domingo, 12 de fevereiro de 2012

Conceitos de esquerda e direita na atualidade

Um artigo que escrevi em 2007:

Os Conceitos de Esquerda e Direita na Atualidade
Rudá Ricci

Tínhamos, até os anos 1980, uma sumária definição de esquerda, a partir da teorização de Marx e seguidores. Ser de esquerda era lutar pela igualdade social, com a passagem pelo socialismo centralizador, tendo em vista a construção do comunismo - um projeto muito próximo da proposta anarquista.
Em função do etapismo da proposta de Marx (passagem pelo socialismo, a ditadura do proletariado), o desenvolvimento das forças produtivas (os meios de produção, a tecnologia produtiva) era um foco político importante. Com o desenvolvimento das forças produtivas, as contradições inerentes ao
capitalismo ficariam cada vez mais desnudadas, aumentando as tensões entre classes, facilitando o trabalho educativo pelo socialismo. O desenvolvimento das forças produtivas também auxiliaria na construção do socialismo e na sua superação mais acelerada para o comunismo. Lembremos que no Manifesto do Partido Comunista, elaborado por Marx em 1848, uma encomenda da Associação
Internacional do Trabalho (AIT, liderada por socialistas e anarquistas, muitos deles sindicalistas), Marx sugeriu que o comunismo seria um estágio em que ninguém teria necessidade de trabalhar, já que toda a produção seria automatizada. Assim, segundo Marx, para chegar à automatização da produção
seria necessário desenvolver a tecnologia de produção e colocá-la sobre o controle dos homens - e não da classe dominante e empresarial. Do ponto de vista intelectual, Marx deu uma volta gigantesca. Sustentou que era necessário passar pela ditadura para chegar ao anarquismo. Uma contradição
que os anarquistas nunca perdoaram.
Pois bem. Hoje, essa estratégia teórica, mental e política não se aplica com a mesma facilidade. As classes sociais, o Estado, a dinâmica social, a formação de opinião, a disputa globalizada, a descrença no coletivo, o desespero e angústias individuais apontam para uma mudança radical. Neste
artigo, minha proposição é fazer uma breve provocação do que seria, então, ser esquerda nos dias atuais.
Ser de esquerda, hoje, significa aderir à defesa da democracia participativa, do desenvolvimento sustentável, da solidariedade e promoção humana, do controle social e do internacionalismo.
Ser de direita é exatamente o inverso: conivência com a centralização de poder, apartamento entre governantes e dirigentes e entre governados e dirigidos, progresso com lucros imediatos, competição de mercado influenciando as relações humanas, estrutura de gestão de tipo imperial (centralizada no topo da hierarquia funcional), proteção (não promoção) humana e nacionalismo-xenofobia (baseado nas noções de superioridade e inferioridade no interior da espécie humana).

Escopos da Esquerda na Atualidade
A democracia participativa é a crença no coletivo e na espécie humana. Essa defesa da espécie como marca da igualdade formal entre os homens está em Marx, novamente no Manifesto do Partido Comunista e nos Grundrisse (rascunhos da maior obra de Marx, O Capital). Trata-se, portanto, de uma
atualização, e não uma novidade. É o inverso da postura de direita, que aposta na diferença individual. Significa um modo de gerir que é absolutamente público e generoso, fundado na negação da diferença entre raças (porque aposta na igualdade da espécie humana). Está totalmente voltado para a defesa da participação direta do cidadão na gestão pública (e não apenas aquela em que o eleitor elege um representante, o mais competente entre todos), postula que toda humanidade tem inteligência e, portanto, capacidade para governar. As condições sociais e trajetória de vida podem inibir, sim, essa possibilidade de co-gestão. Mas aí, se todos, homens e mulheres, nascem com a mesma inteligência potencial, basta um projeto educacional coerente e objetivo para possibilitar um salto sobre o déficit
de aprendizagem de cada pessoa. Não se trata de condicionar, mas de revelar para cada um seu potencial político. Daí decorre a necessidade de desenvolver uma metodologia adequada e coerente, que desde o início respeite a inteligência potencial, a experiência de cada um, além da promoção da construção de um projeto coletivo de sociedade. Nessa trajetória, a socialização das informações é fundamental.
Sobre a defesa do desenvolvimento sustentável, é bom lembrar que este conceito se articula com o de democracia participativa e com o conceito de condições de reprodução das condições de trabalho. Não se trata de um amor indistinto pela natureza, como sugerem alguns ambientalistas extremados. A
espécie humana continua como referência política. Ocorre que se o homem continuar a degradar a natureza em seu próprio benefício, as condições atuais de vida estarão extintas em poucos anos. Água doce não será mais suficiente para todos em 20 ou 30 anos, segundo estudos recentes. Teremos
que aprender a renová-la ou a conter o uso indiscriminado e pouco inteligente.
O conceito de desenvolvimento sustentável é oposto ao de progresso, de linha reta para um determinado padrão - normalmente, o padrão europeu ou norte-americano é o utilizado para explicar o que é progresso. Parte do princípio que os homens possuem cultura específica, experiências próprias e
que o desenvolvimento precisa respeitar tais peculiaridades. O desenvolvimento, por sua vez, é entendido como integral - pessoal, humano, espiritual, social, econômico, produtivo, tecnológico.
Solidariedade e promoção humana apontam para a necessidade de trabalhar no coletivo e pela espécie. É o contrário do individualismo. A noção de promoção é oposta à de proteção. Na proteção (em políticas públicas), a ação do Estado se limita a garantir a sobrevivência da pessoa. É uma noção liberal, que foi esboçada na virada do século XVII para XVIII. Explicando: os liberais acreditavam que os homens são diferentes e que os mais capazes sempre terão uma vida privilegiada. Nessa perspectiva, o papel do Estado seria apenas o de garantir condições para que todos possam competir entre si (garantir saúde, educação e segurança). O restante estaria por conta de cada um, da competição. É daí que nasce a noção de proteção, ou seja, de apenas garantir a sobrevivência individual, mas não a melhoria de vida. A melhoria de vida seria resultado de uma ação exclusivamente individual.
O conceito de promoção que partilhamos é outro. Significa acreditar que ninguém é capaz de se desenvolver por si só e que as condições do passado sempre limitarão o crescimento individual. Assim, uma pessoa, filho de favelados e que é favelado, sempre terá menos chances do que aquele que
nasceu em berço abastado e que aprende a ler, tem uma biblioteca à sua disposição (além do cargo de direção garantido na empresa dos pais). O papel do Estado seria de promover (promoção) continuamente a possibilidade humana, tanto para os mais pobres como para os mais ricos. Ninguém pode ter seu
potencial limitado. Em outras palavras, o Estado deveria promover, sem limites, o acesso a obras de arte, cursos de pintura, literatura, teatro, tecnologias de ponta, financiamento público para abertura de negócios, educação de ponta, intercâmbio etc. Não há limite ao crescimento da humanidade e o Estado seria um suporte para tal condição.
O controle social é mais que fiscalização. Internacionalmente, significa capacidade de elaborar, gerenciar, monitorar e re-planejar ações e projetos públicos. Apóia-se na noção de construção da autonomia política dos cidadãos. É, portanto, o inverso do assistencialismo, em que os beneficiários dependem eternamente do benefício e daquele que o confere. 
Novamente, caímos na demanda de uma ação educativa, pedagógica. Trata-se de desenvolver saberes técnicos e socializá-los o mais amplamente possível.
Finalmente, o internacionalismo. É um conceito coerente com o respeito à espécie humana. O inverso do nacionalismo. Ser nacionalista é defender a diferença abstrata entre os homens. A nação é sempre uma abstração. Raramente é uma escolha coletiva - ocorreu, por exemplo, na criação do Estado de Israel, nas revoluções de libertação na África ou nos movimentos separatistas contemporâneos, como é o caso da ex-Iugoslávia. Nesses casos, a criação de uma nação, como regra, se deu na disputa entre grupos que
desejavam governar um território. O internacionalismo revela a crença no mundo sem fronteiras. Na troca de experiências. Na oposição ao racismo e à xenofobia.

A compreensão desses conceitos é fundamental para a garantia e a soberania de projetos que se geram e se consolidam a partir da convicção de que é possível construir um mundo melhor, preservando o que de melhor ainda temos.
Esta é a crença e o guia de todo projeto de esquerda, desde a sua identificação como tal, ao longo da Revolução Francesa. A crença no potencial ilimitado do ser humano, na capacidade de conviver com os membros de sua espécie e na construção permanente de projetos coletivos, em que maioria e minoria se respeitam.

8 comentários:

LHM Azevedo disse...

O grande mal da esquerda foi não ter pudor em usar a ditadura e a centralização para se impor. E pior ainda foi não ter visto que isso não daria certo. Até a direita brasileira percebeu que era hora de mudar e abandonou a ditadura.Abaixo as ditaduras de esquerda e de direita. Ditadura nunca mais.

LHM Azevedo disse...

O grande mal da esquerda foi não ter pudor em usar a ditadura e a centralização para se impor. E pior ainda foi não ter visto que isso não daria certo. Até a direita brasileira percebeu que era hora de mudar e abandonou a ditadura.Abaixo as ditaduras de esquerda e de direita. Ditadura nunca mais.

SENÔ JÚNIOR disse...

O comunismo já morreu de morte prematura, enquanto ainda estava no estágio de juventudade vigorosa, mas quando o capitalismo morrer, ele irá morrer de morte madura. O que causou a morte do comunismo? Ele morreu devido à reação da dor, sofrimento e torturas acumulados, que foram infligidos a pessoas inocentes pelo sistema comunista, que forçou as pessoas a viverem vidas não-naturais. O comunismo teve de encontrar uma morte negra enquanto dançava no êxtase do terror e do massacre(Prabhat Ranjan Sarkar)Esta declaração, feita pelo filósofo social indiano Prabhat Ranjan Sarkar em novembro de 1989, significaria o esvaziamento do debate proposto por Carta Maior, sobre “O que o Marxismo tem a dizer para o século XXI ?” Pois, se como também diz P. R. Sarkar, o marximo já está morto em teoria, ainda que viva em nome, então o marxismo nada mais teria a nos dizer.
A questão central aqui provavelmente será a de que muitos defensores da teoria marxista irão imediatamente contestar este atestado de óbito emitido por Sarkar. Entretanto, mais do que isso, devemos acrescentar que Sarkar também propôs, a partir de 1959 (30 anos antes da queda do muro de Berlim), uma nova teoria sócio-econômica denominada PROUT (Teoria da Utilização Progressiva), a qual fornece os instrumentos para identificar-se a aplicabilidade, e também a origem e extensão dos defeitos, tanto da teoria capitalista quanto da teoria marxista, no sentido em que ambas propõem-se como base para a formação de um sistema sócio-político-econômico para o bem-estar da sociedade e também do ambiente. E, diga-se de passagem, o mesmo vale para o anarquismo e outros sistemas ou propostas orientadas à reorganização da sociedade com o mesmo fim, mas com diferentes entendimentos de como seria e de como se alcançaria
esse bem estar de todos os seres.
A minha motivação particular ao escrever aqui é principalmente aproveitar esta oportunidade para realizar intercâmbio intelectual com outras pessoas que buscam o mesmo objetivo, a saber, o de implementarmos um sistema sócio-político-econômico para o “bem-estar de todos os seres”. Os méritos e defeitos de qualquer sistema, teoria ou proposta neste sentido devem ser avaliados racionalmente, com mente clara, por pessoas que também têm espírito prático, ou seja, que têm o enfoque de materialização da proposta que avaliarem ser adequada para o objetivo benevolente a que se propõem.
Amigo Rudá, seu artigo está excelente. Não creio que no Brasil de hoje exista mais essa polarização esquerda, direita e vulgarizando diria que "tá tudo junto e misturado".

Reginaldo Tech disse...

Rudá Ricci: seu artigo é esclarecedor e deveria ser lido por muitos jovens que ainda não conhecem algumas diferenças primordiais sobre estes lados opostos... que hoje em dia não são tão opostos assim. Senô Júnior: Falar no filósofo social indiano Prabhat Ranjan Sarkar é extremamente importante para o mundo atual, principalmente sobre o PROUT. No Brasil, temos uma seguidora de P.R.Sarkar bem perto: trata-se de Suzan Andrews, uma antropóloga que coordena o Parque Visão Futuro, em Porangaba/SP.

Júnior ... Eskelsen D. disse...

Existe um pequeno problema
com Sarkar, acreditar e querer
fazer acreditar que é a ressurreição de um deus.

SENÔ JÚNIOR disse...

Reginaldo Tech, obrigado por suas observações e informações.

Naomi. disse...

Claro favoritismo nesse artigo.
Agora mostre-me o ponto de vista de Direita.

Unknown disse...

Naomi: Nesse vídeo tem favoritismo a direita, então você vai poder ver bem o que eles acham e já que leu aqui, vai poder comparar "favoritismos" e concretizar uma opinião.
https://www.youtube.com/watch?v=lwEUK8_E60k

Conheço os dois lados e continuo pendendo pra esquerda toda vez.
Beijos