Comecei a ler este belo livro (anunciado como romance histórico)sobre a trajetória de Ramón Mercader, o assassino de Trotsky.
Imediatamente me transportei para minha época de movimento estudantil. Havia uma armadilha previamente armada (como aquelas que ocorrem nos casamentos) entre trotskistas e stalinistas: assim que um lado gritava "León, León, León" o outro lado, como um eco invertido se insurgia gritando: "Ramón, Ramón, Ramón". Eu achava uma grosseria dos filiados no PCdoB. Gritar o nome de Trotsky não chegava a ser uma ofensa. Ou seria?
De qualquer maneira, logo no começo do livro sou surpreendido com uma análise de Stephen Cohen, registrada na sua biografia de Bukharin, em que ele sustenta que havia uma forte divisão interna entre bolcheviques: a intelligentsia ocidental (aqueles que haviam se exilado na Europa e adotavam referências internacionalistas) e os nativos, que formulavam pouco, mas eram muito bons na organização, além de muito pragmáticos. Este último grupo tinha tendências nacionalistas e formaram a base da burocracia partidária, a apparathiki. Uma divisão que possivelmente se repetiu no PT desde sua origem. A intelligentsia dirigindo o partido até meados de 1990 e os organizadores da apparathiki petista a partir deste marco.
Interessante que a vanguarda dos pragmáticos petistas foi justamente formada por dissidentes do PCB.
Recentemente havia citado o excelente livro de Reinhard Bendix (Construção Nacional e Cidadania) num debate virtual. Neste livro, o autor weberiano destacava a herança da cultura mongol na constituição da Rússia, o que gerou uma profunda lacuna democrática. O Império Mongol simplesmente ignorava a simples possibilidade de existência da sociedade civil. A "via prussinana" tinha bases sólidas fincadas na alma russa.
Um bom plano de estudos sobre os caminhos e descaminhos da esquerda tupiniquim.
Recebo a mensagem abaixo, emitida pelo deputado Marcelo Freixo, do PSOL/RJ.
Já vivi muitos embates políticos e sei que o que se vê nem sempre é algo além de miragem. E sei o quanto uma tragédia cai como sopa no mel para quem tem poucos escrúpulos.
A bola da vez é o PSOL. Eram os Black Blocs, mas ficou meio difícil atacar pé de chinelo. Quanto mais próximo das eleições, melhor intimidar e isolar. Intimidar jovens e adolescentes. Intimidar pais cuidadosos e zelosos. Intimidar quem pensava em sair para protestar sem saber ainda claramente por qual das várias pautas disponíveis nas ruas.
E isolar. Isolar é um verbo de maior respeito na tática política. Intimidar é fácil. Basta um tom mais dramático no timbre de voz. Os não tão engajados se assustam de cara.
Mas isolar... Isolar é coisa para craques. Coisa de cachorro grande.
O script é conhecido. Feito o mártir, esqueçam as condolências. Uma rápida consulta à viúva e nunca mais se verá a cara da quem mereceria todo nosso apoio humanitário. Os dois meninos pegos com a mão na cumbuca servem como apoio para o salto maior. Olhando no mapa do jogo War, onde está o continente mais saboroso? O dedo aponta para o alvo. Esqueçam o morto, a viúva e os culpados. Chegou a hora do cerco. Quase sempre dá certo na primeira hora. O cheiro de sangue ainda paira no ar por um ou dois dias. Mas no terceiro, já não convence tanto. Os "táticos" desta guerrilha da baixa política não são lá estrategistas. E nunca serão. Não sabem que a cautela e o olhar atento são predicados de um bom jogador de xadrez. Mas os "táticos" estão mais para pit bull. Xadrez leva tempo. E tempo é dinheiro.
Não dá para maltratar desta maneira nossa jovem democracia.
Muito menos os cidadãos de bem, chocados com uma morte besta e sem sentido algum (nenhuma morte tem sentido, mas esta está no topo).
Ao menos respeito pela viúva. E pelo jornalista que estava trabalhando para que pudéssemos nos informar. Ao menos não vê tamanha deformação que estão fazendo com seu trabalho.
Abaixo, a resposta de Marcelo Freixo, o parlamentar que denunciou as milícias do Rio de Janeiro e que aparece, com destaque, na narração do filme Tropa de Choque 2:
"Advogado que me acusa defendeu chefe da milícia
Vejam que coincidência! O advogado Jonas Tadeu Nunes (OAB/RJ 49.987), que me acusou de ter ligações com o homem que detonou o rojão que atingiu o cinegrafista Santiago Andrade, defendeu o miliciano e ex-deputado estadual Natalino José Guimarães, que chefiou a maior milícia do Rio de Janeiro.
Eis a peça que faltava no quebra cabeça destas acusações absurdas. Natalino foi preso em 2008 graças às investigações da CPI das Milícias, presidida por mim na Assembleia Legislativa. À época, mais de 200 pessoas, entre elas várias autoridades, foram indiciadas. Natalino e seu irmão, Jerominho, que dividiam o poder, cumprem pena em presídios federais. Seis anos depois, Jonas apresenta contra mim uma história cheia de contradições e fragilidades. O mais assustador é a imprensa repercutir uma informação tão grave e duvidosa sem checar minimamente o histórico da fonte."
A Argentina sempre nos interpela, nós, brasileiros.
No futebol, na economia, nas artes e na política. Alguns afirmam que somos, um para o outro, um eterno Efeito Orloff.
O artigo que socializo abaixo, de Rosendo Fraga (do bom nuevamayoria.com) vai nesta direção.
O que ele sugere? Que é o peronismo que está na berlinda, mais uma vez (parecia morto no início deste século e ressurgiu com o kirchnerismo).
Um ano político, a despeito de não ocorrer nenhuma eleição argentina em 2014, sustenta Fraga. O autor nos lembra que o segundo mandato é sempre o mais difícil (numa provável reeleição de Dilma Rousseff, jogaria minhas fichas neste vaticínio), somando-se a debilidade política com dificuldades econômicas. Mas é o "fator social" o imponderável do próximo período. Além da disputa interna, no campo peronista.
Leio o artigo e vejo o reflexo do Brasil. Amanhã.
Argentina: Perspectivas políticas para 2014
Ene-07-14 - por Rosendo Fraga
No se puede adivinar el futuro político -menos aún en Argentina-, pero el país entra a un año en el cual no habrá elecciones, aunque será intensamente político. La conjetura es un instrumento válido para suponer qué es lo que puede suceder y las acciones del presente están determinadas por lo que se cree va a suceder. En el año que se inicia, si bien es un año sin elecciones, ello no quiere decir que no vaya a ser un año político: es que la elección presidencial de 2015 y la pugna por la sucesión de la Presidenta Cristina Kirchner serán las cuestiones dominantes en 2014. A lo largo del año no se irán definiendo, aunque sí perfilando, las candidaturas posibles. La teoría política dice que la segunda parte de un segundo mandato cuando no hay reelección es políticamente difícil. Por eso en la política estadounidense a este período se lo denomina “lame duck”, que traducido al castellano es “pato rengo”. Es que el poder comienza a estructurarse en perjuicio de quien está gobernando y en beneficio de quienes podrían sucederlo. Si se ha perdido la elección legislativa previa de medio mandato, este período puede hacerse más difícil, como en alguna medida puede suceder en la Argentina.
La economía jugará un rol político relevante y la experiencia argentina muestra que el riesgo de gobernabilidad se da cuando se pierde el control de aquélla. Evitar una combinación de debilidad política con dificultades económicas será posiblemente el desafío más importante que tiene por delante la Presidente Cristina Kirchner en 2014. Pero quizás el factor social sea en los próximos meses el que marque los tiempos tanto a la política como a la economía. El final de 2013 ha mostrado que es en este campo donde se encuentra el “imponderable”, es decir lo que no puede calcularse o ponderarse. La evidencia de ello ha sido la combinación de la tercera ola de saqueos de la historia contemporánea con la huelga policial más extendida que se haya registrado y una escalada de reclamos salariales en el ámbito gremial que presiona sobre la economía. A ello se han sumado las protestas por los cortes de luz y todo ello ha pasado en un solo mes, en el cual los conflictos suelen atenuarse y no escalar. En la Argentina siempre hay sorpresas, pero es en lo social donde hoy parecen tener más posibilidades de concretarse.
En cuanto a la sucesión presidencial, los posibles candidatos buscarán consolidar sus posiciones en el año que se inicia. La elección dejó cuatro presidenciables, que fueron los ganadores en los cuatro grandes distritos: Massa en Buenos Aires (Peronismo opositor), Macri en la Ciudad de Buenos Aires (PRO, centroderecha), Binner en Santa Fe (Socialismo) y Cobos en Mendoza (Radicalismo). Scioli, el gobernador de Buenos Aires, sigue siendo candidato por el Peronismo no-kirchnerista y ahora se sumó Capitanich por el Peronismo kirchnerista. La cuestión es cómo manejará el Peronismo el conflicto por la sucesión. Si lo hace en forma no traumática no tiene por qué alterarse la gobernabilidad, pero los problemas para ésta pueden surgir si la lucha por el poder dentro del Peronismo se torna despiadada. Posiblemente la Presidenta tendrá que optar entre ser parte de ella y apoyar a algún candidato o buscar ser el árbitro de esta pugna. Pero el tiempo que resta hasta la elección de 2015 es mucho para la política argentina: dos años antes de que fueran elegidos Alfonsín, Menem y Kirchner, ninguno de ellos era el candidato más probable. Los seis posibles candidatos mencionados son quienes están en la foto de hoy, la que puede no ser la película de mañana. Si bien muchas cosas pueden cambiar hasta octubre de 2015, también es cierto que la constancia es una virtud importante en política y quienes la tienen corren con ventaja.
La gran cuestión es el Peronismo, que viene dominando la política argentina desde hace más de 60 años y más fuertemente en el último cuarto de siglo. En principio pareciera que para 2015 hay más posibilidades de que gane un peronista a que gane un no-peronista, aunque en política suele decirse que nada es imposible. Para que el no-peronismo se torne competitivo electoralmente debe lograr un proceso de cohesión y unidad que no le resulta fácil, aunque a fin de 2013 se dieron pasos para construir un Frente Progresista con el Socialismo, el Radicalismo y otras fuerzas afines. La designación de Capitanich como Jefe de Gabinete responde a la necesidad del Kirchnerismo de tener un candidato presidencial propio para competir o por lo menos negociar en 2015. Pero se desgastó rápidamente y comienza el año con muchas dudas sobre sus posibilidades presidenciales. El oficialismo desde el poder intentará gestar un candidato y si no es él, será otro. El Peronismo abre el año 2014 con un candidato del Peronismo opositor, que es Massa, otro del Peronismo no-kirchnerista, que es Scioli, y otro del Kirchnerismo, que es más difícil de identificar. El primero ha reiterado que no competirá en las PASO dentro del PJ.
En conclusión: aunque 2014 es un año sin elecciones, seguramente será intensamente político; la economía jugará un rol políticamente relevante, pero es desde lo social donde pueden surgir más imponderables; la sucesión presidencial será un tema político dominante durante 2014, aunque la elección recién tenga lugar a fines del año siguiente; pero la gran cuestión política seguirá girando en torno al Peronismo, del cual surgirá probablemente la sucesión presidencial.
Fui, ontem, no lançamento do livro de Bruno Cava, aqui em BH, na Livraria Quixote. Avisei, antes, que estava contendo meu ímpeto de queimar todo estoque (o lançamento do nosso livro sobre o mesmo tema será na próxima sexta) o que, parece, acalmou o autor.
Caetano Veloso escreveu no jornal O Globo, no final de junho do ano passado, um belo elogio aos textos de Bruno. Ressaltava a linguagem foucaultiana apaixonada e uma "veraz narração de sua experiência (realmente forte como texto)". Esta resenha-elogio se encontra na quarta capa do livro.
Comecei a ler ontem mesmo (um olho neste livro e outro no "O Homem que Amava os Cachorros", outra indicação do Patrick Arley).
Logo de cara, um bom conceito de Bruno: poder destituinte. Conceito empregado por Giorgio Agamben. É também o nome que se dá ao recall, o poder do cidadão de cassar o mandato de um eleito que macula a intenção do eleitor. Pode destituinte se aplica aos protestos de junho. Tem algo de niilista e foucaultiano, realmente. Ainda hoje termino a leitura e posto algo mais completo aqui no blog.
Soube que há uma outra produção (uma coletânea de professores universitários mineiros) sobre as manifestações juninas. Acho que teremos que reeditar aquela cremação pública de livros do Estado Novo.
Na sequência de fotos, abaixo, você acompanha a ação desenvolvida pelos "meninos de junho" nesta tarde de calor intenso em Belo Horizonte.
Tudo começa com a famosa "Praia da Estação", uma ocupação da Praça da Estação, região central de BH, onde jovens, em trajes de banho, se refrescam com a generosa ducha de um caminhão pipa. O Prefeito Marcio Lacerda havia, anos atrás, proibido atividades culturais neste espaço, mas os jovens decidiram ocupar todo final de semana, fazendo valer o "direito de BH também ter uma praia".
Lá pelas 15h00 de hoje, a "praia" já tinha gente suficiente para o início da concentração da bateria de escola de samba. Por volta das 16h30, a bateria liderou a massa de jovens numa caminhada pela lateral da estação de trem, até o viaduto Santa Tereza, umas duas quadras da "Praia".
Ao chegarem embaixo do viaduto Santa Tereza, os "meninos" ocuparam o local em que realizaram, durante as manifestações de junho do ano passado, as Assembleias Populares Horizontais. O local estava interditado, com tapumes, pela Prefeitura (mais uma vez). Neste local também ocorria o "Duelo de MCs", no final de tarde dos domingos, envolvendo mais de 1.000 jovens, na sua maioria, da periferia da capital mineira.
Depois da ocupação, começaram a chegar mais baterias de escolas de samba, bonecos. A intenção é transformar o espaço num Occupy de Belo Horizonte. Até a Copa.
Abaixo, matéria publicada no Canal IBASE (para quem não se lembra, IBASE é a entidade que foi dirigida por Betinho) sobre o ataque desmedido e brutal da PM carioca aos manifestantes do dia 6.
A criminalização dos protestos não é mais apenas letra morta.
É fundamental que os governantes e dirigentes políticos se manifestem a respeito.
Morte em meio a protesto no Rio
Camila Nobrega Do Canal Ibase
Policiais lançam bombas na Central. Foto: André Mantelli
Na manifestação desta quinta-feira (6/2) contra o aumento da tarifa de ônibus no município do Rio de Janeiro, que vigorará a partir deste sábado ao valor de R$ 3 (um aumento de 9%), houve uma cena que não deve cair no esquecimento. Em meio à correria causada por bombas de efeito moral, arremessadas pela Polícia Militar na Avenida Presidente Vargas, uma das mais movimentadas no Centro do Rio, um senhor de 65 anos foi atropelado por um ônibus e, levado ao hospital, não resistiu. A reportagem do Canal Ibase estava cobrindo a manifestação e chegou ao local minutos depois do acidente.
Àquela altura, Tasnan Accioly, o idoso que havia sido atingido, ainda estava à espera de socorro. Trancados dentro do veículo, o motorista e a trocadora estavam amedrontados. Transeuntes que assistiram à cena contaram que o senhor, que seria um ambulante, teria corrido para a rua, em meio à multidão. Outros afirmam que o motorista também não conseguiu desviar, pois a cena ao redor dele já era de muita confusão. A despeito das dúvidas, fato é que, embora não esteja sendo computada nos números oficiais, houve uma morte que precisa ser registrada.
Manifestantes chegam à Central. Foto: Camila Nobrega
O Corpo de Bombeiros confirmou o nome da vítima e afirmou ter feito o socorro, na Presidente Vargas, na altura da Rua da Conceição (onde fica o prédio do Detran). Segundo a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Saúde, ele faleceu na mesa de cirurgia do Hospital Souza Aguiar. A secretaria ressaltou que não está contabilizando esta morte junto ao número de feridos da manifestação, pois não tem evidências de que o atropelamento tenha ocorrido em decorrência do protesto. O órgão confirma, porém, que a vítima foi levada ao hospital no mesmo horário que os demais feridos. Certo é que a cena ficou marcada para os manifestantes que ajudaram a pedir socorro. E a morte, ocorrida em um contexto de muita tensão, não pode ficar de fora das reflexões de quem deseja uma cidade para muito além dos megaeventos.
No total, houve sete pessoas feridas no momento da confusão, segundo a Secretaria Municipal de Saúde do município. O estado de um deles, como já foi largamente divulgado, é gravíssimo. Trata-se do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, atingido por uma bomba. A maior dúvida é saber quem atirou o artefato e de onde ele veio. Um comandante da Polícia Militar deu declarações à imprensa em tom de defesa, afirmando que ela seria de fabricação caseira e teria sido jogada por manifestantes. Mas o jornalista da Globo News Bruno Menezes, que estava muito próximo ao local, afirmou que bomba foi lançada por policiais. Um vídeo gravado pela BBC Brasil mostra o momento exato em que Santiago foi atingido. O câmera está internado no Hospital Souza Aguiar, onde já fez uma cirurgia de quatro horas. As outras seis pessoas foram atendidas e liberadas. Já a Polícia Civil informou que 20 pessoas foram detidas durante o protesto, mas, com a atuação do Grupo de advogados voluntários Habeas Corpus, parte delas já foi liberada.
Bombas em todas as direções e ataques a jornalistas
Pouco antes dos acidentes, o brilho intenso dos últimos minutos de sol se confundia com uma profusão de luzes e fumaça, vindas de diferentes direções. Muitas faíscas explodiam no ar. Eram bombas de efeito moral, arremessadas pela Polícia Militar para dispersar manifestantes Por volta das 19h, a passeata que havia se iniciado na Candelária chegou à Central do Brasil. O objetivo era marcar o protesto contra o aumento da tarifa – que foi anunciado logo após o governador Sérgio Cabral também desonerar as empresas de transporte do Estado do Rio de Janeiro em 50% relativos ao IPVA – e também denunciar os maus serviços prestados diariamente pelas concessionárias nos ônibus, trens, metrô e barcas. Além disso, os manifestantes exigem mais transparência na relação entre o Estado e a prefeitura com as concessionárias, devido a suspeitas de favorecimento das empresas. A confusão começou no momento em que se iniciou o “catracaço”, no qual pessoas pularam as catracas. Já havia uma quantidade imensa de policiais no local, agindo com muita truculência. Foi então que os manifestantes arrancaram uma das catracas.
Bloco do Nada toca durante o protesto. Foto: Camila Nobrega
A partir daí, a ação da polícia transcorreu de forma assustadora. Um grupo de jornalistas que registrava o protesto foi atacado por policiais ainda ali dentro. Uma bomba Foi arremessada exatamente à frente de uma linha formada por vários profissionais de imprensa, muitos cinegrafistas e fotógrafos. Foi nesse momento em que um policiais deu um chute na reportagem do Canal Ibase.
Dentro da Central, no hall da entrada para os trens e bem ao lado das catracas, dezenas de bombas de efeito moral joram jogadas, para todos os lados, no meio inclusive de trabalhadores que ali estavam apenas para pegar os trens de volta para casa. A palavra “jogadas” não está aí a toa. Quem tem acompanhado os protestos sabe bem que ela é apropriada, uma vez que tem sido recorrente o arremesso de bombas pela polícia sem nenhum critério, a esmo. Não raro, muitos grupos de manifestantes são atingidos pelas costas, enquanto correm, e sem oferecer, portanto, perigo, e sem possibilidade de defesa.
A situação se repete em relação a jornalistas que acabam na linha de frente para registrar a situação e, com frequência, têm sido alvejados pela polícia. Em repúdio aos ataques de ontem, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) publicou uma nota, ,em que afirma que o profissional da Band é o terceiro jornalista ferido em manifestações em 2014. No dia 25 de janeiro, dois jornalistas foram feridos em São Paulo: Sebastião Moreira, da Agência EFE, foi agredido por PMs; Paulo Alexandre, freelancer, apanhou de guardas civis metropolitanos. O texto afirma também: “É preocupante que 2014 comece com três casos de violência contra jornalistas. Se faz necessária uma apuração célere do ocorrido, para que procedimentos sejam revistos e para que o Estado proteja a liberdade de expressão, a liberdade de informação e o jornalista”.
Soube, agora, do falecimento do ator e músico Nico Nicolaiewsky que faleceu nesta sexta, pela manhã. Nico era o Maestro Pletskava. Tinha 56 anos. Ele estava em tratamento contra leucemia aguda desde o dia 23 de janeiro. Quem o viu deve ter ficado espantado como eu (pelo humor e pelo talento). Minha analista insiste que tenho que saber lidar com a finitude. Notícias como esta parecem contradizer esta boa intenção. Abaixo, Epitáfio, interpretada no espetáculo Tangos e Tragédias.
Ontem o centro de Belo Horizonte provou a primeira dose das mobilizações preparatórias para o Carnaval. Pois é. Tem pedágio antes da Copa. O slogan (como sempre, bem humorado e provocativo) é "Curtindo o Carnaval sem pagar nem 1 real". Não foram muitos, como no início das mobilizações do ano passado, mas continuam com fôlego invejável: três horas de caminhada pelo centro, sem causar grandes transtornos ao trânsito raivoso deste reinício do ano letivo. No domingo já está agendada mais programações dos "meninos de junho". A matéria acima é do jornal Hoje em Dia desta sexta.
Lamento que o prefeito Lacerda, de Belo Horizonte, venha se revelando tudo, menos político habilidoso, que convença e dialogue com quem o elegeu. Uma cidade com nome tão romântico deveria ter um destino melhor. Durante as manifestações de junho do ano passado, o Prefeito sumiu. Retornou vários dias depois e logo no começo da entrevista coletiva que convocou lascou uma frase antológica: "Estranhei nenhum de vocês me ligarem, Não sei o que o meu assessor de imprensa fez, mas meu celular estava ligado e ninguém da imprensa me ligou". A frase singela já revela o que se passa por estas terras rodeadas pelas montanhas. Assim que acabaram as mobilizações, várias famílias de sem-teto ocuparam a Prefeitura exigindo uma solução para suas vidas. Qual foi a imediata decisão do alcaide? Informar que em uma semana os receberia. Sim, você leu direito: uma semanaaaaa. Quando reeleito, Lacerda dizia que implantaria o modelo gerencial de tipo empresarial para gerir a Prefeitura. Não sei, sinceramente, em qual manual de administração está a dica para, no momento de pressão social, o melhor é jogar brioches. Vou consultar meus livros de história. De qualquer maneira, ontem nosso Prefeito deu mais uma prova da nova maneira de gerir a cidade. Sob pressão, o melhor é.... vocês se lembram, não? Pois é. Ontem seria a primeira reunião com a presença do município para discutir as ocupações dos sem teto (com representantes do governo federal, estadual e municipal). O alcaide de Belo Horizonte condicionou a participação da Prefeitura ao término dos acampamentos. Os manifestantes aceitaram sair da Afonso Pena, mas continuariam na calçada. O alcaide recusou. E há, ainda, a história do terreno (região do Isidoro, dentro da Granja Werneck) avaliado em mais de R$ 100 milhões numa nebulosa sem fim. Foi doada no início do século passado e depois abandonada...
Esta me pegou no contrapé. Realmente, não sei o que dizer.
Vejam o que ele disse, recentemente, sobre as manifestações de rua. Seu pensamento era jovem.
Morre, aos 81 anos, padre João Batista LibanioO jesuíta e vigário da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, em Vespasiano, sofreu um infarto em Curitiba durante uma viagem
Morreu na manhã desta quinta-feira o padre João Batista Libanio, vigário da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, em Vespasiano, na Grande BH. O jesuíta de 81 anos estava em Curitiba (PR) e sofreu um infarto. Reconhecido mundialmente por seu profundo conhecimento na área teológica e sua ação pastoral junto aos mais simples, padre Libanio prestou importante e valioso serviço à Arquidiocese de Belo Horizonte.
O religioso era doutor em Teologia, professor na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Estudou Filosofia na Faculdade de Filosofia de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, e também cursou em letras neolatinas na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Seus estudos de Teologia Sistemática foram concluídos na Hochschule Sankt Georgen, em Frankfurt, Alemanha, onde também estudou com os maiores nomes da teologia européia.
Era mestre e doutor (1968) em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) de Roma. Por mais de trinta anos dedicou-se ao magistério e pesquisa teológica. Foi professor de teologia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul e do Instituto Teológico da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Posteriormente foi professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
É autor de mais de 125 livros, dos quais 36 de autoria própria e os demais em colaboração com outros autores, alguns editados em outras línguas. Além dos mais de 40 artigos em periódicos especializados, publicou inúmeros artigos em jornais e revistas. Foi assessor da Conferência dos Religiosos do Brasil e do Instituto Nacional de Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Em entrevista ao Estado de Minas, em julho de 2013, Libanio falou sobre o Papa Francisco. “Ele vai levar também a imagem de que os políticos não pensam no futuro do país, são egoístas. Com as recentes manifestações nas ruas, descartando-se, claro, atos de vandalismo, o papa Francisco viu uma geração nova que avança e tem força para mudar os destinos do Brasil”, avaliou. Junto com outros jesuítas em Minas, ele comemorou a eleição do santo pontífice.
Não era nem um pouco previsível.
Mas, desde que a PM e os administradores de shoppings, aliados a algumas rádios sensacionalistas fomentaram a discriminação contra os rolezinhos, os "meninos de junho" tentaram encostar nos "ídolos" dos rolezinhos. Antes das manifestações da última semana, tentaram agendar "Rolezaum" em alguns shoppings mais centrais, em várias capitais do país. Não deu em nada.
O PCdoB, pelo que informa a matéria publicada no Terra (abaixo), conseguiu. O que revela uma capacidade e tanto deste partido em envolver a juventude brasileira. Já comandam grande parte das organizações estudantis do país. Agora, encostaram com precisão nos rolezinhos.
Com boa dose de ironia, afirmo que o PCdoB precisa dar uma medalha à PM, principalmente a paulista. É o maior motivador de politização da juventude brasileira, desde junho do ano passado.
Uma medalha de menor expressão deveria ser dada para os administradores de shoppings e às rádios sensacionalistas.
Já para a classe média tradicional, bem, aí a obra de Anton Tchecov já revelava o que esperar de seu comportamento padrão desde o século XIX.
SP: organizadores de rolezinhos se filiam à União da Juventude Socialista
De acordo com a entidade, entre os novos membros está Vinicius Andrade, um dos líderes do rolezinho ocorrido no Shopping ItaqueraFoto: Divulgação
Segundo Vinicius, a UJS o fez enxergar a necessidade de construir uma nova sociedade, onde as necessidades da juventude da periferia sejam atendidas. “Não queremos briga, arrastão e violência. Queremos apenas nos encontrar, nos divertir, beijar na boca e ocupar todos os espaços sem sofrer preconceito por parte da elite ou violência por parte da polícia. Não iremos desistir e, com o apoio da UJS, vamos até o fim”, disse ele.Organizadores dos chamados rolezinhos em São Paulo se filiaram na última segunda-feira à União da Juventude Socialista (UJS), entidade ligada ao PCdoB e que comanda a União Nacional dos Estudantes (UNE). De acordo com a UJS, entre os novos membros está Vinicius Andrade, um dos líderes do rolezinho ocorrido no Shopping Itaquera, na zona leste da capital, no último dia 11.
“Quando organizamos o ‘rolezinho’ no Shopping Itaquera, os ‘coxas’ não respeitaram nem as meninas que foram até lá. Violência foi pouco. Tapa na cara, cassetetes e xingamentos. Quem passava tomava e ouvia: vai sua piranha”, contou Vinicius aos membros da UJS no seminário preparatório para o 17° congresso da entidade.
A vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão (PCdoB), também esteve presente no evento. “Foi excelente a ideia de trazer os meninos do ‘rolezinho’ até essa atividade. Esse foi um fenômeno muito interessante. São Paulo tem uma porção de problemas, é uma cidade dura, uma cidade difícil, mas existem coisas bem interessantes também, como esses acontecimentos sociais que se propagam com uma imensa facilidade”, disse ela.
A reunião de jovens da periferia convocados pelas redes sociais para dar um "rolé" em alguns shoppings da região metropolitana de São Paulo assustou lojistas e alguns consumidores. O movimento ganhou força depois que dois centros comerciais da capital de São Paulo conseguiram uma liminar que os autorizava a impedir a entrada de garotos suspeitos de participarem dos eventos convocados pelas redes sociais. Movimentos sociais deram apoio aos "rolezinhos" e acusaram os shoppings de praticar "apartheid" .
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Minha participação no Opinião Minas (Rede Minas, TV Pública do Estado) sobre rolezinhos.
Ao lado e abaixo, matéria do jornal Metro BH sobre as manifestações que devem ocorrer na capital mineira durante a Copa de Futebol. De um lado, o preparo do governo. De outro, a reação dos "meninos de junho". Vale a pena.
Finalmente saiu um vídeo mostrando o que aconteceu no caso do fusca em chamas no protesto contra a Copa. Ao mostrarem uma série de fotos, uma grande quantidade de defensores do governo Dilma correram para afirmar que os manifestantes atearam fogo de propósito no carro ao mostrarem fotos dos manifestantes próximos do carro enquanto ele pegava fogo.
Na verdade os manifestantes haviam incendiado colchões na rua para bloquear a passagem dos carros. Um serralheiro com seu fusca arriscou e tentou atravessar os colchões em chamas, quando o carro ficou enganchado no colchão, incinerando o carro.
O vídeo abaixo revela que os manifestantes correram para socorrer as pessoas que estavam dentro do fusca e não atacando o carro.
Outro vídeo do Estadão mostra essa mesma cena filmada bem de perto.
Nos últimos dias, as declarações do ministro Gilberto Carvalho soaram como música para quem sempre acreditou que o discurso petista não era blefe.
Com coragem e honestidade (é possível até aventar que as declarações teriam motivação nas disputas que antecedem a reforma ministerial, mas isto já é pura especulação), Carvalho, conhecido por sua fidelidade absoluta à Lula, começou afirmando que as manifestações de junho deixaram o governo perplexo e com sensação de ingratidão. Nada mais coerente. Se ficaram perplexos é porque - como a quase totalidade dos brasileiros, ressalte-se - não sabiam do que estava sendo armado e os sentimentos difusos que envolviam parte significativa da população. Ora, sem saber do tsunami que se formava nas profundezas do oceano, seria mais que certo que não conseguiram entender os motivos para tanta raiva contida. Afinal, o governo e o PT estão focados nos processos eleitorais. Falam mais para os adversários que para sua base social (ou a base social que pretendem defender e atender prioritariamente). Daí tantas comparações com o governo FHC, justamente porque, na comparação, estão fazendo tudo certo. O problema é que estão anos-luz das promessas petistas, desde sua fundação. E é aí que mora o perigo para os petistas.
Basta uma passada de olhos nas postagens do baixo clero petista nas redes sociais para perceber o pavor do que o inusitado das ruas pode provocar nas eleições de outubro. Algo extremamente estranho para a história petista. A argumentação "chapa branca" desses militantes virtuais (os mais exaltados, evidentemente) leva sempre ao mesmo ponto: o voto útil. Qualquer crítica pública ou apoio aos protestos de rua já são enquadrados como "fazendo o jogo da oposição". Em seguida, o mais grave, começam as ofensas pessoais e "provas", fundadas na velha teoria conspiratória, de financiamento estrangeiro e articulações fascistas que formariam a base dos que adotam o "quanto pior, melhor" como mote de vida.
Mas, aí, vem à público a velha guarda petista, fundada em valores cristãos (conheço Gilberto Carvalho desde os tempos em que contribuí com o Instituto Cajamar, na formação de dirigentes sindicais cutistas), que não fica ajoelhado a esta parca argumentação fútil e imediatista e nos brinda com estas declarações:
"Neste momento nos damos conta que as conquistas importantes que tivemos estão dadas. Foram importantes, mas absolutamente insuficientes. Tivemos um processo de inclusão social inegável e devemos nos orgulhar disso. Mas temos que reconhecer que foi absolutamente insuficiente. A corrida veloz para o consumo não foi acompanhada de um grande debate em torno de outros valores".
Não poderia ser mais correto politicamente.
Obviamente que os petistas exagerados e com baixo compromisso público devem ter se desesperado. Não há motivo algum. Ao contrário. A fala do ministro retoma o compromisso estratégico de um governo petista, algo que está quase morto em alguma gaveta.
O que Carvalho sugere é a necessidade de uma nova geração de políticas focadas não apenas na transferência de renda, mas na promoção política e de valores. No meu entender, retoma as teses gramscianas que acalentaram o PT e a igreja católica progressista nos anos em que as duas forças estiveram nas ruas, de onde brotava a energia moral. Naquele período, os ataques ferozes ultraconservadores (envolvendo até mesmo parte da esquerda tupiniquim) eram tratados com ironia e bom humor, tendo Lula à frente. Por que não agiam como os chiuauas virtuais de hoje? Porque não havia necessidade alguma. Porque a base social, ou a parcela mais organizada da base social preferencial petista, estava aliada ou se sentia representada. E, também, porque naquele momento, o PT tinha como foco a construção da hegemonia (os valores e crenças) da sociedade que levaria, como consequência, ao governo. Era a máxima gramsciana: "é possível ter poder sem ser governo".
O PT de hoje inverteu esta lógica porque tem menos crença. É mais pragmático porque é mais imediatista.
E é este o motivo da militância (que denomino de "baixo clero", termo criado por Ulysses Guimarães) virtual petista se desesperar e desfechar ataques pessoais procurando desqualificar qualquer argumento crítico à atual quadra da história petista: o foco nas eleições.
Assim, o PT se aproximou da lógica do sistema partidário brasileiro e se soma à mesmice que procurava reformar.
Há sentido, portanto, no desespero da militância petista virtual. Para o foco atual do PT. Não para o que motivou sua fundação, muito menos para a identidade que construiu à duras penas.
Em suma, os militantes virtuais podem ser tudo, menos petistas. Ao contrário do ministro Carvalho.
MENINOS EU VI ! (OU QUASE VI)
Por: Andre Borges Lopes
27/01/2014
Eu não fui à manifestação do sábado, mas a manifestação veio a mim. Eu estava defronte o Teatro Municipal acompanhando a xepa das barracas de comida dos “chefs” quando a passeata chegou acompanhada do que eu calculo que seja uns 20% do contingente da gloriosa Força Pública na Capital. Os fardados provavelmente já estavam meio putos já que as folgas de sábado tinham sido canceladas e eles estavam “escoltando” a pé a garotada desde a Avenida Paulista, até então sem maiores contratempos.
Registrei no celular o Abre Alas subindo a Xavier de Toledo rumo à Biblioteca Mario de Andrade. O vídeo esta aí para quem quiser ver com seus próprios olhos a heterogênea composição sócio-etária-antropológica desse pequeno exército de Brancaleone. Arrisco a dizer que não havia mais do que uns 700 ou 800 passistas – incluindo uns gatos pingados na Velha Guarda e na Ala das Baianas. Todo o cortejo não ocupava meio quarteirão, contado da Comissão de Frente até a linha dos milicianos fardados que encerrava o desfile trajando vistosos coletes fluorescentes (vou postar umas fotos nos comentários). A grosso modo, estimo que a quantidade de meganhas superasse a militância numa vantagem de 2 para 1.
Momentos antes, o Sétimo de Cavalaria Motorizada da Força Pública havia emergido de surpresa das matas da praça Dom José Gaspar com suas motocas e feito uma sonora demonstração de carga ligeira rumo aos baixios da Rua Augusta. Mas no momento da filmagem já estava tudo em relativa paz. Pelo que eu vim a saber depois, nessa altura da passarela a ala Black Bloc tinha se dispersado (ali nas imediações do Municipal), e já estava ocupada quebrando uns bancos na Sete de Abril e apanhando da “massa popular alienada” no show de black music da Praça da República.
No cruzamento da Av. São Luis o clima começou a ficar mais tenso. As Waffen-SS do Choque se apresentaram com seus pesados uniformes de combate e a ala dos milicianos fluorescentes passou a exercer nervosamente o pequeno poder de impedir os transeuntes de virar a esquina rumo à Praça da República. Como até aquele momento o protesto não tinha rendido boas imagens, alguém resolveu facilitar o trabalho dos fotógrafos dos jornais e tacou fogo numa caçamba de lixo na subida da Consolação – o que causou um belo efeito visual na luz do crepúsculo. Era a deixa que a artilharia da PM esperava para começar a queima de fogos e forçar a dispersão do cortejo com a delicadeza que lhe é peculiar.
Como eu não estava particularmente a fim de fornecer o meu lombo para o descarrego das tensões e frustrações mundanas dos milicianos, achei melhor ir tomar uma gelada no Lanches Estadão, que estava lotado e barulhento como de costume. Só fui chegar na Rossevelt uma hora mais tarde, quando a carcaça do pobre Fusca do Seu Itamar serralheiro ainda fumegava, depois de ter roubado a cena e garantido a capa dos jornalões do dia seguinte. A meio quarteirão dali, o samba e cerveja rolavam soltos nos botecos lotados da rua Cesário Mota, onde o povo folgazão se divertia – alheio à opera bufa que fechava as cortinas na praça dos Parlapatões.
Um avanço formidável dos grupos de cultura colaborativa com o poder público é a realização dos hackathons, uma combinação das palavras inglesas “hack” (programar excepcional) e “marathon” (maratona). Nestes encontros, que duram em média 24 horas, hackers, programadores, desenvolvedores, designers, gerentes de projetos e inventores em geral se reunem para transformar uma idéia em realidade, na velocidade da Internet.
A busca é por soluções na área pública para áreas como educacão, transporte, saúde, um exemplo promissor de como a participação da sociedade civil será parte da gestão pública em um futuro bem próximo.
A matéria prima destes encontros são os dados públicos governamentais abertos, que começaram a ficar disponíveis com a Lei Complementar 131 do Governo Lula, que determinou a abertura dos dados dos gastos públicos e foi um importante passo em direção à consolidação da transparência no Brasil.
Em 2011, o governo Dilma regulamentou com a “Lei 12527 – Lei de Acesso a Informação” um direito previsto na Constituição Federal que determina que as principais informações dos orgãos públicos devem ser postas automaticamente na Internet, que o acesso a informação pública pertence ao cidadão, sendo o governo apenas um admistrador destes dados.
A transparência nos dados públicos, a participação popular nos fóruns presenciais ou virtuais e nas redes sociais são chaves essenciais para acompanhar de perto os gestores. Este amadurecimento da cidadania participativa é um aprendizado do “espírito hacker” e das redes livres, que defendem a informação aberta e compartilhada e a busca de soluções criativas e inovadoras para uma sociedade mais cooperativa, transparente e democrática.
O “hacker do bem” além de contribuir para que a informação, cultura e o conhecimento circulem livremente, também podem combater as ações criminosas dos “hackers do mal” ou “crackers”, que roubam senhas e criam mecanismos que causam prejuízos financeiros a pessoas físicas e jurídicas.
Nesta gestão da prefeitura de São Paulo, instalou-se pela primeira vez na controladoria-geral, uma equipe de programadores para mergulhar com total independência em busca de buracos e vazamentos no casco e nas cracas da administração pública. De cara, iluminou-se a ponta do iceberg de uma quadrilha do ISS instalada na Prefeitura, que em um conluio nefasto com as construtoras da cidade, extraia anualmente milhões de reais da arrecadação paulista, um furo que lentamente esvaziava a força da cidade, prejudicando milhões de pessoas e enchendo de água os motores do orçamento.
Estão previstos vários hackathons neste ano e vale a pena entender o conceito para replicar o formato em todas as capitais do Brasil.
A primeira capital que precisa urgentemente de um hackathon, por motivos óbvios, é São Luis do Maranhão. Dificil vai ser contar com o apoio de algum orgão público estadual ou municipal disposto a bancar o projeto e a encrenca de mexer em um vespeiro como este. Por estas e tantas outras, o Governo Federal, inspirado no programa “Mais Médicos” deveria criar o programa “ Mais Hackers”, um amplo pacto para aumentar a transparência pública, levando mais programadores e cientistas da computação para as chagas e os buracos negros da administração pública, especialmente onde há escassez de profissionais, liberdade, autonomia e falta de infra estrutura de acesso.
Com a convocação de mais hackers para atuar em municípios com maior vulnerabilidade social, o Governo Federal poderia investigar suspeitas de existirem fortunas que estão em paraísos fiscais, como recentemente foi apontado pelo Wikileaks e evitar que este tipo de crime e quadrilhas se perpetuem por gerações e gestões.
A iniciativa deveria expandir a infra estrutura para Wi-Fi livre e ampliar número de vagas para cientista da computação, além de incentivar o aprimoramento da formação técnica em ciência da computação no Brasil, inclusive entre jovens e adolescentes. Um bom exemplo da importância de se aprender ciência da computação desde cedo, é o programa Code.org lançado recentemente nos Estados Unidos.
“Todo mundo neste país deveria saber como programar um computador. Porque isso nos ensina como pensar”. Esta frase de Steve Jobs abre o vídeo da campanha What Most Schools Don’t Teach (veja abaixo). O objetivo da iniciativa é despertar no povo dos Estados Unidos o interesse na computação e desenvolvimento de software, algo tão ou mais importante do que aprender um outro idioma. Os americanos podem ser acusados de muitas coisas, mas sabem combater a corrupção, pelo menos no seu país.
Voltando para São Paulo, com a criação das praças com Wi-Fi, o apoio à cultura colaborativa e do software livre, a aprovação do Parque Augusta, a faixa exclusiva de ônibus, e o projeto que pretende oferecer trabalho na Prefeitura para ajudar pessoas com dependência química, Haddad pode ser reconhecido como o primeiro prefeito a hackear sua própria cidade e um exemplo a ser acompanhado.
A transparência pública e privada é atualmente um dos melhores antídotos para combater a corrupção. Que venham mais dados abertos, mais hackers e hackatons em todo Brasil.
A Veja desta semana publica uma interessante matéria sobre os rolezinhos e o orgulho do que denomina de "República Periferia". Algo que eu venho destacando desde o início dos rolezinhos e que revelou a cultura estamental (cada casta em seu lugar) das classes médias brasileiras e parte da nossa imprensa.
Aliás, eu dou minha opinião logo no início da matéria (reproduzo, abaixo, a página).
A questão é que o Brasil mudou e a grande maioria da nossa elite (inclusive política e sindical) não consegue ajustar seu olhar. Analisam o novo com os óculos do século passado.
Vejam o caso das manifestações de ontem. No twitter, durante a noite, uma legião "chapa branca" tentou vender a versão que se tratava de vândalos em número reduzido. Bastou notícias veiculadas nesta manhã (1.500 manifestantes em São Paulo e atos de violência que não envolveram os manifestantes, além do assassinato de um manifestante na região de Higienópolis pela PM) para esta farsa começar a ser desmontada.
Vejam esta excelente matéria produzida pela revista Caras.
Aqui mora a histeria contra os rolezinhos. Entendo ser uma profunda desinformação de parte da elite econômica tupiniquim. A partir desta constatação é possível até compreender porque um rolezinho vira o fim dos tempos.
"Estamos apavoradas", dizem ex-participantes do 'Mulheres Ricas' sobre 'rolezinhos' em shoppings de luxo
A advogada Regina Manssur e a arquiteta Brunete Fraccaroli jantaram juntas em Paris, na França, e conversaram sobre a situação dos shoppings de luxo no Brasil
A advogada Regina Manssur e a arquitetaBrunete Fraccaroli, ex-participantes do reality show Mulheres Ricas, na Band, se encontraram em Paris, na França, no último final de semana e conversaram sobre os 'rolezinhos', que têm assustado os frequentadores de shoppings de luxo de São Paulo e de todo o Brasil.
Em entrevista exclusiva para a CARAS Online, Regina contou que as duas "estão apavoradas" com os passeios programados por jovens em centros de compras e que "acabou a última opção de lazer dos paulistanos e dos que visitam a cidade".
Elas se encontraram no renomado restaurante Ambroise, na Place des Voges, que tem classificação três estrelas do guia Michelin. Elas degustaram caviar lagostins, trufas e uma sobremesa de maracujá e chocolate envolta em uma casca fina. "Realmente para quem pode e nós duas podemos nos dar este luxo", disse Manssur.
Segundo a advogada, a violência no Brasil e a situação caótica nos shoppings tomou conta da conversa. "Conversamos principalmente sobre a situação triste em que se encontra nosso pobre país com relação à violência e como estamos apavoradas com este tal 'rolezinho' nos shoppings! É um absurdo! Na minha opinião, acabou a última opção de lazer dos paulistanos e dos que visitam nossa cidade", contou Manssur.
A socialite justificou sua opinião dando como exemplo as crianças e os idosos que frequentam os shoppings da cidade. "No shopping vão pais com crianças, adolescentes, casais de idade! Um tumulto com este público seria uma tragédia! E esta situação choca mais quando você está no exterior, onde existe o respeito pela lei. A situação do Brasil perante o mundo é ridícula e vergonhosa. O turista que vier para a Copa do Mundo vai ter que ser muito corajoso! Imaginem o que pode acontecer", disse.
Durante o encontro em Paris, as duas compararam a situação dos habitantes da cidade francesa e dos brasileiros. "Realmente é uma vergonha. As pessoas que têm a oportunidade de viajar podem perceber como as pessoas de fora vivem de uma forma diferente! Andam nas ruas, usam joias e nem pensam em carro blindado! É claro que existem furtos ou batedores de carteira. Mas nada que se compare com a violência que vemos todos os dias", contou Manssur.
Regina e Brunete também conversaram sobre as férias que curtem no exterior, aproveitando o inverno do continente europeu. "Esquiamos nas estações de neve mais chiques do mundo e chegamos à conclusão de que somos ricas e felizes, pois trabalhamos e podemos ter e pagar por nosso luxo. Temos muito bom gosto, pois gostamos das mesmas coisas", afirmou Manssur.
As duas aproveitaram, ainda, para cutucar as outras participantes do Mulheres Ricas, na Band, e reafirmaram o desejo de participar da terceira edição do reality. "Concordamos que a segunda edição deixou muito a desejar, pela direção muito fraca e pelo elenco idem, pois algumas 'ricas', de ricas não tinham nada! Muito menos classe! E concordamos que mulheres chiques, dentre as quais nos incluímos, o Mulheres Ricas 3 pode ser um sucesso. Sem gente debochada, pois a vida de mulher rica é luxo e não barraco", completaram.