sábado, 4 de janeiro de 2014

O artigo de Singer na Folha de hoje sobre o Lulismo

Publico, abaixo, breve comentário de Silvio Pedrosa (blog: O Lado Esquerdo do Possível) sobre o artigo de André Singer na Folha de hoje ("Armadilha Lulista"). O texto faz uma boa e breve provocação que gostaria que se reproduzisse mais nas redes sociais:

O labirinto do lulismo

Labirinto
O cientista político André Singer publicou hoje, na Folha de São Paulo, um artigo, intitulado Armadilha lulista, no qual, comentando a entrevista do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, também concedida à Folha, enuncia o problema central que se coloca, atualmente, para o governo e para o Partido dos Trabalhadores: o impasse diante de uma contradição insolúvel, uma situação na qual a urgência do aprofundamento dos avanços sociais da primeira década do PT na presidência colide com o poder do mercado financeiro, avesso a qualquer alteração do status quo que se desenhe por fora do lulismo, do pacto social de conciliação de classes que emergiu com a eleição em 2002 de Lula à presidência da república.
O diagnóstico, que também é o de outro dos mais acurados analistas de conjuntura contemporâneos – como o historiadorLincoln Secco -, é dos mais corretos, mas ao contrário de Secco, Singer parece vagar perdido dentro do labirinto do próprio conceito, o lulismo, sem ter olhos para ver que não há qualquer dialética capaz de solucionar tal contradição por dentro, capaz de conservar o lulismo e ao mesmo tempo ‘aprimorá-lo’.
Tal cegueira decorre das debilidades da própria análise que Singer produziu do lulismo e que estão colocadas no artigo de hoje ao final do texto. Singer cita a entrevista de Belluzzo para descrever as dificuldades pelas quais passa a presidenta, cujo eleitorado seria ”o pessoal mais desinformado sobre as razões dos problemas, que foi submetido a um processo de obscurecimento durante séculos” e, portanto, seria incapaz de intervir em favor de uma agenda que permitisse a solução do impasse. Tal diagnóstico remete ao esforço mais geral de compreensão do lulismo feito por Singer, para quem a governança petista teria sido capaz de proletarizar o subproletariado, elevando seus níveis de renda e consumo, mas sem ‘politizá-lo’ de forma consequente e de modo a criar, para citar a formulação do artigo de hoje, “uma base social suficiente para sustentar a ruptura necessária.”
Trata-se de uma análise bastante problemática na medida em que insiste num procedimento materialista vulgar, que pretende ser possível dar vida à um corpo sem alma, ou, para falar a linguagem do velho marxismo ortodoxo, de produzir uma classe sem consciência. E não apenas por colocar o problema num enquadramento que não permite extrair dele todas as implicações – o quê talvez explique o seu segundo problema -, mas por ignorar essa classe sem nome já se colocou, de corpo e alma, no campo de batalha, protagonizando os levantes multitudinários de junho e os confrontos que se seguiram.
Assim, a procura de Singer, em pleno 2014, pela “energia capaz de quebrar as 11 varas da camisa que (…) paralisa a nação?” quando ela já explodiu em toda a sua potência em meados de 2013 é o sinal de que o lulismo enquanto horizonte é a sua própria armadilha enquanto prática. Pois aqueles que continuarem a pensar o cenário nos seus termos, após o dramático anúncio do seu esgotamento, serão devorado por essa esfinge cujo enigma já foi respondido material e historicamente. A ausência de qualquer menção aos eventos de junho, por fim, não é fruto de uma miopia temporária, mas resultado de uma cegueira estrutural, pois enxergar a multidão resolveria a armadilha do lulismo, impondo o fim do imobilismo e do compromisso histórico que o caracterizam, resultando na necessidade de abandonar o próprio lulismo não apenas enquanto instrumento conceitual, mas também como engenharia política.
Mas enquanto o analista tateia, às cegas, procurando o impulso capaz de livrar a ‘nação’ da ‘paralisia’, o governo prepara um exército de dez mil homens para combater a multidão. O governo e o capital financeiro, melhor do que Singer, parecem saber onde está a ‘energia’ suficientemente potente para alterar a correlação social de forças e radicalizar a democracia.

3 comentários:

C.E.C. disse...

Colocar a ausência de menção aos protestos de junho como exemplo contrafactual da argumentação do Singer me parece ignorar que, naqueles dias, não foi possível verificar uma proposta que, ao mesmo tempo, fosse representativa dos movimentos e também efetiva, no sentido de defender aspectos que promovessem uma mudança na estrutura da economia nacional.
É evidente que algo de muito significativo estava latente em muitas das causas de junho, e mesmo nos protestos em si, mas me parece igualmente óbvio que, em se tratando de aspectos objetivos, concretos, os movimentos apenas comprovaram que, em geral e infelizmente, a sociedade ainda precisa tomar consciência de "detalhes" que são, em realidade, determinantes das condições socioeconômicas do país, como a questão dos juros ou, vá lá, da atualização dos índices de produtividade da terra. A meu ver, esses dois exemplos, ausentes nas manifestações, evidenciam muito bem o limitado potencial das causas que tiveram maior dimensão naqueles dias, como a genérica luta contra a corrupção ou contra a PEC37.
Com essa perspectiva, consigo entender a ausência de menção aos protestos no texto do Singer, inclusive por acreditar que o movimento de junho teve a dimensão que apresentou, exatamente em razão da generalidade de suas causas, que favorece o consenso. Por isso, os protestos podem até ter o potencial de "radicalizar a democracia", como se referiu Silvio Pedrosa, mas os tais "detalhes" não são um caminho estritamente lógico - e são neles que sempre passam a perna.

Rudá Ricci disse...

CEC,
O problema é que o lulismo ignora qualquer mobilização social. Mesmo as provocadas por sua base política, como sindicatos filiados às centrais sindicais da base governista. Não se trata de verificar proposta das mobilizações, mas suas motivações. O problema é que o lulismo nasce como representação nata das organizações populares com quem dialogou no seu início. Em 1980 os movimentos sociais também eram genéricos. Em 77, o movimento contra a carestia era genérico. Enfim, não se trata de qualificar um ou outro movimento, mas de desqualificar.

Alberto Perini disse...

Lula com certeza riu muito disso. A ida dos movimentos sociais às ruas foi uma clara tentativa de cooptação daquela classe média que ali estava. Qualquer gritaria de meia dúzia agora é considerada como manifestação dos anseios do povo brasileiro.