domingo, 12 de janeiro de 2014

O fenômeno do rolezinho, o occupy da periferia

Este ano promete. Promete em desnudar o país para além das imagens plácidas das novelas (não tão plácidas assim, mas sempre tendo como centro nervoso a classe média tradicional ou segmentos mais abastados do Brasil).
Neste momento, surge o fenômeno dos rolezinhos, estas "visitas" de jovens da periferia aos shoppings da periferia (até agora, rolezinho em shopping de classe de consumo A - este novo termo mercadológico - só o MST, como pode ser conferido AQUI ). De São Paulo para o resto do país (ontem, foi a vez do shopping Estação, em BH).
Trata-se de um occupy da periferia. Sem opção de lazer e cultura, os jovens da periferia, mergulhados na cultura funk, marcam pelas redes sociais encontros gigantescos, entre 1.000 e 5.000 pessoas e fazem sua festa, para horror de vendedores e classe média tradicional. Um fenômeno que revela, num só tempo, a quebra de barreira territorial com a inclusão pelo consumo e o abismo social que impera no país. Alguns jovens convocam o rolezinho com palavras de ordem, como "quem faz o fluxo somos nós", numa evidente autoafirmação adolescente.
Como nas manifestações de junho, a PM ataca sem dó, revelando sua vocação para a violência, para identificar no diferente um inimigo da ordem. Esta cultura militar que já está passando a hora de ser extirpada na manutenção da segurança de ações civis.
O fato é que o rolezinho já é o fenômeno social mais interessante do início deste 2014. E pode se somar às manifestações do próximo junho. A PM, enfim, vai dando munição para o confronto do ano. Como toda reação violenta e despolitizada, que pensa que jogar a sujeira para debaixo do tapete disfarça os problemas com a mobília da casa.

Vídeo mostra PMs agredindo jovens em 'rolezinho' dentro do shopping Itaquera


ANA KREPP

DE SÃO PAULO

Um vídeo feito pela Folha na noite deste sábado (11) mostra policiais militares dando cassetadas em jovens durante um encontro de jovens conhecido como "rolezinho" no shopping Itaquera, na zona leste de São Paulo.
As imagens mostram um grupo de pessoas descendo uma das escadas rolantes do centro comercial quando um policial militar da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) atinge as costas de um deles com um cassetete. Na sequência, outro PM também desfere golpes contra o grupo.
Ao descer da escada rolante, um dos jovens ainda é agredido com um soco por um homem não identificado. Os policiais que estavam ao lado dele e presenciaram a agressão não reprimiram o ato.
Uma adolescente de 14 anos disse que foi com três amigas ao shopping para participar do "rolezinho" e disse que elas queriam apenas se divertir. "Tive medo. Já fui em outros rolês, mas desta vez a PM estava batendo até em menina", afirmou. A estudante, porém, afirmou que é a favor da presença policial. "Prefiro que tenha polícia, senão seria incontrolável."
Segundo a Polícia Militar, cerca de mil pessoas participaram do encontro marcado por meio de redes sociais, enquanto o shopping estima que 3.000 jovens estavam no encontro. Uma funcionária de um restaurante do local desmaiou e foi retirada de maca. Não há informações sobre o estado de saúde dela.
Foram presos dois jovens maiores de idade (um sob suspeits de roubo e o outro por furto) e um adolescente foi apreendido sob suspeita de roubo. A PM informou que eles participaram de depredações a lojas do terminal de ônibus Itaquera.
A Polícia Militar informou que a situação era "crítica na estação Itaquera" e que "todo o policiamento está apoiado" para atender a ocorrência. Assim, só terá mais informações "com um pouco mais de tempo." A polícia disse ainda que, durante o confronto no terminal, "diversas lojas foram danificadas."
Em nota, a corporação informou que "no terminal de ônibus, devido ao tumulto, fez-se necessário o emprego de técnicas de controle de distúrbios com uso de munição elastômera (conhecida vulgarmente como "bala de borracha") e de granadas de efeito moral."
Já há um novo encontro marcado para a próxima semana no mesmo local. Ao menos 600 pessoas já foram convidadas para se encontrar no shopping Itaquera no sábado (18), às 16h30.
Bruno Poletti/Folhapress
Policial militar usa cassetete para intimidar jovem durante "rolezinho" no shopping Itaquera, na zona leste de SP
Policial militar usa cassetete para intimidar jovem durante "rolezinho" no shopping Itaquera, na zona leste de SP

18 comentários:

Gustavo Michel disse...

Caro Rudá
Post meramente descritivo, tentando aflorar uma rebeldia interna reprimida sua. Sem nenhuma opinião concreta, o que provavelmente é a mesma situação dos gestores sociais e comerciais envolvidos nesta situação. Ou seja, ninguém sabe o que fazer neta situação, nem eu, nem você, nem ninguém. Portanto ficaremos com o determinismo do deixa ver o q acontece, deixa rolar. Quando algum dos lados exagerar (se já não ocorreu), opinaremos, pois assim é mais fácil, né.

Maria Waleska disse...

Lugar de bandido, ladrão e vagabundo é na cadeia e não andando livremente entre nossos filhos, aos quais criamos e educamos à custa de muito suor. Infelizmente nossas Leis são brandas demais e protegem esses marginais mirins. O direito deles foi violado? Ô judiação... E o nosso direito de ir e vir sem a presença dessa corja??? Aahh... me poupe! Você tem filhos?? Leve-os nos próximos rolezinhos.

Rudá Ricci disse...

Agradeço a postagem de Maria Walewska, que ilustra de maneira brilhante o preconceito de classe que impera em nosso país. Sim, tenho dois filhos (um, com 28 anos, jornalista; e, outra, com 23, farmacêutica). Eu e minha esposa ensinamos valores humanistas que deploram o racismo que envolveu tantos povos, como os negros na África do Sul e no sul dos EUA, para citar os mais emblemáticos.
E, Gustavo, não tenho rebeldia reprimida alguma. Ao contrário: minha rebeldia sempre foi externalizada, na juventude e vida adulta. Não tenho problemas em sublimar, é verdade, mas tenho poucos recalques por este motivo. Se você não sabe o que fazer, lamento. Não deve ter se dedicado a estes temas como eu, profissionalmente, incluindo minhas atividades como professor e consultor internacional. Não faça de sua medida uma regra universal. Acaba caindo do cavalo como agora.

rafael alves de oliveira disse...

excelente post e excelente resposta a ambos!

se puder, dá uma passada no meu blog! também escrevi um texto sobre o mesmo assunto aqui tratado!
grande abraço!

http://essaporradevida.wordpress.com/2014/01/13/role-revolucionario/

Unknown disse...

Ótimo artigo, Rudá! Essa polícia truculenta de SP ainda ostenta e celebra em seu brasão de armas a participação ativa que teve no golpe militar. Entre no site da PM/SP, e veja na parte sobre a explicação do Brasão de Armas e suas estrelas. A última 'gloriosa' estrela se deve à participação na 'Revolução de Março de 1964'.

Gabriel Guimarães disse...

É difícil ter uma opinião formada a respeito dos "rolezinhos". Existe preconceito de uma parte e existe vandalização de outra parte. Não tem como ignorar nenhuma das duas.

Não é um evento em que os jovens vão para "festejar", tem sempre um quebra-quebra, confusão e furto. Os comerciantes, por outro lado, não sabem como lidar com a situação e acabam agindo com segregacionismo e preconceito, ao barras as pessoas de entrar nos shoppings.

E a polícia, por fim, tenta "dar um jeito" fazendo o que sabe fazer de melhor: usando truculência a agindo com falta de preparo.

Tá fácil, hein!

Scrum quer ser Linha disse...

Parabéns Rudá os comentários só refletem como esse país veio parar nesse abandono social, colocam-se muros nos condomínios e edifícios, agora profissionalizar essa massa de jovens incentiva-los ao esporte e a cultura com uma educação de qualidade jamais. Vamos contratar mais PMs para descer o cacete neles. Vai resolver tudo segreguem e tudo estará resolvido. Isolem seus cristais e nas escolas de alto de padrão e continue pagando ou sonegando seus impostos para esse governo de merda!

ADRIANO disse...

Rolezinho....Bando de vagabundo que não tem o que fazer...vai estudar, queimar a "mufa" pra passar em um vestibular. Garanto que a maioria desses merdas ~~oa tem nem o ensino fundamental. Quero vê o dia em que esses merdas passarem por voce, caro Rudá, e passar a mão na sua bunda e levar a sua carteira e ainda te encher de porrada. Ai você vai perguntar: "Cade a policia que não faz nada?" É sempre assim....um movimento social...dá licença...vai arrumar o que fazer...

Thiago Nicoletti disse...

Cada vez o povo brasileiro me enoja ainda mais. Daqui a pouco vão começar a proibir também as pessoas de andarem nos transportes públicos, ou andar no mesmo lado da calçada? É muito preconceito, uma polícia despreparada para grandes manifestações, e diga-se de passagem, PACÍFICAS, onde ao contrário do que noticiaram, nenhuma loja foi furtada, ou encontrada armas de fogo com os manifestantes. Esse pensamento retrógrado da classe alta, em que todos os habitantes das favelas e de tom de pele mais escura são bandidos é deplorável, onde cada vez mais vivemos num apartheid brasileiro. Enquanto isso, os políticos, inclusive os que possuem tom pele mais claro, que essa classe alta tanto se vangloria, continuam a desviar milhões e ninguém se importa, preferem ficar indignados com os "favelados" que reivindicam direitos iguais.

Selma Maria Castro disse...

Rudá, hoje no trabalho tive de me esforçar para apenas ouvir o que algumas funcionárias vagais, comissionadas, naturalmente apadrinhadas por políticos (nem se pejam de esconder, aliás) falando o mesmo que a Maria Waleska. Quem é o ladrão de fato? Após o trabalho passei no Extra e havia alguns garotos andando por lá, fuçando nos Ipads que jamais poderão comprar, enquanto eu escolhia uma cadeira giratória. Sorri para eles e um deles se ofereceu para me ajudar a carregar a caixa enorme da cadeira que escolhi até o caixa. Ou seja, se eles se juntam em tropa é porque pessoas racistas, preconceituosas e, em geral, sonegadoras de impostos, surrupiadoras "legalmente" dos direitos alheios, os julgam pela sua régua. Não que não existam aqueles desfavorecidos que são tão larápios quanto essa espécie de gente. Mas é aquilo: o morro não tem vez, mas "se não derem" vez ao morro toda cidade vai dançar. É uma situação complicada, mas que tá sendo ótimo ver os admiradores do camarote morrendo de medo, isso tá.

Unknown disse...

Rudá, e quando o movimento se transforma em problema? Quando a tua loja é roubada? Quando um parente seu é atropelado na correria desses rolezinhos? As vezes penso que açoes poderiam ser diferentes. Fui criada dentro de uma periferia, vi a minha mãe e muitas outras mulheres lutarem juntas para a criaçao do projeto Qualis e posteriormente SUS e as unidades básica em periferias. O que quero dizer que mudanças podem ser iniciadas de dentro p fora, ñ tomar o papel das autoridades, mas ter uma participação mais ativa, ñ um fervilhao de pessoas que desculpa muitas la do meio do relezinho nem sabe o que estão mesmo fazendo lá.

R disse...

excelente texto, Rudá Ricci. e melhor ainda a resposta aos comentários. devidamente compartilhado.
Renato Lima (Pockets Comix)

Limamp disse...

Meu comentário provavelmente será censurado, mas é uma mensagem mais direcionada ao autor do artigo do que para o público.
Transformar delinquentes em jovens sem recursos é o erro que muitos fazem. Não é proibido ir ao shopping, ao cinema, ao teatro. Ninguem está proibindo a entrada de jovens em busca de lazer ou cultura. O que é errado é esse rolezinho feito por uma multidão sem controle dentro de um espaço fechado com gritos e correria e pequenos furtos. Caso ache interessante esse tipo de ação, invista uma boa grana para abrir loja dentro de um shopping e divirta-se com seus clientes correndo assustados.

Limamp disse...

Transformar delinquentes em jovens sem recursos é o erro que muitos fazem. Não é proibido ir ao shopping, ao cinema, ao teatro. Ninguem está proibindo a entrada de jovens em busca de lazer ou cultura. O que é errado é esse rolezinho feito por uma multidão sem controle dentro de um espaço fechado com gritos e correria e pequenos furtos. Caso ache interessante esse tipo de ação, invista uma boa grana para abrir loja dentro de um shopping e divirta-se com seus clientes correndo assustados.

Anima Lesko disse...

Eu acho sensacional o fato dessa molecada conseguir se reunir em milhares para protestar. Ok, o protesto foi feito, a sociedade já viu que essa rapaziada tem voz ativa, mas agora TEM QUE SER a hora de mudar o foco. "Rolezinho" em shopping, parque, praça, etc, não vale de nada a partir de então. Eles devem se reunir e fazer abaixo-assinados pedindo melhoria na periferia, ou marcarem um "rolezinho" nas Subprefeituras, na Câmara dos Vereadores, na Assembléia, etc. Atacar o ambiente da classe média não trará fruto algum, apenas mais borrachada da PM e criticas da sociedade num geral.

Fabrícia disse...

Sou negra, pobre, mãe solteira, moro em periferia. Não defendo classe nenhuma, mas a meu ver, falta bom senso. Existem tantos ambientes abertos onde estes rolezinhos poderiam acontecer, mesmo pq como são adolescentes, menores de idade, deve-se privar pela segurança destes também. Se fosse contra grupos pequenos, ok, certamente seria preconceito, racismo. Mas um galerão num ambiente fechado, até eu tenho medo. E digo mais: passei 4 anos dependendo de ônibus na Guaicurus (BH)e passando a pé em ruas completamente desertas altas horas da noite,sozinha. Vi de perto a violência. Sinceramente, grupo com mais de 5 jovenzinhos independente da aparência, já me assusta. Por outro lado, o Estado ao invés de repreender deveria apontar alternativas. Mais uma vez digo: não defendo classes tampouco qualquer situação de preconceito. Só acredito que falta bom senso a todos os lados envolvidos.
Ao comentário da Maria Waleska: Tenho pena dos seus filhos, por serem criados por uma mente tão segregadora e preconceituosa.

Alexandre disse...

Culpar simplesmente a polícia pelos confrontos é de uma total falta de informação sem precedentes. Fui policial por 5 longos anos, mal remunerado, sem condições de trabalho, sofrendo pressões de todo o tipo (tanto de bandidos, como de políticos safados). Saibam todos, que quando um babaca posta imagens de policial reprimindo invasões e depredações do patrimônio público, é porque veio a ORDEM de dentro dos confortáveis gabinetes dos políticos de Esquerda ou da direita e não do oficial que está comandando a operação e quando isso vai pra mídia, fica na "conta" do Cmt da PM dar explicações com aquele papo do "Politicamente correto", que tudo será apurado e por aí vai. Portanto, resumir essa complexa questão social botando a culpa simplesmente na polícia ou querer desmilitarizá-la (imagine o caos que será o Brasil caso isso ocorra, mais greves ainda, corrupção, insubordinação,...) é algo sem nenhum fundamento!

Renato Coelho Belarmino disse...

As pessoas tem que entender que a polícia militar o que manda é o brasão eles são treinados para isso.
segundo chega de dizer que isso é preconceito pois filhos bem educados NÃO estariam ali nunca e se seus dois filhos estivessem ali meu amigo é porque você não soube educar.
Se você acha a PM despreparada me aponta uma profissão que não existe defeitos, professor?(acha que não pois tenho 16 anos e não tenho professor porque só vivem doentes da cabeça)e se você me dizer qual profissão não existe defeitos te dou razão(ou seja nunca).