mobilização de quinta.
Embora esta manifestação seja organizada pelas centrais sindicais, a Assembleia Popular Horizontal (que comandou as mobilizações de junho em BH) também convocam pelo facebook para a concentração na Praça Sete. O alvo da Assembleia é o governo municipal, que demonstra incapacidade para reorganizar sua agenda a partir das demandas apresentadas.
Já o governador Antonio Anastasia anunciou que tratará a pauta recebida pelos organizadores como prioridade de governo. Ontem, o governador recebeu à tarde delegados eleitos na última Assembleia Popular Horizontal (foto desta nota), que lhe entregaram 36 propostas organizadas em 10 temas. O governador se comprometeu a resolver os problemas apontados em relação aos feirantes do Mineirinho e barraqueiros do Mineirão, elaboração de projeto para avaliar a integração tarifária e o passe livre, criação de projeto de lei para criar conselho estadual do transporte e mudança do nome do viaduto José Alencar para Douglas Henrique, o jovem que faleceu na manifestação de 26 de junho ao cair num vão deste viaduto.
Muitas outras propostas serão debatidas em outras reuniões já programadas, como: desmilitarização da PM, criação de conselho de comunicação deliberativo (para regulamentar a mídia mineira), criação do Parque Nacional da Serra da Gandarela, criação do conselho estadual LGBT.
No próximo sábado, às 16h00, uma nova Assembleia ocorrerá embaixo do viaduto Santa Tereza.

terça-feira, 9 de julho de 2013

O campo institucional se revela por inteiro

Se há algo que me incomoda é a insistência das análises institucionalistas que desconsideram que qualquer instituição precisa ter legitimidade para se manter em pé. O discurso começa com um tom mais grave, que aparenta responsabilidade para, em seguida, adotar um tom de ameaça e sugerir que tudo o que revisar com profundidade pode ser revelar aventura, colocando em risco a.... aí começam a gaguejar.
Aparentemente, voltamos ao rame-rame do jogo entre situação e oposição, tendo o PT e o PSDB novamente como atores centrais. Aparentemente. PMDB, PDT, PTB, PP fazem o coro dos descontentes, mas não avançam um milímetro na construção do país. São transparentes nas suas ambições, num declarado egoísmo que vai muito além de mera estratégia de sobrevivência. Estão no cômodo lugar dos coadjuvantes. O DEM parece que também se acomodou na situação de escada dos tucanos. Nem substitutos aspiram ser.
Tudo pode ser enfeixado com um belo laço negro. A aparência de retorno das elites de sempre não passa de uma foto do passado. Aliás, por conta da crise permanente de legitimidade das instituições políticas, o envelhecimento precoce parece uma marca constante do sistema partidário. Sem presença no trono do poder, partidos mudam de nome, se fundem, se arrastam, sentem-se ameaçados. Alguns pragmáticos dirão: "mas a vocação de um partido é o poder!". Mas esta não é exatamente a definição da existência de partidos modernos. Basta ler os clássicos. Para citar um: Umberto Cerroni afirmava que um partido moderno só amadurece como tal quando relacionar política à cultura, forjando uma visão de mundo. Não exatamente a chegada ao poder, mas a própria construção dos parâmetros e lógica do poder. Acredito que dificilmente um político tupiniquim consiga sequer compreender o que Cerroni sugeriu.
O que parece evidente é a corrosão da parca legitimidade de todo sistema partidário brasileiro. As vozes que pareciam mais lúcidas foram rapidamente abafadas. Pior, fica a impressão de certa excitação da oposição com a queda de popularidade do governo federal. Ora, será que não entendem que fazem parte de toda ruína política do país?
Interessante como instituições em frangalhos não conseguem se conectar com os sinais mais nítidos dos cidadãos que deveriam alimentá-las.
Numa frase: se as oposições não entenderam, vivemos uma situação mais próxima da emergência de um líder carismático, um outsider que pode nos levar à mais uma aventura, que a sua emergência como esteio da estabilidade política. Deveriam se repensar, ao invés de se apresentarem como aves de rapina. Miram no governo e não percebem que o alvo são elas mesmas.
Este seria um bom momento para nós, cientistas políticos, auxiliarmos a repensar toda institucionalidade política. Mas teríamos que trocar o bom-mocismo pela ousadia, o conservadorismo latente das inspirações oriundas de Chicago pela releitura dos clássicos da sociologia, todos europeus, por sinal.

Um registro das manifestações de junho



Muito interessante, principalmente o final, com o saxofonista "perseguindo" o batalhão de choque. O nosso Maio de 68.

Câmara enterra plebiscito para valer em 2014

Governo Federal e PT parecem ingressar no seu inferno astral. A matéria abaixo, publicada no site UOL, informa que o plebiscito proposto pela Presidente Dilma Rousseff foi rejeitado na Câmara de Deputados. Base aliada, inclusive. O título da matéria afirma que PT tentará reagir, mas é sabido que as chances são muito remotas.
O caminho escolhido foi quase um suicídio. Não há como o atual Congresso, Câmara e Senado, aceitar que cidadãos que os rejeitam digam o que querem que mude no sistema político e partidário do país. O instinto de preservação sempre falará mais alto. Ainda mais em período pré-eleitoral, seria colocar a corda no pescoço e atear fogo nos ternos (já que a única a se sair bem nesta história seria a Presidente).
Enfim, no campo institucional, o PT vai amargando fazer a colheita do plantio dos últimos dez anos.
Restam as ruas. Mas elas já falaram em junho deste ano. E não me parece que as manifestações da próxima quinta-feira sejam tão potentes.
O que não se sabe é se as oposições ganharam até aqui algo além dos jogos com o governo federal. Além de explicitarem o que é o governo Dilma e o racha da sua base aliada, ficou o que efetivamente?

Câmara enterra plebiscito para valer em 2014 e PT promete reagir


Atualizado às
 14h30.
MÁRCIO FALCÃO
DE BRASÍLIA
A maioria dos líderes da Câmara dos Deputados decidiu nesta terça-feira (9) descartar a realização de um plebiscito para discutir uma reforma no sistema político brasileiro com efeitos para as eleições de 2014.
A decisão foi tomada por líderes da base aliada e da oposição. O PT ficou isolado na defesa de um plebiscito imediato, como o Planalto sugeriu ao Congresso.
Em resposta, os petistas devem começar a recolher assinaturas para tentar viabilizar um projeto de decreto legislativo propondo a consulta popular, mas os próprios deputados da legenda reconhecem que há dificuldades para avançar com a proposta na Casa.
São necessárias 171 assinaturas para que a proposta comece a tramitar na Câmara, mas, além do prazo apertado, outra dificuldade é a falta de consenso sobre o conteúdo do plebiscito. O PT espera contar com o apoio das bancadas do PC do B e do PDT_ sendo que juntos os três partidos reúnem 138 parlamentares.
O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), disse que a proposta do plebiscito com efeitos para a disputa eleitoral de 2014 ficou inviável.
"Se aparecer uma proposta de plebiscito que recolha assinaturas, essa Casa poderá votar, não vai se furtar a votar, mas mesmo vindo o plebiscito só terá validade para 2016", afirmou.
O líder do PT, José Guimarães (CE), afirmou que a prioridade é trabalhar para um plebiscito neste ano e que pode negociar a validade das medida em outra etapa.
"O PT considera que dá, sim, para realizar o plebiscito em 2013. Nossa missão agora é recolher as assinaturas para conformar a ideia do decreto para a convocação do plebiscito. Esse negócio de tempo hábil quando se quer faz, quando se quer consegue", disse.
O líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), afirmou que a proposta do plebiscito com uma reforma política em 2014 "foi enterrado e já teve até a missa de 7º de sétimo dia". Segundo ele, o PMDB pode até aceitar discutir uma consulta popular em 2014, junto com as eleições para não "ter custos. "Não queremos despesas".
"É uma questão que está superada. A grande maioria [dos líderes] reconhece que não tem como realizar [o plebiscito]", afirmou o líder do DEM, Ronaldo Caiado (GO).
A ideia do plebiscito foi lançada pela presidente Dilma Rousseff há duas semanas como uma das principais medidas em resposta às manifestações nas ruas do país.
Na semana passada, os líderes da base aliada já informavam ao governo que não havia condições de realizar a consulta popular para direcionar uma reforma política com impacto nas próximas eleições.
O vice-presidente Michel Temer e o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) chegaram a descartar a medida na semana passada, mas recuaram depois de pressionados pelo Planalto.
Além de reclamarem de que Dilma atropelou o Congresso ao anunciar a consulta, os aliados apontam que o prazo de 70 dias estabelecido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para organizar e realizar o plebiscito torna a medida inviável.
Para uma reforma ter validade em 2014, o Congresso teria que aprovar as mudanças na legislação antes de 5 de outubro, um ano antes do pleito.
REFERENDO
Independente do plebiscito, a Câmara decidiu criar hoje um grupo de trabalho para discutir uma reforma política. Essa comissão, que será coordenada pelo deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), terá 90 dias para discutir projetos que proponham mudanças no sistema político. Entre as medidas podem entrar o fim do voto secreto no Congresso, das coligações proporcionais e das reeleições, por exemplo.
O petista deve fazer uma consulta aos representantes de grupos da sociedade civil organizada para discutir uma pauta de votação. Os deputados ainda vão decidir se a reforma política aprovada pelo Congresso será submetida a referendo.
O governo rejeita essa ideia porque acha que exclui a sociedade, que teria motivado esse debate, de orientar as alterações no sistema.
O referendo é defendido especialmente pelos partidos de oposição. "A maioria quer que o grupo de trabalho entregue a reforma política e depois a população siga se aprova por meio de referendo", disse o líder do PPS, Rubens Bueno.
O presidente da Câmara não se comprometeu com o referendo. Ele disse apenas que a reforma "poderá" ser submetida a consulta aos eleitores depois de aprovada.