segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O debate brasileiro sobre Black Bloc

Como é comum em toda discussão política em nosso país, a discussão atual sobre a tática Black Bloc está limitada à emoção. De parte a parte, a discussão é rebaixada e até mesmo canhestra.
De um lado, a linha editorial sensacionalista e sempre inspirada na Teoria da Conspiração. Telejornais e alguns jornalões da grande imprensa apresentam reportagens que geram a impressão de vivermos um período insurrecional à beira da guerra civil nacional. Menos, por favor.
Do outro lado, uma discussão das mais superficiais a respeito do heroísmo de quem se doa para salvar os manifestantes da violência policial. Os mais ousados citam a luta contra os símbolos do capitalismo, o que legitimaria quebrar caixas eletrônicos de bancos privados.
Não vou analisar a linha editorial catastrofista porque me parece perda de tempo.
Mas parece interessante como o discurso anarquista (que não é unitário, lembremos) de defesa do BB é contraditório. A ação BB é vanguardista. Algo inferior ao foquismo que já levou tantos militantes de esquerda avaliarem que foi um erro de ansiedade política. O foquismo, ao menos, tentava dialogar, uma ou outra vez, com a sociedade. A tática BB, não. É pura adrenalina e não há um único movimento intelectual ou de diálogo, nem mesmo de convencimento. Uma espécie de happening de final de dia, quase ao estilo da "Roda de Pogo" punk (foto que ilustra esta postagem).
Aí surgem os Cavaleiros do Apocalipse dos partidos hegemônicos brasileiros para despolitizar ainda mais a discussão franca sobre a validade política desta tática. Pior é se o partido se anuncia de esquerda. Pior ainda se se trata de intelectual orgânico do partido afirmando que se trata de namoro com o fascismo. Não dá para acreditar que um intelectual de esquerda desconheça a formulação anarquista da ação direta. Esqueceram Malatesta?
Eita momento rebaixado da política tupiniquim! Parte da esquerda brasileira faz um esforço danado para não promover debate algum. Nisto, se alinham com a tática BB.

3 comentários:

fabio libertario disse...

Caro Rudá, não se pode esquecer de como o fascismo capitalizou o anarquismo e sua tática da ação direta, inspirado principalmente em Sorel, talvez mais do que em Malatesta. Coincidentemente as camisas pretas, identificava os fascio di combatimiento, como identificam agora os BB.

AF Sturt Silva disse...

Mas Rudá, o movimento BB só ganhou força e entrou em cena no Brasil devido a conjuntura que temos. Inclusive no debate político. Dentro dessa conjuntura cito pelo menos dois elementos: a crise que a esquerda vive (a direita já morreu com alternativa democrática a muito tempo) e falta de negociação de nossa geração de políticos com as demandas sociais

Paulo Rocha disse...

Volto aqui para dizer:
A tática do Black Bloc é tão vanguardista quanto a atitude do "do-it-yourself" o é... é simples, não há de se esperar para que a insurreição ou a resistência comece. Mas aí volta ao ponto da valoração que se dá para esse tipo de tática frente a outros modelos de ação. Sejam eles institucionais, partidários ou de mobilização. A ação direta como propaganda pelo ato ou destruição tem uma longa tradição que passa desde o luddismo, passando por Ravachol, até chegar em anarquistas como o Bonnano, os autonomistas alemães, os tutte bianche italianos. Logo dizer que não há reflexão sobre esse tipo de ação é de fato desconhecer toda uma tradição do anarquismo insurrecionário.
Chamar de Happening não me soa de todo mal... de fato me parece bem próximo no campo da performance art, ou até mesmo o que o Victor Turner (e depois Schechner) chamaram de performance como um comportamento reconstituído, RE-apresentando. No final é um desempenho de um papel (e me arrisco a dizer, não muito diferente de outros papeis desenvolvidos em protestos) tendo em vista elementos simbólicos e não estruturais... daí eu concordo totalmente com as críticas. Para onde ir depois disso?
Porém dizer que não é reflexionado, novamente é desconsiderar a própria história da tática na qual o livro Urgência nas Ruas e a entrevista do pesquisador Francis Dupuis-Déri que você mesmo postou. Há inumeros relatos de individuos que adotaram as táticas e escreveram sobre as potencialidades e limitações.