segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O discurso de Luiz Ruffato na Feira do Livro de Frankfurt

A polêmica foi tão imediata e forte que demorei um pouco para ler o tão blasfêmico discurso.
Agora, leia o discurso (abaixo) e me diga se ele parece com uma arma politicamente mortal. Joga contra o Brasil? Ou teria provocado uma reação como aquelas do regime militar quando algum jornalista tirava fotos do café queimado por uma geada?
A ignorância política é tão perniciosa quanto a ingenuidade.
Os magoados com Ruffato (na foto) deveriam pensar que o melhor é ignorar. "Não dar recibo", ensinou meu pai quando eu ainda era adolescente e pensava que mudar o mundo era movido a intenção e gesto.
A reação foi tão desproporcional que governistas se juntaram à TFP. Sim, a nossa conhecida Tradição, Família e Propriedade se manifestou em Frankfurt contra o discurso do Ruffato.
Enfim, faltou ao Ruffato citar a pobreza de espírito. Ficaria redondo.

Eu acredito no papel transformador da Literatura
​Discurso de abertura da Feira do Livro de Frankfurt 2013
O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.
O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.
Luiz Ruffato
Frankfurt, 08.10.2013

3 comentários:

Luciano Alvarenga disse...

A verdade de Ruffato expõe também a pobreza da literatura brasileira

LucianoAlvarenga


O discurso do escritor Luiz Ruffato na Feira do Livro de Frankfurt merece comentários, como, aliás, muitos estão fazendo, contra e a favor. Quem é contra vê em sua fala críticas aos poderosos de plantão e, ao não enxergar as melhorias dos últimos anos; quem foi favorável vê em seu discurso a denuncia de uma realidade atrasada, arcaica e desigual que não muda.
O discurso de Ruffato é de uma verdade incontestável. E é a verdade do discurso que, inclusive, evidencia o estado secundário da literatura brasileira no plano internacional e o estado de crise da cultura nacional. O discurso do Ruffato não está à altura da Feira de Frankfurt nem à altura do que deveria ser o discurso de um escritor. Ruffato fala verdades, mas não as fala como escritor. Sendo escritor deveria ter dito o que disse em outro diapasão, de outra forma, mas não, seu texto parecia um editorial de jornalão.
Ruffato ter dito o que disse da maneira como fez nos coloca em linha com o que está acontecendo no país em termos de cultura e de literatura. Há tempos que a literatura nacional não alcança o nível do que vem sendo produzindo no mundo. Jonathan Franzen, Javier Marías, Orhan Pamuk, Herta Müller, Philip Roth, Michel Houellebecq, Lionel Shriver, entre outros, não tem pares no Brasil. Chama a atenção a distancia destes autores e aquilo que se produz por aqui. Sim, a inexistência de público letrado e leitor, como Ruffato chama a atenção, explica muita coisa sobre o estado da literatura nacional. Mas o fato de os escritores brasileiros não suportarem o peso da solidão e da criação literária no país da felicidade, de se sentirem impelidos incuravelmente a serem aceitos na agremiação, também os torna muito menores do que poderiam ser e também contribui pra o estado paupérrimo da literatura por estas plagas.
A cultura literária no Brasil ainda não se resolveu do fato de ser ostentação, inclusive entre os próprios escritores, verniz de distinção numa cultura de analfabetos funcionais. O discurso do Ruffato, que será esquecido antes mesmo de ter terminado a feira onde ele foi proferido, revela um país de ressentidos. Escritor ressentido não contribui pra alta literatura.
Ressentimento é aquilo que emerge como resultado da apatia, da incapacidade, da fraqueza em mudar uma dada realidade que nos sentimos afetados. É o discurso do Ruffato. Dizer no fim do discurso que é filho de pessoas pobres sendo ele filho dessa condição é tornar uma realidade, ela mesma material e plasma da literatura, naquilo que impede que a literatura aconteça.
De repente, nos vemos no Brasil entre o pobre que melhora de vida e que, portanto, está redimido de tudo e passa a ser a medida de todas as coisas ou, de outro lado, uma parcela cínica e também desinformada, vendendo meritocracia como justiça quando as condições em que vivem uns e outros, mais uns que outros, são completamente desiguais. A literatura entre nós ou, é literatura de correção, ajuste social, o pobre redimido ou, autismo biográfico de escritores que pouco tem pra dizer. O problema da literatura brasileira não é língua, como disse Ruffato em certo momento do discurso, é o monolinguismo da nação e a incapacidade de produzir literatura que supere a barreira da língua e, isso só é possível com literatura de alta qualidade.
A literatura começou a se tornar proibitiva no Brasil a partir do momento em que ou, era (é) instrumento de mudança social ou, meio em que muitos escritores têm de se afastar da realidade iletrada da maioria e criar seu mundo próprio e autorreferenciado onde só entram os iguais.
A realidade denunciada por Ruffato é verdadeira, mas o é na medida em que evidencia a pobreza da literatura nacional. É a pobreza da literatura nacional que empobrece a realidade de onde ela não consegue extrair literatura.

kivas Arquitetura disse...

Exatamente.
O Discurso chega a ser suave e cândido perto da realidade de assalto a mão armado e policial herói filmados pela camera de motociclista alucinado do utube...!!! é a vida.
Brasil mostra tua cara. Já dizia o poeta da permissividade consentida pela elite protegida!

Serjo disse...

Creio que o escritor quer justificar o próprio fracasso profissional denunciando toda uma nação de fracassados que, de acordo com ele,não merece existir no mundo civilizado que ele acredita existir além-fronteiras. Tenho um conselho para lhe dar: Aprenda outra língua e vá cantar em outra freguesia!