sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Congresso do PT é para consumo interno e não para PMDB

Ao menos é isto que está parecendo. As notícias são:
a) O presidente do PMDB, Michel Temer (SP), recusou um convite do presidente do PT, José Eduardo Dutra, para aparecer no 4º Congresso Nacional do PT.

b) Temer disse a Dutra que não poderia ir porque pode parecer que a chapa PT-PMDB já estava montada, com ele como vice da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

c) Os 1.300 delegados do 4º Congresso Nacional do PT rejeitaram em peso uma menção explícita ao PMDB na resolução sobre estratégia eleitoral e política de alianças para a campanha de Dilma Rousseff.

d) A proposta, que partiu de parte do grupo majoritário formada por setores da corrente Construindo um Novo Brasil e Novos Rumos, previa uma mudança no texto base, que fala apenas na prioridade em "fortalecer um bloco de esquerda e progressista" e "agregar forças políticas de centro". Não há menção direta ao PMDB nem qualquer outro partido aliado.

e) Com o objetivo de fazer um afago no PMDB depois de uma série de trombadas quanto a questões estaduais e à escolha do vice de Dilma, queriam aprovar uma emenda alterando o texto para: "manter a coesão das forças políticas, econômicas e sociais que integram a atual base do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, particularmente o PMDB".

f) A emenda foi defendida no plenário pelos deputados José Genoino e Carlos Zaratini. Mas o presidente do partido, Ricardo Berzoini, conseguiu reverter a situação ao defender a manutenção do texto base. Ele argumentou que o texto não deveria fazer menção direta a qualquer partido. O PT não quer melindrar outros aliados como o PSB, do deputado Ciro Gomes.

Eleição 2010: a disputa pela interpretação dos números


A campanha pela sucessão de Lula está tão desorganizada que agora chegamos ao absurdo de reeditar os números de pesquisas. O jogo de cena chega a ser imoral, revelando um profundo desrespeito ao cidadão. Este é o caso da interpretação dos resultados da última pesquisa IBOPE. Se compararmos a pesquisa anterior do IBOPE com a divulgada nesta semana, a diferença entre Serra e Dilma caiu significativamente. Mas comparando com a pesquisa Sensus/CNT (que indicou empate técnico entre os dois) a diferença é maior. Este fato levaria, de cara, a se questionar a metodologia de um e outro instituto de pesquisa. Mas o que fizeram alguns editores da grande imprensa? Compararam o resultado das duas pesquisas (IBOPE e Sensus) e tiraram as conclusões de baixa qualidade intelectual: "Dilma e Serra estagnaram", "Serra mantém diferença", e assim por diante. Em nenhuma das pesquisas é possível tirar tais conclusões.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Globo News Painel debate congresso do PT


Participo amanhã, na Globo News, do programa Painel, tendo como tema o congresso do PT que termina no final desta semana. O programa vai ao ar ao sábado, às 23h e é reprisado no domingo (03h05, 11h05, 20h05) e segunda-feira (05h05).
Participa, também, o sociólogo Ricardo Antunes.

Tom Zé: o melhor blog do Brasil


Descobri que Tom Zé tinha blog lendo O Glob de hoje. E não deu outra: é, na minha opinião, o blog que melhor sabe utilizar este instrumento. Tom Zé dá um show de comunicação e simplicidade. O expediente é o de uma conversa entre amigos: ele lança idéias e desafios, conversa com quem comenta, dá conselhos e opiniões, enfim, faz o papel daqueles mediadores de grupos focais. O cara é genial. Vá lá e confira: aqui .

Belo artigo no Valor Econômico

Uma opção radical... pelo centro ideológico
Maria Inês Nassif
Basta um pouco de bom senso para rejeitar a ideia que se tenta impor, como senso comum, de que o governo Lula deu um passo à esquerda e que a ministra Dilma Rousseff dará a guinada final em direção a alguma coisa parecida com o ex-socialismo soviético, um capítulo arquivado da história que poucos líderes e partidos no mundo tentam ressuscitar. A chance de radicalização à esquerda numa coalizão como a que dá sustentação ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva - e dará apoio a um governo Dilma, se o PMDB oficialmente apoiar a sua candidatura e se ela vencer a eleição - é quase próxima a zero. O debate sobre o tamanho e o poder de intervenção do Estado, que se tornou central depois da crise financeira mundial do ano passado, está sendo feito no interior do capitalismo e não é determinante para se apontar o grau de esquerdização de um candidato, de um governo ou de um partido. O PT não está radicalmente ao centro como quando assumiu o governo, em 2003, mas as alianças feitas para ganhar eleição e governar não autorizam previsões de que o partido caminha inexoravelmente para a extrema-esquerda. Nenhuma tendência de esquerda do PT alimenta essa fantasia porque ela simplesmente não é razoável.
No primeiro governo de Lula, de 2003 a 2005, a gestão foi o produto de um "pacto de governabilidade" que impediu qualquer passo à esquerda, exceto uma política de transferência de renda que inicialmente soou apenas como política compensatória. Aliás, o Bolsa Família só ganhou corpo e se expandiu sem enfrentar uma forte oposição conservadora porque não esteve no centro das atenções até ter se consolidado como instrumento efetivo de distribuição de renda.
Daí foi impossível acabar com o programa.
No pós-eleições de 2002, o grupo de centro era amplamente hegemônico no PT e estava totalmente comprometido com a tarefa de mostrar ao mercado que seu governo era confiável, numa conjuntura de grave crise econômica e fuga de capitais. Não existia espaço para debates à esquerda. Esse partido que se fincava no centro era aliado, no governo, a outras pequenas agremiações à esquerda e à direita - era inevitável que o ponto de equilíbrio fosse o centro, com concessões eventuais à direita e à esquerda.
No segundo mandato, se a reeleição deu alguma sustentação ao presidente Lula para fazer uma inflexão à esquerda - quer como resposta à radicalização da oposição à direita, quer pelo fato de ter sido consagrado por uma população de baixa renda que é altamente penalizada em conjunturas de políticas econômicas conservadoras -, a aliança com o PMDB, que aderiu ao governo depois das eleições de 2006, colocou limites muito precisos a isso. O segundo governo Lula foi à esquerda do primeiro, mas nem tanto. O PMDB é um partido que, na sua trajetória pós-redemocratização, perdeu qualquer referência de esquerda e abriga bolsões ultraconservadores - a maior parte da bancada ruralista, a mais ativa oposição a qualquer política fundiária de qualquer governo, está abrigada naquele partido; lá se acomodam as principais lideranças regionais estaduais mais apegadas a antigas práticas de clientelismo. Os setores mais conservadores do PMDB tiveram protagonismo nas questões fundiárias - o ministro pemedebista Reinholds Stephanes (PMDB-PR) tem maior poder de influência do que Guilherme Cassel, ministro do Desenvolvimento Agrário e integrante da esquerda do PT; Stephanes tem ganhado também as quedas de braço com o Meio Ambiente. O PMDB também foi a referência conservadora na disputa entre o Ministério da Defesa e a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), na questão da criação de uma Comissão da Verdade destinada a apurar excessos cometidos pelo aparelho de repressão do Estado.
O PMDB é o parceiro eleitoral que o PT quer e o governo e o partido têm feito todos os esforços para ter um pemedebista como vice na chapa encabeçada por Dilma Rousseff. Não existe razão alguma para imaginar que, se o PT vencer em outubro, um governo de Dilma terá enormes diferenças em relação ao seu antecessor. O PMDB se beneficia eleitoralmente de medidas populares de esquerda do governo Lula, mas os setores mais conservadores do partido estabelecem limites muito claros, que são os seus interesses. Existe uma certa organicidade nessa agremiação de centro partida em pedaços, que é a consciência de que a defesa dos interesses de grupos cimentam a unidade que dá a ela poder de barganha junto a qualquer governo. Como é uma grande agremiação, com grande peso no Congresso, isso tem muita importância na definição ideológica de um governo ao qual está aliado.
Internamente, o PT também tem maiorias consolidadas que por si só mantêm o partido longe dos discursos de ruptura do passado. A queda do Muro de Berlim, há 20 anos, foi um baque para todos os partidos de esquerda no mundo. Muito antes disso, a denúncia dos crimes de Joseph Stálin, em 1956, pelo governo soviético de Nikita Kruschev, já havia colocado a questão democrática no centro dos debates da esquerda mundial. O fracasso da esquerda armada no Brasil e na América Latina, e a vitória de brutais regimes militares de direita que praticamente dizimaram esses grupos revolucionários, são dados que se somaram e solidificaram um processo contínuo de aproximação das esquerdas brasileiras da ideia de socialismo democrático. Quando a democracia passou a ser o instrumento fundamental de formação de hegemonias para esses grupos, logicamente o limite de radicalização à esquerda fica muito claro, independentemente das alianças na política institucional que um partido que se diga socialista faça. Como toda essa água rolou desde que a UDN e os militares udenistas tomaram o poder pela força em 1964, com a justificativa de evitar que a esquerda fizesse uma revolução pela força, o discurso eleitoral que atribui a qualquer partido de esquerda hoje situado na política institucional brasileira intenções de ruptura é, no mínimo, fora de moda; no máximo, terrorismo político-eleitoral.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

Abandono do Zoo de Belo Horizonte


O Zoo de BH está abandonado. É um problema cíclico. A maioria das placas com nome e informações sobre cada animal está desbotada e há casos de ser apenas um plástico, rasgado e caído, sem que se possa ler. A grama está alta em todo zoológico. Os funcionários não conseguem esconder a irritação. Grande parte das jaulas e cercas estão enferrujadas. E paga-se a bagatela de 7 reais, por pessoa, nos feriados. Fora o valor por carro (adicional). Ou seja, uma família com 4 pessoas paga quase 30 reais para entrar. No feriado de carnaval, estava lotado. Mesmo assim, era evidente o descaso, o desrespeito e a anti-educação.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Pesquisa IBOPE

Do site do Estadão:
Pesquisa Ibope/Diário do Comércio, encomendada pela Associação Comercial de São Paulo e realizada entre os dias 6 a 9 deste mês, indica que a corrida à sucessão presidencial de outubro continua polarizada pelos pré-candidatos do PSDB e do PT, respectivamente o governador de São Paulo, José Serra, e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Nessa mostra, Serra tem 36% das intenções de voto e Dilma 25%. Em terceiro lugar está o deputado federal Ciro Gomes (PSB) com 11%, seguido da senadora Marina Silva (PV) com 8%. O porcentual de votos brancos e nulos somou 11% e dos que disseram não saber em quem vai votar atingiu 9%.
A última pesquisa divulgada pelo Ibope foi no dia 7 de dezembro do ano passado. Na mostra, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Serra registrava 38% das intenções de voto, seguido de Dilma Rousseff com 17%, Ciro Gomes com 13% e Marina Silva com 6%. Naquela pesquisa, o porcentual de votos brancos e nulos atingiu 13% e dos que disseram não saber em quem votar ou não quiseram responder somou 12%.
A mostra indagou ainda o que os eleitores gostariam que o próximo presidente fizesse. Do total de entrevistados, 34% querem a total continuidade do atual governo, 29% querem pequenas mudanças com continuidade, 25% querem a manutenção de apenas alguns programas com muitas mudanças e 10% querem a mudança total do governo do País. Para 78% dos entrevistados, o presidente Lula é confiável, enquanto 18% disseram não confiar no presidente.

PSDB perde filiados em MG na Era Aécio


O estilo autosuficiente de governar de Aécio Neves criou um rombo no seu partido. Somente em 2009, mais de 5 mil pessoas se desfiliaram do PSDB mineiro. O partido de Aécio se tornou a quarta legenda mineira (9,8% do total de filiados a partidos no Estado), perdendo para PMDB, PT e DEM.
Do total de 300 vereadores cassados em 2008, PMDB e PSDB lideram o ranking, com 36 parlamentares cada. Nenhum partido de oposição a Aécio teve parlamentar cassado. Dentre os grandes partidos, PT foi o que menos perdeu filiados entre 2006 e 2009.
São dados apresentados na edição de hoje do jornal Hoje em Dia, p. 3.
O presidente do PSDB mineiro afirma que houve descontentamento com os políticos e que houve falta de mobilização das lideranças partidárias.
O poder e a militância do contra-cheque geram problemas desta natureza.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Falecimento de Gildo Marçal Brandão


Recebo mensagem do professor José de Souza Martins comunicando o falecimento de Gildo Marçal Brandão, professor do Departamento de Ciência Política e coordenador científico do Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Democratização e Desenvolvimento, da Universidade de São Paulo. Reproduzo o início de um simpático artigo que ele escreveu quando do aniversário do CEDEC, centro de estudos sociológicos que tive o prazer de ter sido membro:

Idéias e Intelectuais: modos de usar
Relutei quando Amélia Cohn me convidou para tomar parte nesse evento em torno do aniversário do Cedec. Pois não se trata de um aniversariante qualquer. Com efeito, em um país onde as instituições costumam durar o tempo de interesse de seus fundadores, quantas podem comemorar 25 anos? Em um país que tem sido submetido a mudanças aceleradas em concentrado período de tempo, quantas instituições universitárias deixaram marca no debate público? Em um país no qual a vida acadêmica tem se confrontado com tanta burocracia e risco de taylorização, quantas instituições de pesquisa conseguiram renovar o seu projeto? Em um país em que as transformações ideológicas e as trocas de campo político foram tão generalizadas e intensas, quantas instituições intelectuais foram capazes de reafirmar seu compromisso de nascença com a esquerda, e de rejuvenescê-lo?
(...)
Se minha periodização não é simplificadora, diria que a radicalização da crise na virada dos anos 90 provocou uma reação de autodefesa e distanciamento da práxis anterior, logo traduzida no esforço de incorporação dos problemas e das formas de abordagem da ciência política institucionalizada e na reflexão crítica sobre a situação e as políticas sociais implementadas pela nova democracia. O acento aqui se deslocou da “política instituinte” - um termo originário da filosofia política francesa e que denotava o horror à positividade - para os processos de construção institucional em que o país e a América Latina mergulhavam. Mas, mesmo nessa fase, permaneceu a ponta de desconfiança tanto diante do Estado como em relação a uma perspectiva estritamente maquiaveliana da política, como se o Cedec, reconhecendo malgré tout a centralidade da ética da responsabilidade, insistisse sempre no elemento de convicção, com receio de que o cálculo racional das conseqüências da ação derivasse em mero instrumentalismo e que o compromisso do ator com o caminho escolhido se reduzisse à mera accountability.
(...)
Na impossibilidade de aprofundar aqui esses argumentos, limito-me a assinalar sumariamente alguns de seus efeitos no modo pelo qual se vem analisando o Brasil. O primeiro é uma das conseqüências mais complicadas da transformação do intelectual em especialista, das ciências sociais em técnicas de racionalização das demandas sociais, do trabalho acadêmico em reprodução dos interesses e programas das agências estatais e financeiras. É que, por maior que seja sua dimensão democratizante comparada com o antigo mandarinato, a tecnificação da atividade intelectual e a fragmentação da pesquisa científica numa miríade de disciplinas e subdisciplinas fechadas e especializadas no exame de limitados objetos, acabam por bloquear a possibilidade de pensar o conjunto, reduzem a reflexão à expressão reificada do próprio processo social.(...)

Kassab e Arruda

Do blog de Josias de Souza:
Arruda ajudou a forrar, por exemplo, o caixa de campanha de Gilberto Kassab, o prefeito ‘demo’ reeleito em São Paulo.
Tenho a impressão que Serra não está gostando nada desta brincadeira.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Liberalismo ou regulação estatal no debate italiano


A crise internacional reabriu o debate europeu sobre o papel do Estado. Participo de uma lista de discussão entre italianos que vivem fora da Itália. Vejam a resposta de um italiano pró-regulação à provocação de outro, liberal:
"Perche' non privatizziamo la bandiera italiana? E ,ovviamente,le ambasciate ,l'esercito,etc.Possibile che qualcuno pensi di terziarizzare lo stato?.

Divertido, como todo debate entre italianos. Nunca havia pensado num debate nesses termos: privatizar a bandeira nacional e o exército!!! Escrevo dando gargalhadas. Lembra discussões na minha família.

O que está acontecendo com Aldo Rebelo?


O líder do PCdoB resolveu confrontar o Ministério do Meio Ambiente. Num debate realizado em Ribeirão Preto sobre o Código Florestal afirmou que membros do Ministério Público agem como "braços jurídicos das ONGs" ambientalistas. Aldo é o relator da comissão especial da Câmara dos Deputados que dará parecer ao projeto de lei nº 1.876, de 1999, propondo alterações na lei de proteção às florestas.
O que vem surpreendo é sua defesa de mudanças para beneficiar o agronegócio, tendo como motivação uma vaga defesa do crescimento da economia.
O que estaria ocorrendo? Conservadorismo saindo do armário, prenúncio de financiamento de campanha ou ingenuidade?
Chegou a afirmar no dia 2 de fevereiro:
O Brasil não pode mais uma vez atender aos interesses internacionais se comprometendo com reduções em Estocolmo.

Teses de Christian Mirza


O livro de Christian Adel Mirza, "Movimientos sociales y sistemas políticos en América Latina" (Clacso Libros) deveria ser mais citado e comentado no Brasil. Faz um importante cruzamento entre trajetória dos movimentos sociais contemporâneos e evolução dos sistemas partidários e políticos da região.
Não compartilho de muitas de suas teses, mas é uma obra realmente importante. No capítulo 3, sugere que há relação direta entre emergência dos movimentos sociais e a crise de legitimidade dos partidos latino-americanos. Também sugere, no início do livro, certa institucionalização dos movimentos sociais do continente e cita, inclusive, as centrais sindicais nesta categoria. São três teses que discordo frontalmente. Central sindical não é movimento social, embora mobilize socialmente. Por este motivo, não acredito que a institucionalização de movimentos sociais possa configurar novas formas de movimentos sociais. Sociologicamente teríamos que distinguir movimentos sociais de organizações (pela própria estrutura de organização e motivação interna, além do grau de universalização já que organizações são mais auto-referentes que movimentos sociais). Finalmente, o momento atual do Brasil seria, neste caso, uma exceção não explicada pela crise do sistema partidário e dos próprios movimentos sociais. A origem pode ter sido esta, mas a conjuntura atual sugere uma realidade muito mais complexa.

Beyoncé é a cara da nova classe média brasileira


O programa Sem Fronteiras (GloboNews) dedicou matéria sobre a nova classe média e começou mostrando o show de Beyoncé. Achei muito interessante porque esta imagem não é propriamente kitsch, embora tenha certo exagero. É mais para um pop que tem competência técnica. Algo bem diferente do que o imaginário da classe média tradicional tem dos emergentes.

Blog sobre Fórum Social Mundial

O IBASE criou blog onde disponibiliza textos e artigos focados no balanço de 10 anos do FSM. Também publica no espaço síntese de algumas mesas ocorridas no último fórum. Ver aqui .

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O Lobisomem: complexo de édipo canino


Benicio Del Toro ao lado de Anthony Hopkins é garantia de qualidade e filme com sacadas cerebrais. Mas este é entretenimento puro, com adiamento de seu lançamento por dois anos para refilmar algumas passagens inicialmente reprovadas. Interessante (sem grandes brilhos), com toque psicanalítico, conflito pai-filho, insinuações de desejos incestuosos com cores, digamos, mais animalescas. No clima, o diretor Joe Johnston limitou os efeitos digitais aos pés do lobisomem-Benicio Del Toro.
Rubens Ewald Filho massacrou o filme:
O resultado é francamente medíocre, com determinadas pretensões de roteiro (obviamente freudiano) e que insiste numa moral de história que finge ser profunda (ou seja, que dentro de todo homem, está adormecida uma besta assassina).

Caramba! Acho que daí vem a noção de que fazer crítica é espinafrar o criticado.

MST perde fôlego


Dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) revelam que as ocupações de terra despencam desde 2007 (ver gráfico ilustrando este post). A CONTAG afirma que ainda existem 70 mil pessoas acampadas na beira de rodovias. Ok. Mas no final da primeira gestão de Lula eram 200 mil acampados.

Complicou tudo para os democratas


A UOL acaba de divulgar que a Polícia Federal apreendeu durante a Operação Caixa de Pandora recibos de doações ao DEM no anexo da residência oficial do governador afastado do Distrito Federal. Segundo a reportagem, os recibos estavam no armário que era usado por Domingos Lamoglia, ex-chefe de gabinete de Arruda, suspeito de arrecadar propina. A PF quer saber por que os documentos estavam no armário de Domingos quando deveriam ficar com os doadores.
O DEM vai passando por seu inferno astral, torcendo para não ser sinal de seu último suspiro. Deve confiar no desprezo tupiniquim pelo mundo político (que alguns acreditam que se trata de falta de memória).

Corrupção e família, em Carlos Fuentes


Em dias de prisão de governador, um conto do mexicano Carlos Fuentes é dos mais ilustrativos. Em "Uma família entre tantas", conta a história de um pai honesto que, aos 52 anos, procura seu chefe para reclamar o motivo por não receber nenhum benefício extra já que, ao contrário dos outros funcionários, é honesto e cumpre as ordens sem questionamento. O patrão lhe dá imediatamente 5 mil dólares e o demite. Com um sorriso sarcástico no rosto, diz ao empregado exemplar, que receberia um salário vitalício ou seria denunciado à polícia pelo desvio dos 5 mil dólares da empresa. O pai honesto reclama que não havia pedido o dinheiro, mas o patrão, ainda com o sorriso pregado no rosto, pede para ele provar, para apresentar o recibo inexistente.
Naquele momento, o pai honesto percebe que havia cometido um erro. Ao reclamar, se tornou um igual. Comenta, com o filho: "somos filhos de uma revolução infeliz". Ao que o filho pergunta: "qual revolução? a tecnológica?".

Comunitarismo em duas visões


Acabo de ler o livro de Thamy Pogrebinschi (professora da IUPERJ, que lançou recentemente o interessante livro "O Enigma do Político", em que retoma a relação Estado-sociedade civil em Marx) sobre Pragmatismo (Editora Relume Dumará). A autora trabalha vários conceitos em John Dewey, incluindo o de comunidade. Dewey fazia uma relação direta entre comunicação e comunidade, fazendo da segunda uma construção dinâmica e permanente. A identificação de cada um com a comunidade se forja nesta comunicação, se aproximando do conceito de hegemonia gramsciano. Trata-se de uma adesão consciente, portanto, não apenas marcada pela afetividade. Peirce, também citado pela autora, vai mais longe: a distinção do real da utopia ou sonho individual se faz pelo contato com a comunidade. A comunidade seria, então, um esteio por onde as crenças se confirmam ou são rejeitadas (o pensamento pragmático).
Surpreendentemente, Zygmunt Bauman publica livro (Aprendendo a pensar com a sociologia, Jorge Zahar Editores) que trata do mesmo tema: os vínculos comunitários. Mas a partir de um foco mais crítico. O autor polonês adota o mote da tensão entre liberdade pessoal e dependência (contingências e regras sociais) ou, ainda, a aceitação de pessoas estranhas às suas crenças e cultura (tema deste início de século). O estranho é cada vez mais comum à paisagem volúvel da fragmentação social e globalização cultural. Daí (retoma tese de Touraine, sem citá-lo) nos refugiarmos na semelhança e na aparência (no perfume de sempre, na marca do automóvel, na comunidade conhecida), por mais efêmera que seja. Seria nossa proteção. Mas a "responsabilidade moral" ressurge (aquela que é voltada para a felicidade do outro), desmontando o conforto do comunitarismo. Enfim, a tensão permanente entre moral e conforto individual e comunitário.
O mais interessante é que para Bauman, a comunidade não se define pela proximidade física, mas como "unidade espiritual", como "postulado" por onde se divide ideais.
Tanto Bauman quanto Dewey trabalham a tensão social permanente como fruto desta comunicação entre desejos e interesses individuais por onde brotam identidades e valores morais. Um dilema cada vez mais presente neste século de encontros fáceis, cada vez mais fluidos e contingenciais. Como diz Bauman:
Somos continuamente encorajados a consumir em nossa busca do inatingível - o estilo de vida perfeito em que a satisfação reine, suprema.

Não aprendemos a lidar com o inatingível. Possivelmente daí nasce a mudança social e a utopia. E daí nasce a ferida de morte do conservadorismo e cinismo. Por mais paradoxal que pareça.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Eleição de Laura Chinchilla na Costa Rica: a direita se reestrutura?


Laura Chinchilla será a primeira presidenta da Costa Rica. Venceu as eleições com 47% dos votos. Junta-se a Chile, Argentina, Bolívia, Panamá, Nicarágua e Jamaica, países latino-americanos que elegeram mulheres para o cargo público máximo. É graduada em Ciências Políticas pela Universidad de Costa Rica e obteve o mestradeo em Políticas Públicas pela Universidade de Georgetown (EUA).
Contudo, Chinchilla condena a união entre gays, é contra o aborto e até mesmo a separação entre Igreja e Estado. Alguns analistas comentam que se trata de uma versão de Sarah Palin. Sua eleição, portanto, se soma ao avanço da "direita civilizada" chilena, hondurenha e panamenha. É verdade que, com exceção do Chile, são países marginais na geopolítica do continente. Mas pode revelar esgotamento do discurso agressivo da esquerda caribenha e/ou sob influência chavista.

Novo livro de Michael Lowy


Michael Löwy nasceu no Brasil, mas vive em Paris desde 1969. É diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Foi assistente de Nicos Poulantzas. Nos anos 1950-1960, fez parte da Liga Socialista Independente. Em 1968, associou-se à Quarta Internacional (trotskista), tornando-se membro da Primeira seção, a Ligue Communiste.
Este engajado sociólogo acaba de publicar livro que reúne os principais registros fotográficos dos processos revolucionários do final do século XIX até a segunda metade do século XX, destacando-se fotografias da Comuna de Paris, as revoluções Mexicana (1910–1920), Russas (1905 e 1917), Alemã (1918–1919), Húngara (1919), Chinesas (1911 e 1949), Cubana (1953–1967) e a Guerra Civil Espanhola (1936). Para a edição brasileira (Editora Boitempo) preparou apêndice exclusivo, sobre os momentos de resistência que marcaram a história do Brasil. O livro possui também um capítulo que passa em revista uma série de eventos transformadores dos últimos trinta anos: o Maio de 1968, a Revolução dos Cravos em Portugal (1974) e a Nicaraguense (1978–1979), a queda do Muro de Berlim (1989) e a sublevação zapatista de Chiapas (1994–1995).
Vale a pena, não apenas pelo registro histórico, mas para uma visão panorâmica do que mudou, efetivamente, nas lutas revolucionárias, da Comuna de Paris ao movimento neozapatista.
Confesso que fiquei com a impressão de que o critério utilizado para definir movimentos revolucionários é o mesmo utilizado por Marx, no século XIX. Seria correto? Ao introduzir o apêndice sobre resistência brasileira à ditadura, não estaria abrindo um possível leque analítico (ao invés de se limitar a resistência política aos grupos de inspiração marxista)? Onde ficariam os movimentos de resistência do século XXI? E as estruturas em rede, os fóruns e outras novidades?
O livro é novo, mas o conteúdo deu impressão de anacronismo.

Cuba na Venezuela


A revista Analitica.com publica artigo em que divulga que existem, hoje, 100 mil cubanos na Venezuela, desenvolvendo atividades de cooperação entre os dois governos. Médicos, assessores educacionais. Cita, ainda, a presença do comandante cubano Ramiro Valdez, ex-ministro do Interior a quem se acusa pela repressão aos movimentos oposicionistas ao castrismo. Como ministro de Informática y Comunicaciones de Cuba, é acusado de cercear a livre comunicação entre blogueiros da Ilha.
Estas são as acusações. Não deixa de ser algo muito estranho, caso seja verdade. Num rápida comparação, seria como chegassem ao Brasil mais de 720 mil cubanos para auxiliar o governo Lula.
Ressalto este fato para reforçar o quanto lideranças de esquerda de nosso país não podem defender ações pouco democráticas em função de emblemas ou fetiches. O governo cubano presta um desserviço a um projeto efetivamente de esquerda. Ontem, topei com o livro Revoluções (editora Boitempo), de Michel Lowy. Fiquei com um sentimento, a despeito da originalidade e importância do autor, de saudosismo, de dificuldade em superar as marcas do século XIX.

Intervenção federal no DF: a vontade do DEM e a vontade do PT


A história da intervenção federal no DF parece que terá alguns capítulos a mais. Obviamente que se o judiciário decidir, não restará muita alternativa ao governo federal. Contudo, petistas não desejam assumir o desgaste. Melhor: querem que o desgaste fique com Paulo Octávio e o DEM. Paulo Octávio, por sinal, enfrentará os 4 pedidos de impeachment apresentados ontem. Já o DEM, por motivos óbvios, torce para que a intervenção ocorra. Perderia os anéis, mas ficaria com os dedos.
Por seu turno, o governo federal já acionou ministros com acesso ao Supremo Tribunal Federal (como Nelson Jobim, ex-presidente do STF) para evitar a intervenção.

Ainda sobre a crise permanente no PSOL


Fazendo coro à nota que postei abaixo, vale lembrar que as divergências internas do PSOL são cada vez mais pessoais, revestidas de ideológicas. No ano passado, lembremos, houve uma rusga feia entre Ivan Valente e Luciana Genro. Luciana chegou a enviar carta à direção partidária acusando seu colega de machista e desequilibrado. Isto porque Valente teria dito que ela fez um “roubo de galinha” ao defender os outdoors (durante discussão sobre reforma eleitoral). A bancada do aguerrido partido se dividiu na votação em plenário da Câmara Federal.
Estas rusgas lembram, em muito, as divergências internas no PCB e suas inúmeras correntes, logo após sua fundação. As discussões descambavam para o terreno pessoal. E isto quando o partido se desesperava porque não tinha base operária, uma contradição em termos. De lá prá cá....

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O debate interno no PSOL


Martiniano Cavalcante, do PSOL, publicou artigo (REFLEXÕES SOBRE O PRIMEIRO DEBATE ENTRE OS PRÉ-CANDIDATOS DO PSOL) que indica as divergências internas no seu partido. Segundo ele, o debate sobre o programa e campanha presidencial (entre ele, Plínio de Arruda Sampaio e Babá) "mostrou que a discussão recém iniciada se dá em torno de concepções contrapostas numa frontal oposição entre dois campos." A partir daí, destaca o que considera "uma grande ameaça representada pelos que propõem um perfil de campanha acentuadamente propagandista e doutrinária". Um debate que já envolveu a quase totalidade dos partidos de esquerda no Brasil. Convenhamos que não há muita novidade. Cavalcante destaca o possível isolamento político que se avizinha. Mas o PSOL já não vive tal isolamento?
Em seu artigo, faz uma advertência dramática: "a idéia de uma campanha que busque deliberadamente “chocar” a opinião pública, contrasta com o esforço de Plínio para se mostrar simpático e cordato."
E termina com a também conhecida "sopa de letrinhas":
"Reafirmo a minha convicção de que a Direção do PSOL encaminhou a política correta para o assunto. Dirigentes da APS, MES, ENLACE, PODER POPULAR e independentes que foram responsáveis pela condução daquela política não foram em nenhum momento derrotados pela base. Ao contrário, conduziram o Partido, deixando-o em posição privilegiada para disputar o voto e a simpatia dos setores de massa, mais conscientes, que são atraídos pela candidatura de Marina Silva."

Crise na educação argentina

O jornal La Nación (aqui) publica matéria em que se revela que 900 mil adolescentes argentinos não estudam e não trabalham. Vários ministros admitiram que o ensino secundário (ensino médio0 é um fracasso.

Tolstoi


Aproveitando o filme recém lançado nos EUA sobre a vida de Leon Tolstoi, reproduzo uma das frases-símbolo registrada em Anna Karenina (lembro que este livro foi escrito em meio à uma crise de seu casamento com Sônia Andreievna Bers, com quem teve 13 filhos):
Todas as famílias felizes se parecem; as infelizes o são à sua maneira

China: crescimento menor em 2010


Jonathan Fenby, analista da economia chinesa, prevê crescimento menor em 2010 (6% a 7%, contra 10% em 2009). O governo chinês está preocupadíssimo com inflação em elevação e cortou 25% do volume de crédito no país. Já o Brasil, projeta crescimento do PIB em quase 6%. Mas esta projeção para a economia chinesa vai aumentar a tentação do freio pelo Banco Central.

A corrida entre Arruda e o STF

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ingressou nesta quinta-feira no STF (Supremo Tribunal Federal) com pedido de intervenção federal no Distrito Federal. Gurgel disse que o pedido se justifica porque há no governo do DF uma "verdadeira organização criminosa" comandada pelo governador José Roberto Arruda (ex-DEM, sem partido). O presidente do STF, Gilmar Mendes, expediu despacho sobre este pedido ainda hoje. Segundo blog de Josias de Souza, requisitou informações ao governo do Distrito Federal e ao procurador-geral Roberto Gurgel, autor do pedido. Deu prazo de cinco dias para que os dados sejam encaminhados ao Supremo. Depois, vai nomear um ministro para relatar o caso. O pedido será, então, levado ao plenário do STF. E os 11 ministros que o integram decidirão se a intervenção deve ou não ser decretada. Prevalencendo a posição da Procuradoria, Gilmar Mendes comunicará o fato a Lula, a quem caberá nomear o interventor.